2007-04-20

À noite sou lobisomem

Há uns três dias que eu chego em casa meia-noite e vou tocar guitarra com minha banda de rock.

Eu já estive antes em empregos dilbertescos, sem grana, sem tempo para estudar ou solitário, mas nunca tudo ao mesmo tempo. A poluição atmosférica e sonora dessa cidade me deixa irritado o tempo todo, não consigo chegar nunca a tempo na empresa (— que desconta o dia inteiro de trabalho quando você atrasa), não li metade dos livros da faculdade ainda, estou mal de saúde por dormir pouco, as aulas de japonês e chá estão no cabide, até agora não encontrei casa, fui assaltado e perdi o celular, e o dono da banca de revistas falou que eu pareço o Júnior de Sandy & Júnior. Resumindo, a vida é uma droga.

(Vocês adolescentes que gastam seu tempo no World of Warcraft ou Second Life e os outros ficam falando “Get a life”: não o façam! A vida real é muito mais chata. Aproveitem enquanto podem.)

Chego em casa meia-noite e durmo, e já há uns três dias que toco guitarra em meus sonhos. No período de uma noite minha mente repassa fielmente uma dúzia de faixas que gosto, e tenho a oportunidade de tocá-las todas — claro que meu eu onírico sabe tocar músicas inteiras, e tem coragem de se expor de uma forma que a timidez de meu eu real não permitiria nunca. Talvez meu inconsciente esteja tentando suprir o vácuo enorme de expressão, individualidade, beleza, arte em minha vida. Não tenho do que reclamar; na falta de um PS2 com Guitar Hero, é a única oportunidade que tenho de ser um rockstar. Os sonhos são realistas o bastante para incluir sensações táteis, e eu posso sentir mais uma vez a distância abissal que existe entre um violão e uma guitarra — você quase-que sente a eletricidade nos fios da guitarra, é como criar música com fios de poste. Os caras de minha banda são músicos perfeitos, à la Sultains of Swing, e não falam nada nem se importam com coisa alguma senão o jammin’. Eles não ligam que eu não toque direito, que improvise, que não tenha dicção; é rock’n’roll, cara, o que vale é a intenção. Todas as minhas excentricidades são toleradas, incentivadas até, pois servem de material para minha performance. Eu tenho uma Stratocaster da Hello Kitty (sim, sou fã da Hello Kitty, algum pobrema mano?) e imito o diabo cantando Black Sabbath e, ilusão efêmera que seja, por alguns momentos sou feliz.

(Talvez seja difícil pra quem não é do meio entender a alegria pura que existe em cantar os temas negros e deprimentes do heavy metal. Imagine fãs de uma série de filmes de terror saindo do cinema após a estréia do episódio mais recente; eles acabaram de assistir duas horas de dor, morte e violência, e estarão felizes e entusiasmados com isso. Heavy metal, arte-irmã dos filmes de terror B, funciona da mesma forma; de fato, o estilo nasceu como “rock de filme de terror”.)

Quando o sol nasce eu acordo (sem celular não tenho despertador), saio de casa com sono e sem tomar banho, sofro hora e meia de ônibus lotado, chego na empresa atrasado e encaro mais um dia de feiúra e estupidez, andando apagado pelos cantos como uma sombra.

9 comments

  1. e tudo isso vale a pena?

    Comment by Caroll2007-04-20 21:08:16

  2. Pelo dinheiro, pela posição social? Não vale nem um pouco a pena.

    Mas como etapa intermediária para realizar meu sonho de estudar Letras em japonês e pegar bolsa para o Japão, vale.

    Comment by leoboiko2007-04-20 21:29:00

  3. Pelo menos ninguém disse que você se parece com a Sandy ;-)

    Você vai detestar meus comentários, mas vamos lá…

    Boa parte do seu pesadelo me parece self-inflicted, e você corre o risco de dar um belo passeio pela Self-Pity Ave.

    Até aí, normal. Todos nós já passamos por isso. Afinal, é batendo cabeça que se aprende. Mas suspeito que o seu objetivo possa ser atingido de maneira mais fácil, mais prática e mais divertida (carpe diem, certo?), ainda que um pouco mais longa e não intuitiva.

    Just my $0.02.

    Comment by anr — 2007-04-22 00:59:18

  4. “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena.”

    Comment by .bruxo2007-04-22 12:40:42

  5. Eu preferia parecer com a Sandy, ela é bonitinha e sexy. O Júnior além de imbecil é feio.

    Anr: não entendi direito o que quis dizer. É algo tipo “você podia melhorar sua vida”? Bem, eu preciso receber uma grana boa senão não sobra leitinho pra minha filha, e preciso me formar o mais rápido possível, e com nota alta, se não quiser passar a idade-limite da bolsa do monbukagakushou — que é a única maneira de entrar no Japão pela porta da frente (isto é, para estudar cultura japonesa, não para se acabar como salaryman).

    O que está me matando agora é meu trabalho burocrático. Eu não vim pra São Paulo ganhar dinheiro, e sim estudar (se eu quisesse ganhar dinheiro tava no Google Irlanda); se o trabalho interfere com os estudos o trabalho está errado. Mas já tou armando Esquemas pra me livrar disso…

    Comment by leoboiko2007-04-22 13:36:22

  6. quanto a self-pity… meu caro (ou minha cara), bow before me for I am the self-pity god—

    Comment by leoboiko2007-04-22 13:39:19

  7. leoboiko

    São Paulo é o paraíso e o inferno na mesma cidade. A rotina de levantar de madrugada, andar horas de onibus+metro+onibus (loop 2x) acaba com qualquer um (acredite, já passei por isso! Perdia 4 horas do meu dia nesta brincadeira… morava no Itaim e trabalhava em Diadema! Tinha que cruzar a cidade de ponta-a-ponta duas vezes por dia).

    Mas também é uma cidade com suas belezas e encantos às vezes escondidos.

    Onde mais você consegue achar literatura de qualidade por preço baixo? Sempre acontecem eventos na cidade (shows, peças de teatro, filmes europeus) e algumas vezes gratuítos. Especialmente na USP, não devem faltar alternativas culturais.

    Espero que seja somente uma fase (ruim) que passe.

    Boa sorte

    Adenilson

    Comment by Adenilson Cavalcanti — 2007-04-25 08:32:49

  8. As opções culturais da cidade realmente são invejáveis. Mas não adianta muito pra mim, quando não tenho tempo nem de ler os livros da faculdade!

    E, de toda forma, mesmo que tivesse tempo sobrando, não moraria aqui por vontade própria nem ferrando. Nenhuma quantidade de cultura me paga esse nível de poluição e mau urbanismo.

    Comment by leoboiko2007-04-25 10:07:16

  9. Boiko, td bom?

    Espero que sim.

    Bom, hoje eu recebi uma mnsg q me fez lembrar de vc, te passo um link que anuncia uma bolsa de estudos para o Japao. Acho ate’ q vc ja’ deve saber disto, mas nao custo reforcar.

    http://www.sp.br.emb-japan.go.jp/pt/not0705_mext08.htm

    Tomara que ajude.

    Qto a cidade, tenho a mesma opiniao q vc, poluicao feiura e mal gosto aqui esta’ encalacrado!

    []’s

    Arthur

    Comment by Arthur Mandalho — 2007-05-05 18:06:28

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