A descoberta do ano
A coisa com a vida adulta é que você não tem ajuda externa. Não tem professores paternalistas pra tomar as decisões por você, não tem walkthrough no Gamefaqs, não tem seres sobrenaturais pra chorar seus problemas: é tu e tu mesmo, sem ensaio, sem reprise. É por isso que eu insisto que humildade é overrated, caridade é overrated (não sou o primeiro a dizer isso, claro; viz. Nietzsche). Acho que a regra do cara do Shorinji Kempō, 50/50, é uma boa regra geral; se você está se preocupando com os outros mais do que com você mesmo, está pavimentando caminho para um desastre emocional. Eu sei, porque já fiz isso.
Mas, então, a descoberta. O ano ainda está no começo, mas acho difícil alguma outra bater essa. Andei olhando por aí e — esse é o tipo de coisa que eu gostaria que alguém tivesse me dito antes, se existisse alguém para explicar essas coisas — andei olhando por aí e descobri que uma chácara nos arredores de São Paulo custa, em média, o mesmo que um apartamento dentro de São Paulo. Arredores ≤ 60km, chácara = com segurança privada.
Deixa eu repetir. A porra de uma CHÁCARA INTEIRA perto da metrópole custa o mesmo que um APARTAMENTO na dita metrópole.
Uma chácara. Sabe quantos metros quadrados tem uma chácara? UM MONTE DE METROS QUADRADOS, é quanto. Esta é uma lista parcial de coisas que eu perdi quando saí do interior e poderia ter de volta se morasse numa chácara:
- Ar
- Noites escuras
- Estrelas
- Silêncio
- Gatos
- Ar
- Espaço
- Passeios no mato
- Bicho de pé
- Canto de cigarras
- Fogão a lenha
- Ar
- Vagalumes
Esta é uma lista parcial de coisas que eu nunca tive mas poderia ter se tivesse uma chácara:
- Cavalos
- Horta
- Pomar
- Treze gatos ao mesmo tempo
- Espaço de mata nativa doado para animais apreendidos pelo Ibama
- Forja
- Forno de cerâmica
- Liberdade pra modificar minha casa à vontade
- Ateliê
- Paz de espírito
Eu podia pedir transferência pra São Paulo daqui um par de anos. E torrar meu FGTS numa CHÁCARA, e pagar o equivalente a um aluguel pra ter uma CHÁCARA. E eu podia trabalhar de dia, e estudar na USP à noite, sem efetivamente ter que morar no pesadelo urbano. Tudo o que eu preciso é vender mais um pouco da minha alma e comprar uma belina, e estar disposto a encarar a falta de trânsito de São Paulo todo dia. Mas a essa altura da vida os meus princípios já chegaram ao fim e as necessidades de pai de família já tinham me convencido a comprar uma belina, então o único preço real que pago é encarar o trânsito.
Pra ganhar uma infância na chácara pra minha filha? Eu ando até de ônibus paulista, se precisar.
