The pampas of ennui

Being Leonardo Boiko's online Journal, featuring Long & Very Sporadic Essays on any Subject.

Sobre interdisciplinaridade na FFLCH/USP

27 March 2012

Tornando público o que escrevi hoje para a FFLCH.

* * *

Caros administradores:

Sou aluno da habilitação em japonês e desejo trabalhar com a
lingüística histórica desta língua. Como suporte natural de tal linha de pesquisa, gostaria de estudar a matéria [X], mas ela não é oferecida senão para os alunos da habilitação de lingüística—como se a ciência lingüística não fosse essencial na formação dos pesquisadores de língua e literatura em geral. Conversei com o prof. responsável, [Y], que apoiou minha intenção de cursar regularmente essa matéria. Entrei, portanto, com requerimento de matrícula, e passei a frequentá-la normalmente até o presente momento.

Eventualmente meu requerimento foi recusado pela prof. [Z] com o motivo de “turma lotada”. Ora, esta não é uma matéria que exige materiais custosos ou outros gastos marginais notáveis por aluno, e a sala de aula é bastante ampla e está com muitas cadeiras de sobra. Conversei novamente com o professor, que afirmou não haver problema algum com lotação e que eu deveria entrar com recurso. Entrei; o recurso foi também recusado, dessa vez pela prof. [W], com um simples “não há vagas”—novamente de encontro com a opinião do prof. responsável pela própria turma.

Acredito que minha média atual provavelmente seria suficiente para pelo menos competir por uma vaga, se a matéria não fosse fechada e restrita. Em outras palavras, o motivo da exclusão foi meramente a super-especialização promovida pelo atual sistema de habilitações (que não permite, entre outras coisas, habilitação dupla em lingüística/língua estrangeira). Quando fui escrever o recurso, encontrei na S.A. um panfleto da administração dando as boas-vindas aos calouros da FFLCH. O texto do panfleto dizia que a FFLCH ocupa papel fundamental na USP por fazer “articulação entre os diversos saberes”. O estatuto da USP afirma o compromisso de “estimular a investigação científica, particularmente a que tenha caráter interdisciplinar”, e que os programas de ensino devem ter “enfoque multidisciplinar”; toda a retórica da Universidade destaca o valor da interação entre as áreas de conhecimento. A realidade com que a comunidade se depara é bem outra: dos 178 créditos da minha habilitação, apenas 8 podem ser cursados fora dos departamentos de Letras, e mesmo dentro da Letras há todo o tipo de barreira burocrática e má-vontade em permitir o diálogo e contato entre os departamentos. Os alunos não são sequer orientados sobre o sistema de extracurriculares ou a possibilidade de matrícula por requerimento. Certos departamentos proíbem alunos ouvintes, com regulamentos impostos de cima para baixo e que passam por cima do professor, limitando ainda mais o acesso do público geral à Universidade por ele financiada. A proposta do prof. Renato Ribeiro, de uma graduação interdisciplinar em Humanidades (nos moldes do atual Ciências Moleculares), foi prontamente barrada. Mesmo reformas curriculares que buscavam uma modesta interação intra-FFLCH não tiveram nenhum resultado.

Eu me pergunto: Se o professor quer lecionar a matéria para um aluno, e este aluno deseja estudar a matéria, e a sala de aula dá pleno suporte para tal, mas a Universidade o impede, então qual é o objetivo da Universidade? Para que serve este prédio? Qual o sentido de uma administração educativa que ativamente impede a transmissão do conhecimento? A tendência da USP à super-especialização parece estar caminhando para um modelo de fábrica de profissionais, reduzindo o ideal do saber universalizante ao simples técnico orientado ao mercado. Medidas como a Portaria 17, que centralizam o poder de decisão e removem a autonomia do professor, apenas fazem agravar a já evidente falta de liberdade interdisciplinar.

Mudei-me para São Paulo para participar da comunidade da USP—não só como aluno mas também como funcionário—em grande parte porque acreditei na retórica do multidisciplinar; acreditei que, diferentemente de uma nova-particular qualquer, esta instituição seria um centro de formação enriquecedora do indivíduo, como todas as grandes universidades da história, e que aqui um aluno poderia ter uma educação completa. Preciso dizer que estou decepcionado com as limitações administrativas arbitrárias, cujo absurdo, a meu ver, beira o kafkaniano.

Atenciosamente,

Leonardo Boiko

2 comments

Comments (2)

  1. Se você estivesse mais preocupado em fazer greves ao invés de estudar, você não teria que passar por tudo isso. Já parou pra pensar no quanto as aulas atrapalham as greves e as festas? Nisso você não pensou, né?

    Estudar deve ser uma das coisas mais difíceis de fazer na Letras. Se não fosse pela biblioteca e uns poucos professores legais~

  2. Da próxima vez, tente a FEA.
    Se você realmente quisesse algo na vida, você estaria lá.

    USP: FEA > todo o resto > FoFiTo (resto do resto) > FFLCH (resto do resto -2).

    FFLCH: Todo o resto > Letras

    Letras: Linguística > resto > Hufflepuff ( Grevistas > Festeiros(?), aka 90% da população vigente > estudantes (<- você está aqui).

    O mais legal é ver que, mesmo que você fosse professor, você não teria voz nenhuma nessa burocracia da USP. Mas como você é só aluno… = ^_^=

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