Re: estupro, aborto e linchamento moral
(Respondendo ao robteix].
Eu concordo, o episódio tem três pontos-chave. Mas discordo sobre quais são. Os pontos foram:
- Um estupro.
- Um aborto.
- Um linchamento moral simbólico que marcou para sempre a vida de pessoas inocentes, do qual faz parte algumas excomunhões.
O problema com os cristãos não é a moral retrógrada e irracional; o problema é que eles querem impor a moral retrógrada e irracional deles nos outros, nos não-cristãos. Por exemplo, a bíblia diz que homossexualismo é uma aberração odiada por deus. Até aí tudo bem, todo mundo pode acreditar no que quiser e se uns caras querem acreditar que um punhado caótico de documentos contraditórios e cheios de erros são a determinante moral máxima, é o direito deles. O problema é que os cristãos partem daí para querer reprimir, proibir e eliminar os homossexuais na sociedade inteira, cristã ou não.
A igreja católica excomunhou a mãe da menina, o médico responsável, e a equipe médica inteira. Alguém perguntou se esse povo todo era católico? Se eles se importavam com a opinião da igreja? Não? Pois este é o ponto.
Os cristãos se julgam no direito de regular a sociedade inteira; eles já fizeram antes, e vão fazer de novo sempre que tiverem a chance. Por isso, quando eles se engajam em condenações públicas, eles têm de ser denunciados, de novo e de novo.
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A igreja católica é contra o aborto; a igreja católica tem o direito de excomungar por aborto. A igreja católica, bem-como as protestantes e neopentecostais, não têm o direito de se misturar com o governo e transformar “pecados” imaginários em crimes. E o fato de que a igreja tem o direito de condenar não torna essa condenação eticamente ou racionalmente “certa” —eu posso sair por aí dizendo que comer chocolate é um crime imperdoável, mas isso não quer dizer que eu estaria certo. A igreja excomunhou por aborto, mas não por estupro; sobre isso, a igreja disse que o estupro foi um crime menor que o aborto. Quem está errado? A igreja, a igreja, a igreja.
A própria existência dessa controvérsia é uma violência moral —particularmente contra a mãe e a menina. Como comentaram por aí nas internets, é uma espécie de segundo estupro —nem de longe tão traumático, verdade, mas ainda assim traumático. Quem é o culpado pela controvérsia? A igreja.
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Duas palavras sobre a condenação cristã ao aborto. Isso é uma coisa relativamente nova; ao contrário de homossexualismo, ateísmo, outras religiões, sexo recreativo e tecidos compostos, a bíblia não despeja seu veneno sobre aborto — o único comentário que existe dá uma punição bem menor que a de assassinato, e ainda assim para o caso de um homem que bata na mulher e cause um aborto contra a vontade dela. Porém, os cristãos de hoje — católicos ou não — estão fortemente engajados em tentar tornar aborto um crime e em manipular a opinião pública para condená-lo moralmente, como este caso demonstra. Por quê?
A chave para entender esse fenômeno do anti-abortismo está na oposição antiquíssima que os cristãos fazem à fornicação. O anti-abortismo surgiu em resposta direta à emancipação feminina e à liberação sexual. Como religião, o cristianismo precisa arruinar a vida; ao contrário, digamos, do budismo ou do paganismo, ele parte do prerrogativo que esta-vida é uma droga —você precisa querer a outra-vida, o paraíso ou reino de deus (i.e. fantasias), não pode ficar satisfeito com esta (a realidade). Uma vez que sexo por prazer é um instinto vital básico dos seres humanos, condenar moralmente o sexo é uma estratégia cristã velha e eficiente para tornar as pessoas infelizes.
Assim, o verdadeiro motivo que leva os cristãos a condenarem o aborto não é o assassinato dos “anjinhos”; é o horror que eles têm à idéia que as mulheres vão sair por aí fazendo sexo por prazer, e em caso de gravidez é só abortar. O motivo real da condenação dos homossexuais não é que é “antinatural”; é que eles não podem admitir que os gays possam simplesmente trepar uns com os outros e serem felizes, sem casamento nem família nem nada (note-se que os cristãos condenam “sodomia” —sexo oral e anal— seja entre gays ou não). E nem preciso dizer que este é o motivo das repetidas investidas contra camisinhas na África, investidas que estão literalmente genocidando os africanos. Não que seja a primeira vez que os cristãos fazem isso…
A tragédia do linchamento moral em discussão é que a menina e a mãe nem sequer estavam buscando prazer sexual; elas foram vítimas de fogo cruzado na guerra cristã contra o sexo. A falta de empatia que a igreja demonstrou pela menina foi assustadora, apesar de pouco surpreendente.