Autobots, sair de cena!
Estou me convencendo que o Michael Bay, o J.J. Abrams, o Mark Steven Johnson e os outros dessa laia estão fazendo de propósito. Eles devem pertencer a uma organização fanática anticinema que busca sabotá-lo de dentro pra fora, fazendo filmes tão chinfrins que toda a mágica vai sumir e ninguém mais vai querer assistir nada. É a única explicação possível.
Quero dizer, como você conseguiria fazer um filme ruim com ROBÔS GIGANTES VINDOS DO ESPAÇO QUE VIRAM VEÍCULOS? O material-fonte é bom demais. Não importa quantas formulinhas batidas você enfie no meio, não importa que o roteiro seja previsível e cheio de buracos, no fim das contas o filme vai ser bacana, porque ei, pelo menos tinha ROBÔS GIGANTES DO ESPAÇO QUE VIRAM VEÍCULOS, certo?
Mudança de cena para o laboratório secreto da Sociedade Secreta Para a Destruição do Cinema. Michael Bay, de capa preta e monóculo, pondera a questão de como fazer dos Transformers uma porcaria tediosa como todos os seus outros filmes. Subitamente, um sorriso maligno ensombrece seu rosto! Uma gargalhada espectral ecoa pelas amplas câmeras! “Eu tenho a solução”, rosna Bay! “É só deixar os robôs fora do filme! Vou ocupar todo o tempo com três dúzias de humanos clichês completamente detestáveis, de forma que não sobre espaço para mais que uma fala ou duas de cada robô — e não mais que dez minutos corridos de luta! É perfeito! É maligno! Mwahahahaha!”
E esse foi o filme dos Transformers. As cenas com robôs ficaram legais, se você conseguir tolerar 120min de velhos estereótipos fazendo coisas hollywoodianas. No mais, acho que este quadrinho do VGCats resumiu bem o problema.
A seguir: eu falo do que gostei no filme, igualzinho àqueles reviews “profissionais” que são obrigados a ser “imparciais” e a “mostrar o lado bom”. Viu como sou bonzinho?
Ao contrário de muita gente, eu não me oponho à pintura kistch do Optimus Prime. Acho até que ficou bastante legal. O que não ficou legal foram os outros robôs, principalmente os sem cor — o Jazz e os Decepticons todos. Aliás, essa é uma crítica geral da fotografia do filme: ela infelizmente cai no preconceito tipicamente americano que coisas “sérias” têm de ser pálidas e descoloridas. Onde já se viu Transformers sem cor? A mecânica alienígena cheia de partes também ficou péssima. (Essa seção não era pra ser de elogios?)
Chevrolet Camaro: Boa escolha para o Bumblebee. Que fique anotado que eu vou odiar a Volksvagen pelo resto da vida por eles terem se recusado a deixar que o Bumble fosse um fuscão amarelo, que é o certo. Também não gostei do carro deixar de ser velho no meio do filme, mas não se pode ter tudo, né? A versão 77 era muito mais charmosa.
A propósito, a cena do novo Camaro foi uma coincidência curiosa: eu sempre pensei que, se eu tiver que ter um carro, vai ser um carro antigo e a música-tema dele vai ser Comanche. E não é que o Bumblebee se exibe justamente com Battle Without Honor or Humanity? Trilha sonora diferente, mas mesmo diretor…
Par romântico forte. Tá, ela é tão sem graça quanto se esperaria do Bay, mas pelo menos, ao invés de se retirar de cena depois do beijo como boa moça, ela volta lá e ajuda na luta. Uau.
(Ouvi alguém dizendo: Boiko, você está aí reclamando dos personagens bayanos, mas os Transformers também não têm todos personalidades clichês? Sim, sim; mas eles são ROBÔS GIGANTES DO ESPAÇO QUE VIRAM VEÍCULOS! Eu paguei meu ingresso para ver ROBÔS GIGANTES DO ESPAÇO QUE VIRAM VEÍCULOS, não soldados valentes com saudades da família & lindas experts em computadores & jogadores de futebol americano bullies & negões cômicos!)
Depois de Armageddon jurei nunca mais ver nenhum filme do Michael Bay. Até agora não vejo indícios para achar que foi uma má decisão. Deveria ter feito esse voto também para o quem-quer-que-seja diretor de outro filme maldito, The Day After Tomorrow, em que fiquei até a metade esperando o filme começar, e cujo único ponto de interesse foi a presença do Donnie Darko. Pwah.
Comment by Claudio — 2007-07-25 21:15:41
Mas HOUVERAM ROBÔS GIGANTES QUE VIRAM VEÍCULOS! METADE DO FILME É ISSO!
Nunca leu nos quadrinhos, não? O primeiro número de Transformers é basicamente nessa mesma proporção. (aliás, o roteiro do filme é bem inspirado nessa história, no começo).
E, não são 120 minutos. São 164 minutos. Olha só, mais tempo pros robôs aparecerem!
Pra mim está mais que bom. Nunca esperei mais que um blockbuster pipocão, mesmo. Cinco cifrõezinhos: $$$$$
Comment by Kosher-X — 2007-07-26 10:19:15
Kosher: Eu (e o vgcats) discordamos da sua definição de “metade”, então, porque pra mim 90% do filme foi com humanos em draminhas chatos e robô nenhum. Teve robô que mal apareceu e sumiu, teve (muito) robô com ZERO falas, enquanto as três dúzias de humanos sem graça tiveram todo o tempo do mundo.
Você não entendeu minha análise completamente científica: são 120 minutos de velhos estereótipos fazendo coisas hollywoodianas, contra (- 164 120) minutos de robôs gigantes quebrando coisas; o inverso da proporção que eu esperava.
E eu esperava um blockbuster pipocão bom, tipo um Harry Potter. Claro que não devia, com esse diretor, mas em minha inocência pensei que ninguém conseguiria estragar os Transformers (se estragaram até o Hellblazer, por que não?).
Comment by leoboiko — 2007-07-26 13:05:23
Matsuoka: Ao comentar a… memorável… direção do Bay no Armageddon, não podemos esquecer que o filme nunca poderia ter sido o que foi sem o roteiro característico de J.J. Abrams!
O Day After Tomorrow vai começar depois de amanhã, ué *ducks*. O responsável é um Roland Emmerich. Carreira: aquele Godzilla de 98, escritor do Independence Day, vários deadhorses de Stargate XYZ… acho que é seguro assumir que ele faz parte da Sociedade.
Comment by leoboiko — 2007-07-26 13:13:08
Acho que você deve ter um problema de percepção de tempo, então. Porque metade do filme foi com os robôs, de ambos os lados somados, claro. Sim, houveram robôs que sumiram de cena sem explicação alguma e alguns poucos que não tiveram falas. Mas isso é relevante, pois até o Bumblebee teve algumas falas. E isso tudo é fichinha perto da série original.
Também entendi tua crítica. Você nega que robôs quebrando coisas seja um estereótipo hollywoodiano? Você está relativizando os combates dos robôs no filme em tua crítica, apesar de você elogiar a idéia. Faz com que você mantenha elogiando a idéia original das séries enquanto você usa como argumento pra desmoralizar Michael Bay (com razão, até certo ponto).
E desculpe pelo argumentum ad hominem gratuito, mas desde quando Harry Potter é BOM?
Comment by Kosher-X — 2007-08-01 16:13:20
Olha, eu não sei de onde você está tirando essa figura de metade, mas eu discordo totalmente dela e não sou o único. Além dos meus amigos e do vgcats, uma olhada rápida na net me deu cinco reviews citados na wikipedia reclamando justamente disso, além de mais ou menos metade dos reviews negativos no rottentomatoes — onde ele está com 57% atualmente.
Eu nunca neguei que robôs gigantes quebrando coisas sejam um clichê. Mas é um clichê que eu gosto de assistir. 90% do filme dos Transformers foi um exercício em zapeamento passeando neuroticamente por filme de soldado americano, filme de romance adolescente, filme de investigação informática, filme de comédia pastelão e mais um monte de troços que eu não gosto de assistir e não queria assistir quando entrei no cinema.
Quanto à série original, você está comparando laranjas e maçãs. O pacing de uma série é totalmente diferente do de um filme. Quando o David Lynch transformou Mulholland Drive em um filme, ele teve que acrescentar recheio concentrado como o Teatro Silêncio. Se um filme de Dragon Ball passasse metade do tempo mostrando a Bulma passeando de moto, como a série faz, os fãs ficariam bravos com o filme, e com razão.
E os filmes de HP são muito bons. Não se comparam aos livros (Snape: “obviously”), que são muito muito muito BONS, mas ainda assim não tenho do que reclamar deles. Order of Phoenix foi de longe o melhor filme-de-shopping que eu vi esse ano, e eu vi uma quantidade incomumente grande deles.
Comment by Leonardo Boiko — 2007-08-01 18:25:57