De uns tempos pra cá apareceu uma pregação sobre “vida natural”, mas essa idéia está cheia de problemas. Primeiro, não dá pra ter certeza do quê exatamente é o modo de vida natural; segundo, hábitos naturais nem sempre são os melhores. Se a gente considerar a vida dos caçadores-coletores na savana como natural (afinal, é o que a maior parte da raça humana ficou fazendo a maior parte do tempo), então viver mais que trinta e poucos anos é antinatural.
Mas de forma geral atender às expectativas de nossos corpos é uma coisa boa. O antecessor do Parkour, Georges Hébert, criou seu méthode naturelle de tão espantado que ficou com o físico dos nativos africanos que conheceu — “corpos esplêndidos, flexíveis, ágeis, hábeis, resistentes, e sem nenhum tutor de ginástica exceto a vida diária na natureza”. Tive uma reação parecida observando o primeiro ano de vida da minha filha. Em meu contato com as artes marciais, os professores sempre insistiam que eram “naturais” certas coisas que pra nós pareciam as menos naturais do mundo: respiração abdominal, postura ereta, flexibilidade nas juntas, atenção sensorial contínua, movimento rápido e forte com os músculos relaxados… Mas quando você se força a passar por cima da estranheza inicial você realmente começa a sentir esses hábitos como naturais. E fiquei bobo de ver como um bebê se senta retinho, respira com o diafragma, dobra a cabeça até o joelho.
Outra coisa sobre bebês é que eles estão sempre felizes. Qualquer coisinha é motivo pra alegria daquela prazerosa mesmo, de dar risada. Seria inocência frágil de quem ainda ignora as amarguras da vida, ou… o estado natural da mente? Alegria deve corresponder com atividade cerebral ótima do mesmo jeito que bem-estar físico corresponde a habilidade corporal ótima. Se isso for verdade, o jeito que eu vivo é tão antinatural para a mente quanto sedentarismo é para o corpo. A única sensação parecida com alegria que tenho é quando estou perto da minha filha, por osmose.
O que é que faz ela ficar feliz? Aristóteles já dizia: exercitar a inteligência. A macaquinha adora entender mecanismos, resolver problemas, descobrir objetos ocultos, puxar pela memória rituais que aprendeu antes. E aí eu tenho que duvidar mais fortemente ainda das pessoas que dizem que meninas naturalmente não gostam de matemática, porque isso é matemática. Ela faz matemática desde muito antes de aprender a falar “mamãe”.
O que estraga a felicidade dela é não conseguir entender alguma coisa ou, pior ainda, quando nós não deixamos ela explorar alguma coisa. Isso reforça minha noção de pai, que um pai bom é o que interfere o menos possível. Quando nós somos obrigados a impedí-la de tentar algo, ou quando algum objeto não reage da maneira que ela espera, ela fica brava, grita, dá tapas nos objetos, bate eles no chão, chuta a cama; aí, com a raiva extravasada, torna a ficar feliz de novo. Felicidade é como o estado de equilíbrio da mente dela. Fico pensando quanta frustração não deve ser acumulada por culpa de pais que não permitem que os filhos queimem a raiva com essas “birras”, pais que querem que os filhos fiquem imóveis e quietos como bonecos.