Os amigos vivem me perguntando como é ser pai. Aí vão três respostas.
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Interessante nos primeiros meses é assistir a evolução da espécie em fast-forward. Você fica corujando sua cria: no começo ela é pouco mais que uma máquina de mamar e dormir, depois aprende a fixar o olhar em objetos, a acompanhá-los com a cabeça, descobre que tem mãos, aprende a usar o polegar opositor, a sentar, a se arrastar… quando você percebe ela está deslizando pela casa inteira mexendo tudo o que pode alcançar.
O legal de ser pai é o sorriso dela quando te vê; é o jeito que ela se agarra em você como um gatinho e se recusa a mudar de colo; é sentir um peso no ombro de manhã cedo e descobrir que ela acordou, engatinhou até o seu lado e se aninhou ali. Ter uma criaturinha dessas dependendo de você mexe com algo muito profundo, instintivo (outro dia estava passeando com ela e alguém estava arremessando pedras na rua (?), uma das quais quase nos acertou; e eu que sempre fui covarde e fujão de repente me vi extremamente agressivo, irritado com a idéia que machucassem a menina). A certeza que você tem é que, pelo menos por enquanto, esta pessoinha gosta de você; ela quer ficar perto de você, sem se importar se você é chato, deprimido, bicha ou o quê. É assim que me sinto como pai: finalmente aceito.
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O que me surpreendeu nos primeiros meses foram as caras feias e os tons de reprovação quando eu contava que era pai. Quer dizer, eu estou fazendo algo que a sociedade quer, não? Sou um assalariado e constituí família; vocês ganharam; não deviam estar contentes? Mas não, todos me tratam como se ter uma filha fosse algo vergonhoso. Em São Paulo não consegui lugar para viver basicamente porque os donos de condomínio rejeitavam a idéia de uma criança morando lá. Comecei a entender o raciocínio quando algumas pessoas mais próximas (e alguns desconhecidos na rua) tiveram coragem de falar o que os outros só implicavam: “Você é pai, já? Mas é tão novo!”
Fiquei encucado com isso um bom tempo. Como assim, tão novo? Minha mãe me teve com 17, meu padrasto me adotou com 22; minha bisavó casou com 14, o que era comum na época. Hoje em dia tem todo um sistema de suporte para pais adolescentes, e já vi muito pai de 18 não chamar a atenção mesmo lá no interior. Eu tenho 24 e minha esposa, 30, não somos crianças mais. Por que tanto barulho por nossa filhote? Por que o tom de condenação, as insinuações de que somos irresponsáveis, que devíamos ter usado camisinha ou abortado?
Foi reparando nos pais de 18 socialmente aceitos que compreendi que eles não estavam falando de idade biológica, e sim de uma noção fuzzy de maturidade — noção essa misturada com conformismo, com o ser-igual. Eu não sou muito novo porque nasci em 83; sou muito novo porque sou (era) um “estudante”, uma pessoa-que-estuda, portanto alguém que não pode ter família; sou muito novo porque não casei na igreja, porque uso tênis e camiseta, porque pinto o cabelo, porque ando no meio-fio, jogo videogame, leio quadrinhos. Por esses critérios, vou ser muito novo a vida toda. Aparentemente gente como eu não são pessoas adequadas para procriar.
Eu devo ter vergonha de meu temperamento, dos meus problemas emocionais, do tratamento dos meus problemas emocionais, da minha opção de carreira, dos meus sonhos, da minha orientação sexual, da minha opção de relacionamento e agora da minha filha, também. É assim que me sinto como pai: ainda não aceito.
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Eu brigo com a depressão, trabalho demais e depois de menos, viajo pra fugir e tudo vai atrás de mim; passo o dia jogando nethack e tentando ocupar a mente para aquela Coisa não voltar, lembro daquela moça e fico meia hora agachado sob o chuveiro como se quisesse escorrer pelo ralo, ouço música e penso pela enésima vez em aprender a tocar algo e desisto de novo, cozinho um macarrão gostoso e sinto que falta gente para quem cozinhar. Isso tudo não tem nada a ver com minha filha. É assim que me sinto como pai: como sempre me senti. Não espere que tudo mude e o mundo vire de cabeça pra baixo: você se torna pai e continua sendo você, vivendo sua vida de sempre.