2008-08-19

Silogismo

Quando dizemos pra nossa filha que uma imagem é de um “cavalo”, ela entende “cabelo” e passa a mão no próprio.

Tentando associar as figuras do livro de bichos com o que ela conhece, a mãe disse que zebra é um cavalo.

Agora, toda vez que ela abre o livro na página da zebra, ela passa a mão no cabelo.

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Perguntas muito, muito freqüentes sobre homeschooling

“A coisa mais importante para um professor saber (que eu não vi mencionada em nenhuma escola de educação que conheça) pode ser resumida em duas frases: Aprender não é a conseqüência de ser ensinado. Aprender é a conseqüência das ações de quem aprende.” (John Holt)

Recentemente teve um barulhinho na oldmedia sobre uma família de Minas Gerais que optou pelo homeschooling. Os pais vão ter que pagar multa e podem perder a guarda dos filhos. Nas discussões pela net as mesmas objeções velhas e cansadas continuam aparecendo. Por coincidência, final de semana passado eu e minha esposa tivemos um argumento deveras acalorado com um casal amigo que questionava a eficácia do homeschooling, e eu me peguei explicando as mesmas coisas mais uma vez: socialização, responsabilidade, limites. Antes eu tinha pensado que fazer um post sobre isso era chover no molhado, já que tudo já está muito bem explicado em um monte de lugares, mas mudei de idéia — talvez seja bom se repetir, afinal; pelo jeito a exposição no Brasil anda fraca. Tão vamos lá.

“Na vida a gente tem que conviver com gente que não gosta. Por isso, socialização forçada é uma necessidade.”

Concordo com a premissa, discordo com a conclusão. Em primeiro lugar porque é mentira: temos estudos que mostram que crianças educadas em casa são até melhor adaptadas socialmente que as forçadas (o que fará sentido imediatamente pra qualquer um que tenha sofrido bullying).

Mesmo ignorando os resultados e argumentando de forma puramente filosófica, é impossível não se socializar. Educação em casa não significa viver numa bolha dentro de casa. A criança que não é socializada à força ainda tem que conviver com outras crianças e amigos e inimigos e gente diferente e grupos de estudo e professores do mesmo jeito, no curso de natação e na vizinhança e na lanhouse e, de fato, em todo e qualquer lugar. A única diferença é que essas crianças têm escolha — se elas não gostam de um grupo, podem optar por sair dele, exatamente como eu e você podemos. Portões com cadeados são resquícios da era vitoriana.

“Eu confio mais em professores para ensinar do que em mim mesmo.”

Concordo plenamente. Sou um grande admirador de professores, não só os do tipo escolar como os que a sociedade não reconhece como “ensinadores”, e não tenho o menor receio de contratar bons profissionais para meus filhos — profissionais que eles ajudem a escolher, claro, para ensinar os assuntos que eles se interessarem.

Se eu rejeito a Escola com E maiúsculo não é porque eu confio mais em mim que nos professores; é porque confio mais nos meus filhos para decidirem o que estudar do que no Estado. Aliás eu confio mais neles que em qualquer pessoa, mas especialmente mais que no Estado.

“Mas as crianças vão ficar brincando o dia inteiro e não vão aprender matemática e física e outras coisas chatas!”

Ótimo! Elas têm plena capacidade de entender que precisam saber esses assuntos se quiserem ganhar os bilhetes mágicos que a sociedade exige pra provar que você é capaz de fazer qualquer coisa. Quando sentirem necessidade podem aprender por iniciativa própria. Eu mesmo fiz isso — o ensino público falhou totalmente pra mim, e eu aprendi química, física etc. lendo livros em casa uns seis meses antes do vestibular.

“Não dá pra fazer tudo que as crianças querem, o mundo não gira em torno delas.”

Não estamos falando de nós fazermos o que as crianças querem, estamos falando de elas viverem como querem. Eu faço o que eu quero; por acaso o mundo gira em torno de mim?

Ao contrário do que o Paulo Coelho diz, o universo não está nem aí pra gente e um monte de coisas que a gente quer não dá certo. Em qualquer lugar. Não é preciso criar mais dificuldades artificiais pra ensinar isso — essa é outra lição que é impossível não aprender.

Não sou pai superprotetor — pelo contrário, sou um grande adepto da filosofia “criança tem é que se ferrar”, mais do que quase todos os pais que conheço. Mas criança tem que se ferrar com as conseqüência das escolhas dela, pelo livre-arbítrio dela, não por uma decisão dúbia do Estado. Em todas as discussões periódicas de homeschooling, os caras ignoram as crianças completamente; em todas as reportagens que li sobre o caso dos Nunes acima, ninguém, ninguém perguntou pros piás em questão o que eles achavam de estudar em casa.

Homeschooling pra mim é uma conseqüência natural de minha filosofia pedagógica fundamental, levar crianças a sério. Crianças são pessoas, não propriedade.

“Homeschooling é coisa de religioso que não quer que o filho aprenda evolução.”

É uma verdade triste que isso acontece muito (nos EUA especialmente), mas um filho que tenha pai religioso está fodido de todo jeito — se ele vai pra Escola, o pai simplesmente ensina criacionismo em casa. Mas perceba que eu estou com o outro campo que rejeita a Escola precisamente pelo motivo contrário — historicamente, a Escola é uma instituição moral e religiosa, e ainda hoje ela continua com essas tendências; a escola ensina ciência como se fosse uma religião — com uma figura de autoridade imposta medindo os alunos com números e marcando suas respostas como certas ou erradas, é impossível aprender que ciência é questionamento. Ciência é derrubar autoridade, e Escola é autoritarismo. A Escola se foca tanto no modelo das notas que não pode explicar como a ciência é feita de dúvidas e desafios, como cada “resposta certa” que está nos livros é só um consenso geral que ainda é contestado por muitos, como praticamente cada linha do livro de história tem um debate interessante e animado acontecendo neste exato momento sobre ela. Ciência é um processo e eles ensinam dados; ciência é pescar e eles dão o peixe.

“Eu não tenho condições de ficar com meu filho em casa, nem mesmo meio-período.”

Aí está um argumento que eu respeito. Recentemente, nos EUA, fizeram um experimento em que mudaram o horário de entrada de uma Escola das 8:00 para as 10:00. Como resultado, os alunos da Escola inteira — tanto os “bons” quanto os “bagunceiros” — melhoraram imediatamente as notas e a presença. O que é bastante óbvio se você pensar a respeito.

Se um horário mais humano faz as pessoas estudarem melhor, por que as Escolas todas não abrem às dez? Simples: porque a Escola é uma creche. É um local fechado e (mais ou menos) seguro pra trancar os filhos enquanto os pais trabalham. O problema é que ficam divinizando a Escola, fazendo de conta que é uma instituição de conhecimento, com todo mundo fingindo que aprende dados enciclopédicos e esquecendo tudo no primeiro mês de férias. Não é à tôa que as crianças fazem os trabalhos colando coisas da Wikipedia — qualquer trabalho que possa ser colado da Wikipedia é um trabalho que não vale a pena fazer em primeiro lugar. Respeito quem admite que a Escola é uma creche.

Mas tem alguns problemas. O primeiro é que a Escola é uma creche ruim, na qual o controle social é exercido pelo grupo — os que se sobressaem são martelados. Isso é exatamente o oposto do que quero pros meus filhos. Outro problema é que, no Brasil, uma Escola de boa qualidade custa o mesmo que um dos pais receberia por um emprego de meio-período, assumindo que tenha diploma. E outro — meus amigos mais progressistas vão me chamar de reacionário por isso, mas enfim — eu não acho que seja uma boa idéia criar filhos com os dois pais fora o dia inteiro. Pessoalmente, acho que se ambos querem trabalhar oito horas, é melhor deixar a decisão de ter uma criança para depois, com Escola ou sem.

(E antes que me chamem de machista também, adianto que adoraria que fosse eu o pai que vai ficar em casa com os filhos — nós só não vamos fazer isso por causa da grana; infelizmente sou o pai que a sociedade paga mais. Ainda assim quero participar da vida deles tanto quanto for possível, e estou mexendo meus pauzinhos para isso.)

“Homeschooling é contra a lei no Brasil.”

E por isso vamos nos mudar para fora, onde meus filhos têm o direito de gastar o próprio tempo da forma que acharem melhor.

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2008-08-02

Balança mas não apaga

Er, oi. Eu só queria avisar que finalmente me rendi ao flickr e vou botar minhas fotos lá. Era isso.

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