Cultura japonesa e individualidade
No começo de 2007 eu terminei meu curso de ciência da computação na Universidade Federal do Paraná e fui estudar letras em japonês na Universidade de São Paulo. Lá pelo meio de 2007, não agüentei o ritmo de estudar e trabalhar e sustentar família e acabei forçado a abandonar o curso, indo parar no psiquiatra. No decorrer do tratamento eu descolori meu cabelo. Hoje em dia esse tipo de coisa já não é considerada chocante, mas mesmo assim eu me senti um pouquinho livre; foi meu pequeno gesto de individualidade, meu pequeno protesto contra a cultura de conformismo que considero em última análise responsável por minha depressão.
No final do ano o grupo de cerimônia do chá de Curitiba me disse que, se eu quisesse participar do evento de chá em janeiro de 2008, eu teria que pintar meu cabelo da cor natural ou raspá-lo.
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A cultura japonesa é muito linda e fascinante, mas quando mais você se aprofunda nela mais sente o lado negativo: a terrível pressão por conformidade. Um ditado local diz que “o prego que se sobressai é o primeiro a ser martelado”… Quando penso nisso eu quase sinto vontade de abandonar os estudos sobre o Japão, para os quais dediquei minha vida.
Em São Paulo eu vivi numa pensão da Liberdade. Um dos moradores de lá era um rapaz nissei que trabalhava na televisão como modelo e produtor. Ele também era gay. Ele odiava qualquer coisa relacionada ao Japão; quando saíamos atrás de apartamento, eu procurava as imobiliárias japonesas e ele fugia delas. Não posso nem imaginar como deve ser forte a pressão japonesa contra uma pessoa gay. No fim o rapaz foi expulso da pensão, sob a alegação de que dormia o dia inteiro (seu trabalho como produtor era à noite).
Outro dia estava conversando com uma professora de japonês que conheci no curso de min’yō, e o assunto foi para essa dificuldade do povo em lidar com o que é diferente. Esta professora, quando pequena, odiava a cultura japonesa pelo mesmo motivo; ela é de uma geração em que os japoneses não podiam fazer nada que não fosse “japonês”. Mais tarde ela redescobriu a cultura, como eu, através da cultura pop, e acabou virando entusiasta. Sobre os grupos de shakuhachi dos quais participou, ela não tinha dúvidas: “Esses costumes vão morrer. Eles não vão sobreviver aos preconceitos de seus próprios membros.”
Desta mesma professora veio a sugestão (séria) de que eu resolvesse meu dilema usando peruca. Ela me contou o caso de sua mãe, nascida no Japão de pais japoneses mas criada no Brasil. Acontece que a sua linhagem tem uma característica incomum: cabelos encaracolados (quando foi conhecer a família no Japão, ela foi reconhecida imediatamente na estação de trem por ter “os cabelos de nosso clã”). Pois bem, essa japonesa verdadeira, quando tinha que se relacionar com a comunidade nikkei, usava peruca! Foi uma geração atrás, mas se um simples cabelo naturalmente encaracolado era chocante demais, que dirá meu branco artificial.
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Será que estou sendo infantil por não querer usar peruca no evento de chá? Mas existe algo que me incomodou muito nessa história toda, algo mais do que simplesmente sentir-se rejeitado. Eu respeito a necessidade de preservar as tradições, de ser cauteloso com mudanças, mas acontece que não estou querendo mudar os costumes do chá, e sim a mim mesmo; pintei de branco meu cabelo, não o chasen. E, no nível pessoal, a cerimônia do chá estilo wabi sempre prezou pela aceitação ampla. Já o fundador, Rikyū, insistia em convidar agricultures rústicos e sem modos para o chá; ele repreendia duramente os alunos que riam dessas pessoas, dizendo que o importante é o coração, a dedicação. O soke da décima primeira geração, Gengensai, criou toda uma nova categoria de procedimentos usando mesas e cadeiras, em parte para que o chá ficasse mais acessível aos ocidentais, não habituados a ficar de joelhos — e isso no século XIX! Mestre Hounsai considerou como o trabalho de sua vida espalhar o chá por tantos países e culturas quanto pudesse, a fim de promover a paz e a tolerância, e se a Urasenke chegou ao Brasil é graças a ele.
Esse espírito de aceitação é parte do que me faz gostar tanto da cerimônia do chá. Durante meu pior período de depressão, quando eu oscilava entre a vontade de suicídio e o sentimento de responsabilidade por minha filha, os únicos momentos em que eu me sentia tranqüilo eram aqueles no interior da sala de chá. Ali e apenas ali eu poderia me entregar de corpo e alma para o próximo, e ter a certeza de que ele acolheria sem reservas minha entrega e dedicação. Foi uma grande alegria para mim ser aceito como aluno de Hayashi-sensei, como tinha sido anteriormente uma grande alegria ser aceito pela falecida Teruko-sensei — que sempre fez questão de tratar igualmente todos os interessados, não importa o quão diferentes ou “ocidentais”, e foi praticamente uma avó para mim. Então, quando meu grupo me diz que não posso fazer chá com o cabelo pintado, isso me parece profundamente antitético ao que a cerimônia do chá é. Fazer essa objeção ao cabelo abre toda uma nova categoria de possíveis exigências: se o chá não pode aceitar pessoas que passam água oxigenada, será que ele aceita piercings? Tatuagens? Bissexuais? Ateus? Poliamoristas? Punks, como o mestre sōto zen Brian Warner?
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Eu não vou usar peruca, nem raspar meu cabelo. Não se trata de teimosia, e sim de minha postura em relação à filosofia do chá. Se eu abrir mão de meu cabelo para fazer chá, vou fazer chá triste, com uma sensação de obrigação; e chá assim não vale a pena ser feito.
No curso de chá da USP tinha uma aluna com cabelos roxos. Um dia ela veio ao treino com roupas pretas e tênis all-star no mesmo vermelho brilhante de seu fukusa. Quando vimos ela fazendo o fukusa-sabaki, eu e um sempai ficamos simultaneamente tocados pela harmonia daquelas cores fortes, pela juventude e liberdade que elas transmitiam, como se fossem um quimono furisode. Seria uma pena se essas novas harmonias fossem censuradas pelo chá.
O pioneiro dos estudos japoneses, Lafcadio Hearn, sempre lutou contra a tendência uniformizadora da cultura japonesa; justamente por amar a elegância e sutileza da arte desse povo é que ele tentou enriquecê-la com o respeito ocidental pela expressão individual. Como amador, me inspiro no exemplo dele para não ir ao evento em janeiro, por mais que sinta falta de treino no meu novo lar em Belo Horizonte.
Lamento muito por toda essa situação, principalmente porque sofro com essa uniformização tanto quanto você. Infelizmente não vejo o espírito do chá como imaginava que seria.
Mesmo assim, boa sorte em BH!
Comment by vinícius — 2008-01-07 13:52:32