À imagem e semelhança
1.
O que mais chama a atenção na pintura de Bruegel, Paisagem com a Queda de Ícaro, não é a queda de Ícaro em si mas a absoluta indiferença das figuras humanas: o pescador, o pastor, o agricultor cada qual com sua rotina, sem sequer virar a cabeça na direção da tragédia comicamente jogada num canto do quadro. Sente-se nos (não-)espectadores uma espécie de ignorância perversa, voluntária, um doublethink retratado com cinismo pelo pintor, que virou de ponta-cabeça a conclusão original do mito. É uma mensagem forte, e não passou despercebida pelos poetas:
According to Brueghel
when Icarus fell
it was spring
a farmer was ploughing
his field
the whole pageantry
of the year was
awake tingling
near
the edge of the sea
concerned
with itself
sweating in the sun
that melted
the wings’ wax
unsignificantly
off the coast
there was
a splash quite unnoticed
this was
Icarus drowning
(William Carlos Williams)
[…]In Brueghel’s Icarus, for instance: how everything turns away
Quite leisurely from the disaster; the ploughman may
Have heard the splash, the forsaken cry,
But for him it was not an important failure; the sun shone
As it had to on the white legs disappearing into the green
Water; and the expensive delicate ship that must have seen
Something amazing, a boy falling out of the sky,
Had somewhere to get to and sailed calmly on.
(W. H. Auden)
[…]Too late. The worst has happened: lost to man,
The angel, Icarus, for ever failed,
Fallen with melted wings when, near the sun
He scorned the ordering planet, which prevailed
And, jeering, now slinks off, to rise once more.
But he—his damaged purpose drags him down—
Too far from his half-brothers on the shore,
Hardly conceivable, is left to drown.
(Michael Hamburguer)
A pintura faz lembrar o famoso soneto de Augusto dos Anjos, que de certa forma é o único poema que ele escreveu a vida toda:
Vês? Ninguém assistiu ao formidável
enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão—esta pantera—
foi tua companheira inseparável![…]
Belo Horizonte é isto: é esta sala de espera, este vazio de ambição, este nada-a-reclamar, estas praças sem nada, a “capital nacional de coisa nenhuma” no linguajar local. Paul Graham vive escrevendo sobre o peso do ambiente no indivíduo, e o último artigo dele é sobre as mensagens que as cidades passam. A de Belo Horizonte seria “baixe a cabeça e não invente moda”. Todas as pessoas usam as mesmas roupas — eu moro num “pólo de moda” e todas as lojas vendem as mesmas roupas; todos os carros são os mesmos modelos se repetindo num carrossel prata, preto, branco, prata, preto, branco; todas as famílias fazem os mesmos programas; todos os restaurantes servem a mesma comida; quem se destaca um pouquinho que seja não pode sair na rua sem ser xingado… Não há polidez, respeito, orgulho, apenas o fluxo eterno e indiferente de massa humana furando sinais e jogando latinhas de refrigerante pela janela (onde há humildade não há educação…) O ideal belorizontino é o ideal cristão, trabalhar até a morte e antes de morrer ter filhos que vão trabalhar até a morte e antes de morrer ter mais filhos etc.
2.
Ando ressabiado com certas palavras. “Ser”, “se”, “bem”, “tudo”, “amanhã”, “esperança”, o futuro do pretérito, “eu”… Palavras que não correspondem a nada real, que não passam de coisas na nossa mente, palavras que são mentiras em essência, mas que mesmo assim têm o poder de acorrentar. “É a vida”, “pensar no futuro”, “se eu não tivesse afastado ela de mim”…
Don Cupitt, diácono não-realista da Igreja Anglicana, lida com a morte de Deus de forma muito interessante no seu After God. Cupitt diz que, exatamente como os religiosos acreditavam, existem seres invisíveis, fora do mundo material, onipresentes, influenciando nossos pensamentos e nossas vidas: esses espíritos se chamam palavras. Tudo bem, Deus não existe no mesmo sentido que uma pedra existe, mas até uma mentira não é o mesmo que nada: ela existe como mentira. Deus é um determinados padrão neural na cabeça das pessoas; um padrão que organiza a vida da maior parte do mundo ocidental, que tem seu próprio país, seus partidos e suas guerras, que controla economias e assassina infiéis. É Deus quem está ensinando a Bíblia e o Corão e criacionismo nas escolas, Deus quem proíbe casamento homossexual e aborto e sexo recreativo, Deus quem sussurra nos ouvidos de cada fiel para apedrejar os pecadores com olhares e sarcasmos em cada rua e cada sala de aula.
Nada mal pra alguém que não existe.
É possível resistir à pressão ambiental? Se Zeus existe tem que existir Prometeu, se Deus existe tem que existir Satanás, se o tirano existe então tem que existir o herói… Mas como Satanás vai lutar não contra o castigo do inferno, e sim contra a gaiola “educativa” do purgatório, o nihil que absorve tudo? Como declarar guerra contra anjos lotophágoi sentados assistindo tevê? Como se levantar não da Queda de Lúcifer, mas da Queda de Ícaro de Bruegel?
Tedium the ultimate chain.
Mirror, mirror upon the wall
Break the spell or become the doll

Ironia ou proposital? :)
Comment by Conrado — 2008-05-31 18:11:07
Ironia não-proposital. Sim, reescrevendo em e-prime (p-prime?), “Belo Horizonte me parece isso”. “É” sempre é mentira.
(esta foi de propósito.)
Comment by leoboiko — 2008-05-31 18:26:45
Nada mais nerd-brasileiro-reclamão que ser infeliz e botar a culpa nas outras pessoas. Como a maioria por acaso é cristã, culpe-se o cristianismo. Se a maioria fosse atéia, o ateísmo seria o culpado du jour.
Naturalmente você não vai muidar de opinião porque eu estou postando deste comentário, mas talvez sirva para outros nerds reclamões em estado não-terminal :)
Comment by Elvis Pfutzenreuter — 2008-05-31 21:02:32
Nada mais epx que dizer que denunciar abuso verbal, legislação discriminatória, isolamento forçado, bullying, espancamentos e preconceito aberto significa “botar a culpa nos outros”. No mundo epx o meio não influencia ninguém, ninguém é responsável por agressões e se um cara é empurrado da escada é culpa dele por não ter olhos na nuca — macho que é macho agüenta calado, certo?
Eu não vejo preconceito cristão nem ideologia massificadora cristã nos países não cristãos (tá, fora os islâmicos). E tem uma porrada de estudos por aí demonstrando que os países mais socialmente e economicamente liberais, com os melhores índices de educação e civismo e os mais baixos de criminalidade e violência são os mais seculares, no mínimo por correlação — só não vou procurar agora porque não vale a pena sofrer por troll. Ah, e trollagem ad-hominen posterior será deletada — desisti de acreditar em não-moderação.
Comment by leoboiko — 2008-05-31 21:09:54
XD chato de plantão
Muito interessante esse e-prime, não conhecia… Eu sempre impliquei em como todo mundo adora arrotar que isso é aquilo, isso não é aquilo (e infelizmente tratam pessoas sem opiniões definidas para tudo como molengas indecisos). Mas nunca parei para pensar que a minha implicância pode ser representada por apenas algumas palavras…
E trollish troll is trolling.
Comment by Conrado — 2008-05-31 21:54:41
Bom, Boiko, você sabe que não gosto de discutir religião contigo. Acho que tem muito rancor e intolerância de tua parte — entendo que você deve ter sofrido intolerância e ainda sofra, e que lhe é difícil ser melhor que os que te agridem; mas exatamente esse é o ideal cristão em termos comportamentais, não essa caricatura que você disse. Amar a Deus sobre todas as coisas, e o próximo como a si mesmo, e, como corolário disso, amar os inimigos — portanto a intolerância (não o regulamento comportamental, mas o ódio) é essencialmente anticristã.
O fato é que o ideal cristão é tão alto que se torna até incompreensível em nossos tempos, inclusive pela maioria dos que se chamam cristãos.
Quanto aos seus ‘países seculares’ — já se tocou que (1) eles tinham determinadas religiões e não outras, especificamente o cristianismo norte-europeu em suas versões reformada e contra-reformada, mais o confuncionismo em menor medida, e que (2) eles estão se suicidando demográfica e culturalmente, o que inclui a infertilidade e o próprio suicídio?
Quanto a Belo Horizonte, é minha cidade natal. Sei de alguns de seus defeitos, como sei dalguns de Curitiba. Narciso acha feio o que não é espelho.
Não quero acrescentar angústia à tua alma, mas cuidado com o andor que o santo é de barro.
Comment by leandro — 2008-05-31 22:51:36
A intolerância é anticristã?? WTF? Em termos de religião comparada acho que só mesmo o islamismo ganha em intolerância, e isso se não considerar o cristianismo de antigamente que era muito pior (porque tinha mais poder, não porque a religião evoluiu).
O ideal cristão é o elogio da mediocridade massificada, o overrating de compaixão é só mais uma hipocrisia pra manter as ovelhas comportadas no cercado. Só mesmo o cristianismo pra dizer que rejeitar autoridade, querer ser grande e buscar conhecimento é tudo pecado.
Comment by leoboiko — 2008-06-02 10:38:34
oi leo, eh o raphael de curitiba.
tava com preguica de comentar antes por causa do registro, mas enfim tive q registrar pra dizer q gostei desse post aih.
conheco pouco de bh, estive aih somente por alguns dias anos atras, mas a impressao que tive da cidade eh q ela eh bastante parecida com curitiba. ou uma curitiba com montanhas, como eu defini na epoca.
abracos,
Comment by rapha — 2008-06-02 17:35:01
montanhas! a natureza ao redor daqui é ótima, mas com uma filha nas fraldas e o outro na barriga da mãe vai demorar até eu poder acampar de novo…
Comment by leoboiko — 2008-06-02 23:59:02
troll do rudá apagado.
fico pensando se eu perdi a capacidade de me expressar, ou se os d00dz simplemente me detestam mesmo. eu escrevo um post dizendo essencialmente “é difícil se motivar sozinho pra criar arte quando ninguém ao seu redor se importa com essas coisas”, e os d00dz atacam um strawman “estou triste e jogo a culpa na sociedade”. vai entender…
Comment by leoboiko — 2008-06-03 16:52:23
Pra mim, “amai o proximo como a ti mesmo” significa “não faça com os outros o que vc não gosta que façam com vc”, ou simplesmente “tenha consideração com os outros”. Vc fala de overrating da compaixão, mas ela é uma só uma extensão da consideração, que é uma das coisas que vc diz faltar em BH. Pessoas jogando lixo pela janela do carro, te xingando na rua pq vc é diferente, são exemplos de falta de consideração, não de educação, polidez ou etiqueta. A etiqueta funciona aí como condicionamento do cidadão para evitar a necessidade dele ter consideração com os outros para agir civilizadamente.
Comment by Dr_Marafo — 2008-06-05 18:32:27
“Não faça com os outros o que você não gosta que façam com você” (budismo aka regra de prata) ≠ “faça com os outros o que queria que fizessem com você” (cristianismo aka regra de ouro). A diferença é vital, é a raiz do proselitismo. É isso que justifica aos cristãos e.g. proibir casamento homossexual: eu quero casar com um homem, mas se o cristão estivesse no meu lugar ele gostaria que proibissem isso (senão iria pro inferno), portanto vamos proibir. Com base nisso os cristãos vivem querendo que as superstições irracionais deles se apliquem à sociedade inteira, enquanto os budistas ficam quietos no canto deles sem encher o saco de ninguém.
O que faz você não jogar lixo no chão não é ter compaixão = dó dos outros (ninguém fica pensando “tadinho dos transeuntes que vão ver esse lixo feio”), é ter orgulho do lugar onde vive e de si mesmo (“eu não sou um jogador de lixo!”) = polidez. O que BH precisa não é que as pessoas pensem mais nos outros (Deus me livre!, elas pensam nos outros até demais!), é que as pessoas respeitem mais a si mesmas, que tenham mais ambição, mais individualidade. Pra ilustrar, uma cena que eu vi várias vezes em Curitiba é: pessoa A joga lixo no chão, pessoa B que vinha atrás começa a xingar (“cê não é daqui não, né?”): tudo a ver com orgulho, nada com compaixão.
Arre, chega de cristianismo, compaixão e outros assuntos mórbidos. Nietzsche já debunkou completamente e eu não vou ficar papagaiando aqui (“o que eu mostro é algo que o adepto da compaixão [=sofrer-junto] não pode nem imaginar, é a alegria-compartilhada, o comprazer…”).
Comment by leoboiko — 2008-06-05 19:04:44
“Eu quero casar com um homem, mas se o cristão estivesse no meu lugar ele gostaria que proibissem isso.” –> faça consigo mesmo só o que não vá incomodar aos outros.
“Eu gosto quando um cara gostoso me abraça por trás. Já que eu sou gostoso, vou abraçar aquele cara ali por trás.” –> faça com os outros o que queria que fizessem com você.
Eu disse consideração, não pena. A idéia não é “que peninha do transeunte”, é “eu não vou esculhambar um espaço que várias pessoas compartilham comigo, pq elas merecem respeito tanto quanto eu”.
As pessoas que vivem num determinado lugar contribuem para esse lugar ser como é. Não dá para ter orgulho de um lugar sem ter pelo menos algum orgulho do povo que nele vive. Quem tem orgulho, tem tb automaticamente respeito e consideração.
Intolerância é uma característica humana nata (vide coleguinhas que cagavam e andavama para religião e mesmo assim te sacaneavam pq vc era diferente). Onde as pessoas são mais esclarecidas, procuram não cultivar essa característica. Onde as pessoas são mais ignorantes, elas tendem a se apegar mais com coisas como religião. A religião e a intolerância são sintomas da ignorância. No caso da intolerância “justificada” pela religião, geralmente essa justificativa é bem esfarrapada (talvez uma interpretação literal de algum trecho obscuro de um texto sagrado) e só é aceita pq a ignorância, a falta de esclarecimento assim o permite.
Comment by Dr_Marafo — 2008-06-05 19:40:18
Você disse, mas não é essa a idéia cristã de compaixão. “As pessoas merecem respeito” não é uma idéia cristã, não é o que a regra de ouro do cristianismo diz; no cristianismo todas as pessoas são fundamentalmente pecadoras, “más” por natureza (o diabo é “o príncipe deste mundo”), e não têm nenhum valor exceto o dado por Deus (a “Graça”). Por isso é que o cristianismo amaldiçoa as ambições (vide história da Torre de Babel, etc.), a ciência (“sabedoria dos homens é loucura aos olhos de Deus”), etc. etc.
“As pessoas merecem compaixão”, isso sim é uma idéia cristã, e é extremamente venenosa.
De acordo, mas tolerância também é. Só depende de se você enxerga o outro como “seu grupo” (= “alguém digno”) ou não (e não tem nada a ver com compaixão, com sofrer-junto) — os cristãos ao mesmo tempo conseguem ser intolerantes e compassivos; isso não é doublethink, é conseqüência natural. Por isso, qualquer religião que faça uma divisão entre os “salvos” e os “infiéis” (“somente através de mim se chega ao Pai”, etc.) é fundamentalmente uma geradora de intolerância.
De acordo. O que as pessoas chamam de “mal” em geral não é falta de compaixão nem excesso de egoísmo, é ignorância. Onde as pessoas são mais educadas existe menos “maldade” (crime, violência, vandalismo etc.) e menos religião; isso é um fato estatístico. O que não é óbvio para as pessoas daqui é que pra ter uma sociedade mais educada você precisa não só tolerar, mas inclusive incentivar individualidade, egoísmo, orgulho, ambição, querer-ser-grande: isso é auto-evidente para as nações não-cristãs, e também era auto-evidente pra nós ocidentais (greco-romanos) antes dos cristãos aparecerem para gorar as aspirações humanas com a compaixão deles.
Comment by leoboiko — 2008-06-05 19:48:14
Na verdade, enxergar alguém como “do seu grupo” implica em compaixão (vc fica triste qdo esse alguém está sofrendo). A idéia é que vc enxergue todo mundo como “do seu grupo”.
O problema fundamental do cristianismo é o seguinte: a Bíblia. Mais precisamente a interpretação da Bíblia. É um livro muito grande, composto de vários textos obviamente datados, escritos por vários autores que não se conheciam e sem a presença de um editor. Qualquer um pode apontar um trecho daquilo e falar “olha só como eles eram filhos da puta”, mas só quem sabe tirar as mensagens relevantes daquilo são teólogos e historiadores, pq eles conhecem o contexto em que os textos foram escritos. Inclusive, qdo vc filtra todo ruído da Bíblia, vc provavelmente acaba chegando no Budismo. E a esperteza do Budismo é essa: é claro, é direto e na maioria das vezes não apela para misticismo para passar sua mensagem. Mas isso não necessariamente o torna absolutamente mais esperto. Onde a população é ignorante, se não há um conjunto de dogmas rígidos e outorgados a ser seguido (o “ruído” da Bíblia), o caos toma conta. Uma criança pequena não vai entender se o pai explicar pra ela pq ela deve se agir assim e não assado, mas se ele não usar a autoridade dele para que ela obedeça, provavelmente ela vai fazer merda.
Enfim, o problema não é essa ou aquela religião, é falta de educação (instrução), cada religião tapa o buraco que lhe cabe tapar, religião não tem culpa.
Comment by Dr_Marafo — 2008-06-05 20:41:39
Peraí, o comentáro 14 cresceu desde a última vez que eu li. O Budismo não é contra a individualidade, mas é “contra” egoísmo, orgulho e ambição, já que são manifestações de apego, desejo e, em ultima análise, (segundo Buda) ignorância.
Comment by Dr_Marafo — 2008-06-05 21:20:17
Errado. Eu não sofro pelo transeunte que vê meu lixo (estou pouco me lixando, honestamente), mas mesmo assim não jogo lixo. De novo, não há compaixão envolvida. Compaixão na verdade impede respeito — se eu quero ajudar porque tenho pena, eu estou dizendo que aquela pessoa não tem capacidade de se ajudar sozinha. Os movimentos feministas e negros descreveram isso bastante bem, denunciando a compaixão contra suas minorias.
A idéia de quem? Do cristianismo é que não. Tire o pó de suas sandálias e separe o joio do trigo, lembra?
O problema do cristianismo é que Deus não existe, Cristo não exite, alma não existe, céu não existe, pecado não existe, redenção não existe, espírito santo não existe e graça não existe. Ou seja, tudo o que o cristianismo diz que vale a pena não existe. E nessa o cristianismo taxa de ruim tudo o que existe, o que é real, a natureza, a beleza, o prazer, a arte e a ciência, o este-mundo este-corpo budista, medindo contra suas fantasias niilistas (“de tanto querer que o mundo seja feio, o cristianismo enfeiou o mundo”). O cristianismo é uma causa de ignorância, não somente uma conseqüência; querer dizer que o cristianismo é inocente é como dizer que o islamismo é inocente da misoginia no oriente médio — basta olhar pra história e geografia das religiões pra ver que não é verdade.
re budismo e egoísmo: A diferença é que o budismo reconhece que a raiz é ignorância, por isso ele não coloca um imperativo moral como o cristianismo (“seja caridoso (porque Deus mandou)”); ao invés disso, ele fala pra você pensar por si mesmo (“não tenha crenças fixas e seja sua própria luz”) que no final isso resolve tudo. Apego, segundo o budismo, desaparece sozinho quando você supera a ignorância; mais que isso, querer “ser bom” é em si uma causa de apego, uma fuga do aqui-agora, uma “ilusão demoníaca” (makkyo) a ser dissolvida com meditação. Veja bem: o budismo não é “contra” o egoísmo, orgulho etc. porque o budismo é contra ser contra (ou a favor); enquanto você está lutando com alguma coisa, mesmo que seja contra “o mal”, você está sendo anti-budista (em terminologia budista, “o pecado do santo é fazer o bem” — o realmente iluminado não movimenta mais a roda da ação e reação; a diferença entre bem e mal, altruísmo e egoísmo, eu e outro desaparece. O taoísmo ensina a mesma coisa com outras palavras.)
Comment by leoboiko — 2008-06-05 21:30:23
Eu não acho que compaixão e pena sejam a mesma coisa. Pode ser que os dicionários não façam distinção, mas eu sempre achei que pena tinha conotação negativa e compaixão não. Pra mim, pena implica em se sentir superior a quem a provoca, mas compaixão implica em se sentir igual a quem a provoca. Daí eu dizer que a compaixão é extensão da consideração. A segunda faz vc pensar duas vezes antes de fazer algo que possa de fato prejudicar o outro, pq vc se coloca no lugar dele; a primeira faz vc se entristecer com o sofrimento do outro, pq vc se coloca no lugar dele (”sofrer”, aí, pode siginifcar ter levado um tiro no baço, ter tido o cartão de crédito clonado ou ter levado um tombo no meio da rua). A compaixão, por si só, não necessariamente faz que vc tenha uma postura assistencialista para com quem está “sofrendo”. Eu não vou pagar a conta de hospital do cara quel levou um tiro no baço, mas eu posso ensinar a ele como conseguir um desconto no tratamento, o que não vai me custar nada.
O islamismo é inocente da misoginia no oriente médio. A ignorância é responsável por isso, o islamismo só serve para dar respaudo. Mas é um respaudo daquele jeito, esfarrapado, do tipo que eu mencionei num comentário anterior. Do tipo que só é aceito por quem é ignorante. Se a ferramenta aí não fosse o islamismo, seria outra coisa. É quase o mesmo que dizer que a culpa de um assassinato é da arma.
Todas as religiões apresentam uma meta fantástica para ser alcançada, seja a vida eterna (cristianismo), 72 virgens e todo mel que vc quizer (islamismo) ou o fim do ciclo das reencarnações (busismo). Tudo isso (caso vc dê uma de Prolog e se utilize de negação por falha) não existe. Isso tudo é uma fantasia que encobre parte da realidade, logo é fonte de ignorância. A iluminação budista só vai te trazer paz de espírito enquanto vc estiver vivo, qualquer outra recompensa é mentira. Toda religião é uma moldura para o comportamento de quem a segue. Dizer que essa moldura é flexível (“não tenha crenças fixas e seja sua própria luz”) torna essa religião atraente para certas pesssoas (talvez as mais esclarecidas), mas desagradável para outras (tavlez as mais ignorantes). Da mesma forma que os imperativos morais associados a certos mandamentos são o que para certas pessoas dá significado à crença, qto que para outras subtrai credibilidade da crença. Para quem é mais esclarecido, agir civilizadamente é algo natural, logo várias regras de conduta com conseqüências metafsísicas para o cumprir ou descumprir das mesmas.
Religiões são métodos para se conviver melhor consigo mesmo e com o próximo. Cada uma serve a um determinado tipo de pessoa, cada uma apela para cada tipo de pessoa. Infelizmente, cada religião tem também efeitos colaterais negativos, mas menos ou mais destes efeitos só torna uma religião absolutamente melhor do que as outras se todas elas forem intercambiáveis. E esse não é o caso. Se eu me identifico com uma religião por causa da crença num ser supremo, eu não vou conseguir seguir outra religião que diga pra mim que eu posso acreditar num ser supremo se der na minha telha (porque eu posso achar que ela está menosprezando a relevância dessa crença).
Religiões, pra mim, são só ferramentas, não tem culpa de nada. A culpa é de quem as prega de forma irresponsável e com segundas intenções.
Comment by Dr_Marafo — 2008-06-06 11:25:21
Você acabou de admitir que não está falando de compaixão quando fala “compaixão”, então morreu aí. A única coisa que falta apontar é “conotação negativa” — essa palavra, “negativa”, não quer dizer nada, só “eu não gosto disso”.
Exatamente! Agora você está começando a entender a coisa. É por isso que o budismo rejeita a reencarnação (ele herdou a cosmologia do hinduísmo, mas desmentiu a reencarnação trocando por “renascimento”; não é você quem renasce porque você é impermanente como todas as outras coisas). É por isso que o budismo enfatiza tanto que esta-vida este-corpo, este-momento é a única coisa que importa (em termos budistas, até mesmo “enquanto você estiver vivo” é uma mentira — até mesmo “amanhã” ou “daqui a cinco minutos” é uma mentira; o budismo só pode te ajudar agora…). Nietzsche dizia que o budismo, apesar de ser mais uma religião da decadência (compaixão), era mil vezes superior ao cristianismo simplesmente por poder cumprir o que promete; por lidar com coisas reais, não com nihil.
Quanto ao seu “religiões não tem culpa de nada”… meu, você simplesmente não está olhando pros fatos. Tente ler uns livros de história sobre a ciência e arte greco-romanas e o efeito que o cristianismo teve quando foi importado na Europa, ou a mesma coisa com as culturas árabes e o impacto que o islamismo teve nelas (ou ainda, para um exemplo recente, Afeganistão).
Comment by leoboiko — 2008-06-06 11:34:39
“Negativa” significa “ninguém gosta disso”. Ninguém gosta de se sentir inferior ao outro, logo, pena tem uma conotação negativa por que implica em alguém estar sendo considerado inferior a outro.
Essas religiões foram introduzidas nesses lugares por um motivo. Talvez tenha sido para subjugar, para controloar esses povos. Ou talvez esses povos se identificaram com a nova religião e paassaram a seguir a segui-la. No caso de Roma eu acho que foi para reforçar a lealdade do povo ao país usando a religião como pretexto, mas não tenho certeza. De qualquer maneira a religião é sempre uma ferramenta. Quem tem culpa é quem as impõe, ou simplesmente prega, para servir a seus próprios interesses. Ou, a culpa é da ignorância, que faz alguém se identificar com, e seguir, algo que é, no final das contas, prejudicial para si mesmo. A religião é que nem uma droga. A culpa do vício do viciado por acaso é da droga?
Comment by Dr_Marafo — 2008-06-06 12:22:48
PROTIP: não existe ninguém que concorde com todas as suas opiniões. Tudo o quê você acha “negativo” outra pessoa acha “positivo”, o que você “mal” outra pessoa acha “bom”. Você estabeleceu uma dicotomia entre “pena”, que é “mal”, e “compaixão”, que é “bom”, mas é exatamente o mesmo *fato* visto por dois ângulos (como “orgulho” e “arrogância”, “prudência” e “covardia”, etc.) “Negativo”, “ruim”, “maligno” significam simplesmente “eu não quero”.
Depende. A droga em questão é café, álcool, ou crack? A droga foi escolhida por uma decisão informada, o usuário foi manipulado, ou ela foi forçada goela abaixo sob pena de morte? Se a droga é um anestésico e alguém põe no seu chá quando você está sofrendo, a culpa pelo vício é sua, dele, da dor? A culpa dos fumantes dos anos 60 — que começaram a fumar por influência do marketing, sem ninguém saber que viciava ou causava câncer — é deles, das indústrias, ou dos dois? A Gaia Ciência: “O que é que as tribos nativas recebem da Europa? Álcool e cristianismo, os narcóticos europeus. —E o que é que leva à sua extinção mais rapidamente? Os narcóticos europeus.” Quando os cristãos evangelizam tribos nativas, a culpa da catástrofe resultante é dos nativos? Quando a Bíblia diz, clara e explicitamente, que ateus “merecem a morte” e homossexuais devem ser “postos à morte”, o cristianismo deve ser tido como inocente de espancamentos e assassinatos? Quando Deus manda Abraão matar o próprio filho, a culpa é de quem?
E chega de apologia de religião neste post, caramba. Eu não gosto de lembrar que religião existe que fico deprimido com a raça humana. Abaixo desta linha não se discute religião mais:
Comment by leoboiko — 2008-06-06 14:05:06
[This thread is now about hot redheads — leoboiko]
Comment by Dr_Marafo — 2008-06-06 14:44:40
Por que vc fez isso? Foi golpe baixo da sua parte.
Comment by Dr_Marafo — 2008-06-06 14:57:54
Eu avisei ali em cima, não avisei? XD
Funciona assim: certas discussões na Internet me fazem ficar chateado um tempão. Eu sofri muito buscando uma cura pra isso, até que percebi que o barato de poder de apagar posts arbitrariamente é tiro e queda. Então agora quando eu não quero mais falar em religião é pra parar com religião! O diário existe para meus próprios fins egoístas, não por compaixão :3
Comment by leoboiko — 2008-06-06 15:09:24
Vc ficaria chateado com essa discussão? Por quê? Não teve nada de mais nela, não houve ofensas, não houve baixaria. Foi até uma discussão bastante amigável. Aliás, o meu objetivo (embora muito, muito improvável de ser alcançado) era ajudar a fazer com que vc tivesse menos uma coisa para te deixar chateado, no caso, o cristianismo e religiões similares. Enfim, pirocas. Um beijo no coração aí.
Comment by Dr_Marafo — 2008-06-06 15:37:04
Nem, eu não fiquei chateado com você, você sabe discordar sem apelar pra baixaria. Eu fiquei chateado é porque eu não gosto de lembrar que cristianismo existe, só isso.
Comment by leoboiko — 2008-06-06 15:40:53
Eu posso falar sobre hot redheads com um pouco de meta-discussão? 8)
Supondo que você tivesse sucesso, você no máximo moveria o objeto da chateação, o que acho que não seria muito útil no final das contas. Afinal, o monte de merda que acontece e foi mencionada na discussão existe, seja em quem você bote a culpa.
A minha interpretação é que vocês estão falando da mesma coisa, só que pra um a culpa é da “religião” e para o outro, da “ignorância”. Mas acho que o conceito de “culpa” é meaningless, no final das contas (apesar de ser uma abstração útil em situações mais controladas).
Comment by Eduardo Habkost — 2008-06-10 11:54:10
Ei! Eu coloquei uma tag img acima, com essa imagem.
Mas acho que foi bom não ter funcionado. A imagem grande demais, e como não tem preview aqui, eu não ia conseguir ter certeza que ela ia ficar no tamanho certo.
Comment by Eduardo Habkost — 2008-06-10 11:55:51
Na verdade para mim a coisa era parte ignorância e parte filha-da-putice e má fé. Não sei se o leoboiko tem raiva de quem é ignorante, mas de quem é filho da puta eu aposto que tem. Sendo assim, o resultado, caso eu tivesse sucesso, seria um motivo de chateação (fdp) absorver o outro (religião), otimizando assim a porra toda. CQD.
Comment by Dr_Marafo — 2008-06-10 18:12:55