2008-09-20, outro sonho-filme completo:
Gordo, calvo, grisalho, ele era designer na área de publicidade. Trabalhava num escritório amplo, de paredes de vidro e vista para o mar. O sucesso da sua campanha do all-star listrado havia feito dele uma celebridade menor. Era por isso que o queriam morto.
O sol se punha quando os homens chegaram —ternos e gravatas e pistolas como colunas de preto contra um cenário tingido de bronze. O homem gordo não tinha idéia do que acontecia, e antes que pudesse perguntar levou o primeiro tiro. Nada aconteceu. Ele se viu com uma arma na mão e atirou nos invasores, também sem nenhum efeito. Era como se a causalidade tivesse quebrado.
Ninguém nunca reparou que o destaque de seus trabalhos era sempre o vermelho.
Lembrou de quando era criança, brincando sozinho na grama mais alta que sua cabeça, cada folha um nome e uma história — as tardes na biblioteca, o frenesi criativo do faz-de-conta — grama, dessa vez as colinas do campus, os outros estudantes com namoradas lindas, chopes, presilhas de morango — ele, tardes, noites, garimpo de traduções e tomos de tendências estéticas esquecidas nas estantes — o diploma em mãos: um longo pergaminho de críticas de professores em caligrafia medieval — “tem potencial, mas se distrai fácil” — “um brilho de talento, infelizmente sem dedicação” — “faltou todas as aulas, avaliação impossível” — Pedro, Maria, Paulo foram os nomes dos filhos, a esposa, a entrevista na empresa — toda noite a repulsa do si-mesmo tornado peão de jogos de dinheiro — projetos no lixo, campanhas de sucesso, o livro que nunca escreveu — uma súbita certeza de amor pelos filhos, um desejo de falar à esposa uma última vez, jantar a sós, taças de vinho, vermelho — o vinho era o próprio sangue, ele estava deitado em uma poça, e só então entendeu que tinha sido baleado e estava morrendo em flashback. “Digam…” — tentou falar mas as forças se esvaíam; os homens de terno se aproximaram pra ouvir, era sua última mensagem, “digam pra eles”, eles, a família, o trabalho, a faculdade, o mundo inteiro — “digam pra eles que vermelho é bonito”. E foi o que pensava quando morreu, admirando o sangue no chão. Fim.