The pampas of ennui

Being Leonardo Boiko's online Journal, featuring Long & Very Sporadic Essays on any Subject.

Educação e gênero em 2012

02 April 2012

1. Quando você convive com pessoas inteligentes e progressivas, às vezes fica confortavelmente alheio de problemas de gênero. Mas vivemos numa sociedade retrógrada, e fatalmenta você vai esbarrar numa intrusão do Real de tempos em tempos. Por exemplo, um conhecido de Curitiba acabou de contar que recebeu uma nota da escolinha da filha dele, avisando que as professoras estavam preocupadas porque ela só gostava de coisas de menino (super-heróis, etc.); e que estavam tentando sanar este problema ensinando-a a brincar com Barbies. Precisei de alguns momentos pra conciliar esta notícia com o fato que vivemos em 2012 e não 1942.

2. No mesmo dia, tive outra surpresa, desta vez mais perto de casa; algo que aconteceu em nossa própria escolinha. Foi algo minor, mas… bem, acho que a mensagem que enviamos explica nossa opinião a respeito:

Caros [X],

Soubemos que, recentemente, educadoras da escolinha instruíram diretamente o Samael—e também sua irmã, Valentine—que ele não deveria usar a presilha de cabelo que havia escolhido para sair de casa. Pelo relato, os termos específicos foram que ele “não pode”, “porque é de menina”.

Gostaríamos de deixar claro, antes de mais nada, que estamos no geral satisfeitos com a qualidade da educação em [Y]; o cuidado e atenção dedicados às crianças é evidente, e está claro que vai além do meramente profissional, pelo que somos muitos gratos. Porém, nós, como pais, nos opomos aos valores promovidos pelo tipo de atitude tomada no evento descrito acima. Fazemos questão de não exigir das crianças que se encaixem forçosamente em papéis de gênero. Naturalmente, vivemos em uma sociedade na qual tais papéis são muitas vezes normativos (a nosso ver, irracionalmente), e não escondemos essa verdade de nossos filhos; por exemplo, dissemos ao Samael que, se ele quisesse usar a presilha em questão, muitas pessoas poderiam rir dele; mas, no fim, a decisão de se conformar ou de violar tais expectativas sociais tem que ser deles, e qualquer que seja a decisão, consideramos nosso papel apoiá-la. Não vemos problema algum que as educadoras orientem, por exemplo, sobre a probabilidade de ironia ou estranhamento pelos outros colegas, ou sobre o fato que muitos (mas não todos os) homens evitam usar esse tipo de peça. Mas quando isso é expresso como um “não pode”, extrapola-se da informação para a normatização de papéis de gênero, que consideramos fora dos limites. Em particular, gostaríamos de passar a eles a noção de que mulheres não são inferiores aos homens, e que, como conseqüência lógica, o fato de um homem vestir peças de roupa ou comportar-se de forma “feminina” (brincar com bonecas, etc.) não tem nada de cômico ou degradante; e também que muitos homens (inclusive, ocasionalmente, o pai deles) fazem coisas que alguns consideram “de menina”, e que não há nada de errado ou proibido com isso.

Compreendemos que não houve nenhuma intenção de repressão por parte das educadoras, que com certeza só estavam pensando no bem das crianças. Mas somos uma família que tenta passar uma postura crítica quanto a questões de gênero, e gostaríamos de pedir que isso fosse respeitado no futuro.

Atenciosamente, &c.

3. Exagero? Sim, um pouco. Lembro que, a despeito de ter sofrido horrores com normas de gênero a infância inteira, eu não me considerava especialmente (ou ativamente) “feminista” há uns dez anos atrás. Mas acredito que, quando você tem filhos (de qualquer sexo genético ou identidade), torna-se impossível ficar politicamente neutro. Ou você põe a mão na massa e ensina eles a combater as pressões sociais, ou, por omissão, coaduna com essas mesmas pressões. Se você quer que seus filhos não tenham bloqueios internos quanto a fazer, vestir, ou viver da forma que preferirem, precisa mostrar como rejeitar bloqueios externos, a fim de previnir que se internalizem. Às vezes você simplesmente tem que ser militante. Senão, quando vê, estão tomando os Batmans e trocando por Barbies.

5 comments

Comments (5)

  1. Oi!
    Muito boa a resposta de vocês. Tenho passado pela mesma dificuldade, inclusive dentro da família. A priminha que só quer saber de Barbie e princesas acaba não deixando meu filho brincar com ela, porque diz que “a brincadeira é de menina”. Como damos uma educação parecida com a de vocês, eles ficam confusos (tenho um menino e uma menina).
    Quando isso acontece na minha frente, intervenho e digo que não existe isso, que todos podem brincar do que quiserem, e a priminha acaba deixando a brincadeira rolar. O problema é quando não estamos perto e acho que isso deve acontecer bastante na escolinha.

  2. Demais! Espero que a escolinha entenda o recado. :-)

  3. Acho que essa atitude de vocês não é só um jeito de lidar, muito conscientemente, com questões de gênero, como é uma lição importantíssima pra vocês, pras crianças e prxs educadorxs sobre cidadania, autonomia, sobre a relação entre indivíduo e sociedade, sobre consciência política.

    Isso acontece quando começa a se discutir gênero, acaba se discutindo a própria noção de humanidade. Parabéns! Torço para que cada vez mais famílias tenham a coragem e a sensibilidade de vocês.

  4. Obrigado pelo apoio de todos.

    A diretora da creche veio conversar comigo, e disse que entende e apóia nossa atitude, e marcou uma conversa com as educadoras responsáveis (no geral a creche é razoavelmente consciente quanto a questões de gênero, sem fazer distinções de quem brinca com qual brinquedo etc; mesmo assim aconteceu este caso). Ela até pediu para levar nosso texto para uma reunião de pedagogos, porque parece que os educadores de creches reclamam que em geral os pais pedem para que papéis de gênero sejam inculcados (“ensine minha filha a ser feminina”), e ela queria mostrar um contra-exemplo.

    Algumas pessoas têm perguntado se podem reproduzir o texto. Considerem ele em licença aberta de Attribution-NonCommercial—i.e. reproduzam à vontade, desde que não para fins comerciais. (repostar em blogs gratuitos que incluem propagandas não conta como “comercial” pra mim.)

  5. Pingback: Bule Voador » Educação e gênero em 2012

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