As Sentinelas
Meu mecha é leve, pouco maior que um carro, mas é rápido na pista e o projeto que estou fazendo é legal: vou atrás de carros que parecem feios ou risíveis e fotografo a mim mesmo fazendo poses engraçadas perto deles. Meio como aquelas seções “certo & errado” de revista de moda, mas com veículos e robôs. Lembro dos meus amigos lá na cidade e penso que eles vão dar risada disso.
Estou perseguindo uma kombi cheia de adesivos machistas quando de súbito a oportunidade se apresenta ao fotógrafo: o asfalto é tomado pela sombra de um mecha gigante, modelo novo 100% automático, todo vermelho-escuro. Só o pé dele é maior que a kombi. Pulo da estrada para o mato e busco um ângulo a favor da luz, pensando em ir pegando o rastro de destruição, mas o mecha me nota e se vira para mim numa atitude hostil. Poucas coisas são tão assustadoras quanto um mecha gigante te olhando numa atitude hostil, mas eu recupero a compostura; sem problemas, ele está achando que sou inimigo, tudo o que tenho que fazer é me declarar não-combatente e ele vai me ignorar — mando o sinal de “imprensa” enquanto ergo os braços — ele prontamente pisa em cima.
Meu mecha resiste por alguns segundos mas sou obrigado a abandoná-lo (↓+CD) antes que vire uma chapa de metal amassado. Pelo menos estou salvo, já que modelos automáticos nunca atacam humanos — na teoria, porque o bichão me ataca em seguida! Tem alguma coisa muito errada. Perto do barranco onde estamos tem alguns outdoors; eu corro na frente deles enquanto o robô atira, desenhando uma linha de buracos de bala sobre a mulher sorridente dos anúncios, e deixando assim um registro do que aconteceu — caso eu morra, espero que pelo menos alguém descubra isso e investigue. Sem outra opção, corro para o único lugar onde um humano está a salvo de um mecha — perto de seu corpo — e começo a escalar até a cabeça. É uma tarefa colossal, mas finalmente chego. Ele me nota quando alcanço a entrada (na área que seria o nariz), mas é sofisticado o bastante para não atacar a si mesmo — o que significa que deve ter defesas internas, o que significa que tenho que me apressar. Entro e acho um terminal de acesso — a interface é toda em HTML — e começo a procurar uma forma de desativá-lo, mas tem algo errado, e mesmo arriscando minha vida acabo fuçando a documentação, e descubro por que fui atacado:
Esta linha está programada para identificar e destruir desempregados, boas-vidas, vagabundos, e em geral qualquer indivíduo improdutivo para a Família, a Sociedade e a Nação.
É um Corporate Sentinel.
* * *
Acordo suado, com sede. O despertador do celular está tocando: 5:50, hora de puxar o plugue da conexão discada. Minha filha está resmungando no peito da mãe, então me levanto fazer uma mamadeira. Enquanto a água ferve, bebo um pouco de chá gelado caseiro, levo um copo para minha esposa e ligo o computador, a fim de registrar o sonho ainda fresco.
Desde que voltei para Curitiba estou entocado em casa, sem ver ninguém, sem usar a web, sem ir em qualquer lugar exceto à biblioteca. Tenho medo das pessoas — eu sei o que elas vão me dizer quando me virem — até agora não teve uma única boa alma que dissesse “puxa, então você teve que sair do curso dos seus sonhos que você estava gostando tanto? Que chato, não? Vamos sair tomar um vinho e tentar esquecer” (com a exceção de minha esposa, claro). Os conhecidos, a família, os velhos colegas, com todo mundo é a mesma coisa — a primeira frase que me dizem:
— E aí, já está trabalhando?
— Está procurando emprego?
— E o trabalho, como vai?
— O que anda fazendo?
— Tem uma vaga lá na minha empresa, quer vir?
* * *
Outro sonho:
Estou no fundo de um bar, letreiros em neon de várias cores, eu de sobretudo Constantine bebendo uísque. De repente entra o chefe Al com seus capangas, e todo mundo fica quieto. Chefe Al é enorme, queixo quadradão, costeletas, cicatrizes, terno cinza. Os capangas todos vestem chapéus de feltro, que não se dão ao trabalho de tirar. Chefe Al cochicha no ouvido de seu braço direito, um loiro bonito com olhar cruel — não só o olhar, a acreditar nos boatos — e ele rosna quebrando silêncio:
— Chefe Al está procurando pessoas inteligentes. O que vocês tem?
“Python”, grita um. “Ruby”, arrisca outro. “C”. Eu fico bem quietinho; se chefe Al souber que sei Lisp, é capaz de me chantagear para trabalhar para ele ou coisa assim.
“Python” — outro — “Haskell” — opa, tá ficando bom. “PHP”.
Todos se calam. Chefe Al vira o rosto lentamente.
O pobre-diabo está sorrindo meio de lado, o canudinho de seu coquetel ainda na boca. Pobre diabo. Os capangas seguram-no pelo braço e o levam. “MySQL! MySQL, também!”, grita, sem saber que só está piorando as coisas. Eu suspiro e volto a beber.
Nunca mais vi o sujeito. Pelo que ouvi dizer, ele foi encontrado na beira da estrada no dia seguinte, e o tratamento especial do chefe reduziu-o à idade mental de cinco anos. “É a idade adequada para quem programa PHP”, foi o único comentário do chefe Al.
* * *
Levo minha filha para a senhora que ajuda a cuidar dela. Ela não me cumprimenta dizendo “bom dia”, me cumprimenta dizendo “e aí, e o trabalho?”. E eu sei que vou acabar trabalhando. Por todos os meus ideais, eu sou fraco; não consigo agüentar tanta pressão; minha vontade de ferro enferrujou; me rendi às minhas neuroses, não estou trabalhando para melhorar minha vida, não estou escrevendo ou me esforçando para ser frila.
Quanto tempo leva para aprender alguma coisa? Aprender de verdade? Dez anos, segundo estudos (eu já falei nisso?). Tirando os primeiros vinte anos, quando estamos verdes demais, e os últimos vinte, quando estamos já de saco cheio, sobram aí uns sessenta anos. Seres humanos têm apenas seis skills slots. E mais: o valor de cada slot é desproporcional; o primeiro é o único que você vai aproveitar desde os trinta.
Uma vida. Seis skills. Sem paraíso, sem alma, sem reencarnação, sem continue, sem ensaio prévio. Seis skills, e é isso.
Fazem sete anos agora desde quando eu disse que ia aprender a programar videogames e a ser um guru Unix. No meio do caminho descobri que fazer computação por gostar de videogames era o mesmo que fazer física ótica por gostar de cinema (eu já usei essa frase?), e enquanto isso a coisa toda de software livre meio que morreu — hoje em dia você não pode falar em ética ou sociedade no contexto de software que logo aparecem 3d6 seguidores do Linus “fucking idiots” Torvalds batendo na sua cabeça com cópias piratas do Photoshop e gritando “pára com essas viadagens de filosofia no meu software, eu uso a ferramenta certa para o trabalho porque o trabalho é a única coisa que importa!”. Software livre corporatizou, virou Open Source™. E eu fui arrastado para um mundo que nunca quis; um mundo de dinheiro, luzes fluorescentes, ar condicionado, linguagens de programação ruins e software proprietário.
Tenho um amigo que terminou o segundo grau e ficou no interior. Passou por um punhado de empregos ruins, é verdade, mas está agora como agente de saúde pública. Ele vai de casa em casa ensinando o povo a evitar o mosquito da dengue. Seu trabalho consiste em tomar café em uma dúzia de casas por dia (você não pode visitar alguém no interior sem ser convidado para tomar café). Leva poucas horas, deixa tempo para fazer as coisas dele, rende o suficiente para cuidar de seu filho e é um trabalho que faz sentido, com um resultado importante. Meu amigo está feliz. Eu estaria, no lugar dele. Ao invés disso vim para a cidade grande me matar de estudar na UFPR — para quê? Gastei meu precioso primeiro skill slot para quê? :(
UHhuAhuA cara… sentinel foi foda! xD
Comment by lorena — 2007-09-11 21:19:50
Apesar de não concordar com a ideologia do software livre e preferir seguir a Linus Torvalds, ou mais precisamente, a Eric Raymond; imagino a tua angústia. Também passo pela mesma situação de questionar aonde gastei meu primeiro ’skill slot’ e também estou desempregado e sem saber o que fazer, mas por razões diferentes.
Mas anime-se! Não é o fim de tudo. Ainda restam 5 ’slots’ totalmente livres, de acordo com tua teoria.
E essa parte do “mecha caçador de desempregados, boas-vidas, vagabundos, e em geral qualquer indivíduo improdutivo para a Família, a Sociedade e a Nação” é um baita delírio desse teu sonho. Todos sabemos que no Brasil estes ganham bolsa-família, seguro-desemprego, vale-isso, vale-aquilo, assistencialismos diversos…
Bom saber que você voltou a escrever. Sentia falta disso.
Comment by Kosher-X — 2007-09-13 18:15:17
Yuuu, enfim encontrei vc e sei que esta por ai, pois este post e’ recente. Quem sabe vc nao queira ter o trabalho mais idiota do mundo ? Ou seja, reinventar mundo ? Ou seja, ser escritor, poeta, proscrito, bandido, jamais entendido a nao ser pelo seu umbigo ? Talvez voce nao queira mais frequentar aquela oficina dada por alguem mais estranho que vc mas talvez seja bom voltar mais uma vez e comprovar que eh isto exatamente o que vc nao quer. Nosso proximo encontro sera apenas no dia 06 de outubro, portanto vc tem tempotempo bastante para pensar. Estou esperando. beijos
Comment by Mariia — 2007-09-15 20:54:32
Eu quero ser escritor! Eu não posso! Buá (;_;)
Se bem que na verdade eu sou escritor profissional agora! Tá, de apostilas de computação, mas ainda assim.
Eu parei de ir na oficina porque estava seriamente deprimido, Kubota-sensei. E ainda por cima talvez vá embora de Curitiba. Mas se não for tarde para voltar, eu apareço por lá dia 6…
Comment by leoboiko — 2007-09-18 15:43:26
ola leonardo, meu nome é Katiúscia, não teho nenhum comentário a fazer no momento, na verdade quero pedir, sabe onde posso aprender na net romaji? obrigada
Comment by Katiúscia — 2007-09-20 16:06:18
Katiúscia, a palavra “rōmaji” (significando “caracteres romanos”) é simplesmente a maneira que os japoneses chamam o uso de nosso alfabeto para representar palavras japonesas; por exemplo, “sushi” é uma palavra em rōmaji.
Eu não entendi direito o que você quis dizer com “aprender rōmaji”. Se você quer simplesmente aprender como os sons japoneses são romanizados, basta ler e.g. o artigo da Wikipédia. Agora, se o que você quer é aprender japonês através de rōmaji, bem, não faça isso! Sério, atrapalha muito depois. Se você quer estudar japonês, comece logo de cara aprendendo os caracteres silábicos — kana — e use-os sempre que puder para pegar prática. Dá menos trabalho do que parece.
Comment by leoboiko — 2007-09-27 08:54:19