2008-05-31

À imagem e semelhança

1.

pintura de Brueghel sobre a queda de Ícaro; uma grande paisagem rural, obscurecendo a tragédia

O que mais chama a atenção na pintura de Bruegel, Paisagem com a Queda de Ícaro, não é a queda de Ícaro em si mas a absoluta indiferença das figuras humanas: o pescador, o pastor, o agricultor cada qual com sua rotina, sem sequer virar a cabeça na direção da tragédia comicamente jogada num canto do quadro. Sente-se nos (não-)espectadores uma espécie de ignorância perversa, voluntária, um doublethink retratado com cinismo pelo pintor, que virou de ponta-cabeça a conclusão original do mito. É uma mensagem forte, e não passou despercebida pelos poetas:

According to Brueghel
when Icarus fell
it was spring

a farmer was ploughing
his field
the whole pageantry

of the year was
awake tingling
near

the edge of the sea
concerned
with itself

sweating in the sun
that melted
the wings’ wax

unsignificantly
off the coast
there was

a splash quite unnoticed
this was
Icarus drowning
(William Carlos Williams)


[…]In Brueghel’s Icarus, for instance: how everything turns away
Quite leisurely from the disaster; the ploughman may
Have heard the splash, the forsaken cry,
But for him it was not an important failure; the sun shone
As it had to on the white legs disappearing into the green
Water; and the expensive delicate ship that must have seen
Something amazing, a boy falling out of the sky,
Had somewhere to get to and sailed calmly on.
(W. H. Auden)


[…]Too late. The worst has happened: lost to man,
The angel, Icarus, for ever failed,
Fallen with melted wings when, near the sun
He scorned the ordering planet, which prevailed
And, jeering, now slinks off, to rise once more.
But he—his damaged purpose drags him down—
Too far from his half-brothers on the shore,
Hardly conceivable, is left to drown.
(Michael Hamburguer)

A pintura faz lembrar o famoso soneto de Augusto dos Anjos, que de certa forma é o único poema que ele escreveu a vida toda:

Vês? Ninguém assistiu ao formidável
enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão—esta pantera—
foi tua companheira inseparável![…]

Belo Horizonte é isto: é esta sala de espera, este vazio de ambição, este nada-a-reclamar, estas praças sem nada, a “capital nacional de coisa nenhuma” no linguajar local. Paul Graham vive escrevendo sobre o peso do ambiente no indivíduo, e o último artigo dele é sobre as mensagens que as cidades passam. A de Belo Horizonte seria “baixe a cabeça e não invente moda”. Todas as pessoas usam as mesmas roupas — eu moro num “pólo de moda” e todas as lojas vendem as mesmas roupas; todos os carros são os mesmos modelos se repetindo num carrossel prata, preto, branco, prata, preto, branco; todas as famílias fazem os mesmos programas; todos os restaurantes servem a mesma comida; quem se destaca um pouquinho que seja não pode sair na rua sem ser xingado… Não há polidez, respeito, orgulho, apenas o fluxo eterno e indiferente de massa humana furando sinais e jogando latinhas de refrigerante pela janela (onde há humildade não há educação…) O ideal belorizontino é o ideal cristão, trabalhar até a morte e antes de morrer ter filhos que vão trabalhar até a morte e antes de morrer ter mais filhos etc.

2.

Ando ressabiado com certas palavras. “Ser”, “se”, “bem”, “tudo”, “amanhã”, “esperança”, o futuro do pretérito, “eu”… Palavras que não correspondem a nada real, que não passam de coisas na nossa mente, palavras que são mentiras em essência, mas que mesmo assim têm o poder de acorrentar. “É a vida”, “pensar no futuro”, “se eu não tivesse afastado ela de mim”…

Don Cupitt, diácono não-realista da Igreja Anglicana, lida com a morte de Deus de forma muito interessante no seu After God. Cupitt diz que, exatamente como os religiosos acreditavam, existem seres invisíveis, fora do mundo material, onipresentes, influenciando nossos pensamentos e nossas vidas: esses espíritos se chamam palavras. Tudo bem, Deus não existe no mesmo sentido que uma pedra existe, mas até uma mentira não é o mesmo que nada: ela existe como mentira. Deus é um determinados padrão neural na cabeça das pessoas; um padrão que organiza a vida da maior parte do mundo ocidental, que tem seu próprio país, seus partidos e suas guerras, que controla economias e assassina infiéis. É Deus quem está ensinando a Bíblia e o Corão e criacionismo nas escolas, Deus quem proíbe casamento homossexual e aborto e sexo recreativo, Deus quem sussurra nos ouvidos de cada fiel para apedrejar os pecadores com olhares e sarcasmos em cada rua e cada sala de aula.

Nada mal pra alguém que não existe.

É possível resistir à pressão ambiental? Se Zeus existe tem que existir Prometeu, se Deus existe tem que existir Satanás, se o tirano existe então tem que existir o herói… Mas como Satanás vai lutar não contra o castigo do inferno, e sim contra a gaiola “educativa” do purgatório, o nihil que absorve tudo? Como declarar guerra contra anjos lotophágoi sentados assistindo tevê? Como se levantar não da Queda de Lúcifer, mas da Queda de Ícaro de Bruegel?



Tedium the ultimate chain.


Mirror, mirror upon the wall
Break the spell or become the doll

2008-05-24

pgrep -P `pgrep leoboiko` | wc -l → 2

Porque um bebê só não tava dando trabalho bastante. É isso aí caras, minha criação está aumentando!

2008-05-21

Eva-chan is a great philosophy teacher

No spoilers. In case you’re not a manga fan, these are read right-to-left (rightmost baloon first, rightmost frame first). Try to ignore the awful scanlation.

realizing *that* is the most difficult thing to do

if you look with a lucid eye, you’ll realize that “being alive” is the same as “doing evil”

Another:

it is better than being a rotten pig who cultivates his indolence in a safety zone…

Yay Maga Nosferatu, teach’em the truth.

2008-05-07

Flores do hanafuda em português

Nomes de plantas podem ser confusos… Veja também: as cartas do hanafuda.

Mês日本語EnglishPortuguês
Janeiro pine pinheiro
Fevereiro plum ameixeira
Março cherry cerejeira
Abril wisteria glicínia
Maio 菖蒲 iris íris, “lírio”
Junho ぼたん peony peônia
Julho bush clover lespedeza
Agosto ススキ chinese silver grass eulália, capim-roxo
Setembro キク chrysanthemum crisântemo
Outubro 紅葉 maple bordo
Novembro willow salgueiro ,chorão
Dezembro きり paulownia kiri, quiri, árvore-da-imperatriz, árvore-da-princesa

2008-05-05

Turning point

É discutível se a turma do fundão realmente é menos inteligente que nós, os da primeira fila, mas eles definitivamente são mais espertos. Que os da frente são otários não é só um estereótipo, é uma pré-condição; somos definidos por nossa otariedade; os alunos do fundo foram para o fundo porque enxergaram desde o início o jogo estúpido e sem sentido que é a Escola e se recusaram a jogar. Nós, tapeados por estrelinhas e palavras doces, demoramos muito mais pra perceber isso, e viramos motivo de riso — com razão. A maioria dos da frente só vai compreender o quão inútil a Escola é lá pelo final do ginásio.

Esse momento é importante. A partir desse ponto, se você comprar a visão capitalista, você tem dois caminhos a seguir: ou se junta com a turma do fundão, pela gratificação imediata; ou joga com o sistema, se quiser ter sucesso. E por “sucesso” querem dizer dinheiro. A educação é vista como acumular tesouros no céu, como um sacrifício que você faz no presente para conseguir vantagens futuras: vantagens bem tangíveis, aliás, na forma de bilhetinhos mágicos que dão acesso aos empregos mais invejados. A escolha, então, é entre recompensas diluídas a partir de agora, ou recompensas concentradas depois.

E quem escolhe recompensa nenhuma? Quem nem aceitou o conformismo, pra começo de conversa? Aí seu weltanschauung ruiu, e não há mais caminho nenhum.