Depressão
Depois de todos esses anos, finalmente encontrei a felicidade. Prestem atenção, que isso é importante. Ao contrário da crença popular, dinheiro compra felicidade, sim (e o preço é bem altinho, diga-se de passagem). Felicidade é vendida em caixinhas, assim como o Microsoft Windows™. Aqui, eu fotografei umas caixinhas de felicidade pra vocês verem:
Sentindo o vento das asas da loucura
If you should go skating on the thin ice of modern life
Dragging behind you the silent reproach of a million tear-stained eyes
Don’t be surprised when a crack in the ice appears under your feet
You slip out of your depth and out of your mind
with your fear flowing out behind you as you claw the thin ice—Pink Floyd, “The Thin Ice”
Finished with my woman ’cause she couldn’t help me with my mind
People think I’m insane because I am frowning all the timeMake a joke and I will sigh and you will laugh and I will cry
Happiness I cannot find and love for me is so unreal—Black Sabbath, “Paranoid”
Do meio de 2007 até agora, estive lutando contra a depressão. Pensei muito sobre o que colocar neste post, sobre como expressar o que não pode ser expressado — não tem jeito de uma pessoa normal saber como um deprimido se sente. Não ajuda que a palavra tenha dois significados diferentes: pessoas saudáveis dizem “estou deprimido” quando ficam tristes porque aconteceu algo ruim, e por isso imaginam que depressão clínica seja a mesma coisa, só que mais forte. Não é. O maior problema com este erro é que a tristeza é passageira e pode ser vencida pela própria pessoa, e depressão não. Além disso, tristeza costuma ter causas óbvias na vida da pessoa, e depressão não. Aí você está vivendo num pesadelo insuportável e ainda tem que agüentar os outros dizendo que a sua vida é ótima e como é que você tem coragem de ficar deprimido com tantas criancinhas passando fome na África etc.
Vista de dentro, depressão é muito diferente de tristeza. Você não se sente mal, você sente… nada. Uma das conseqüências da depressão é anedonia — ausência de prazer. Nada do que você gostava parece valer a pena, e você passa o dia inteiro na cama, dia após dia, mês após mês. É como se tivesse uma barreira invisível entre você e o mundo, como se a vida perdesse a graça. Você se sente culpado por ser um preguiçoso que não faz nada, e esse sentimento faz com que tenha menos energia ainda. Ao contrário de tristeza, depressão é algo quente: você vive permanentemente ansioso, insatisfeito, com pressão mais alta e muito cortisol no sangue, e passa a depender de adrenalina pra tudo, literalmente incapaz de levantar o braço se não for no último momento para evitar uma catástrofe.
O modelo mental que tenho da depressão é um ciclo de feedback multidimensional. Ciclos de feedback são uma dessas idéias poderosas, que você passa a enxergar em todo lugar depois que aprende. Um ciclo de feedback é um processo repetitivo que a cada iteração aumenta a intensidade de si próprio. O exemplo canônico é microfonia: traga um microfone para perto de uma caixa de som e ele fará com que o zumbido baixo da caixa saia um pouquinho mais alto, e amplificará novamente este novo zumbido, até chegar a uma altura insuportável e a platéia xingar sua mãe. Ciclos de feedback são o mecanismo pelo qual a natureza desenvolve coisas exageradas, como pescoços de girafa ou caudas de pavão. A depressão também é um ciclo que alimenta a si mesmo, mas ela envolve um monte de fatores. Uma lista não exaustiva inclui:
- Problemas pessoais
- Sedentarismo
- Má alimentação
- Insônia
- Cessação da neurogênese
- Sentimento de culpa
- Solidão
- Anedonia
- Cortisol alto
- Dependência de adrenalina
- Falta de serotonina
Todos esses fatores se reforçam mutuamente. Por exemplo, a cessação da neurogênese causa dificuldade de concentração, que causa problemas pessoais, que trazem o sentimento de culpa, que causa insônia, que barra o sono pós-REM e impede a neurogênese. Anedonia faz você não querer comer nem sair de casa, o que traz uma solidão insuportável, fazendo você ficar nervoso e aumentar o cortisol, o que te tira toda a força de vontade exceto através do adrenaline rush, cujo preço é o adrenaline crash e mais problemas pessoais, além de puxar o cortisol ainda mais pra cima… Deu pra pegar a idéia? Depressão leva anos pra desenvolver, e eu acho que a minha deve ter começado lá por 2004, quando descobri que não queria ser cientista da computação nada e muito menos um técnico assalariado (nesta época minhas notas despencaram; ouvi dizer que essas quedas súbidas de desempenho são um bom indicador de depressão acadêmica). Uma vez que você tenha passado de um certo limite, a depressão não depende mais da sua vida e vai crescendo por conta, até você não ter vontade nem de pensar. É mais ou menos nesse ponto que você começa a querer se matar.
Depressão é a terceira maior causa de suicídio (a segunda é estar com seus dias contados por uma doença fatal, e a primeira é depressão bipolar). Se você ficar deprimido e não se tratar, você vai acabar se matando. A não-existência parece cada vez mais atraente, e começa a te puxar como a vertigem te puxa pro abismo. Pessoalmente, acho que a maior razão para não ter me matado é que eu acho um desperdício se matar sem ser do jeito apropriado, e o jeito apropriado envolve um quimono branco, uma wakizashi, uma refeição kaiseki-ryōri e um último poema escrito à mão. Mas se eu continuasse no caminho que estava, não tenho dúvidas que teria abandonado também esta última vaidadezinha.
O problema com a depressão é que ela é uma doença da vontade, e como você vai querer se curar se não tem vontade de viver? Meditação, exercício não-competitivo, sono longo e boa alimentação todos comprovadamente melhoram a depressão, mas de onde você vai tirar forças pra fazer essas coisas todas? Se você sente que são novas responsabilidades, só vai se afundar mais ainda. Eu acredito que a maioria das depressões poderia ser curada com um ano ou dois de férias no sítio, sem absolutamente nenhuma obrigação e com alguém te dando atenção o tempo todo; mas quem de nós pode arcar com isso?
O único modo de quebrar o ciclo sem parar com sua vida é mexendo no wetware: antidepressivos. Os remédios te dão uma carga extra de serotonina, que dá energia o suficiente pra consertar o que tem de errado. Usuários de antidepressivos sofrem muito preconceito porque depressão é visto como algo que a pessoa deveria curar sozinha, e quem recorre aos remédios é um fraco, um perdedor. Este é um preconceito que mata pessoas, tanto quanto o preconceito católico contra camisinhas.
Piadinhas à parte, antidepressivos não são pílulas da felicidade. Eu não estou feliz. Me sinto perfeitamente normal, ou seja, cínico, melancólico e solitário. De onde estou agora, sinto como se o Citalopram fosse feito de farinha e o ritualzinho diário de um comprimido às 10:30 fosse uma superstição inútil. Mas ainda me lembro de como foi na terceira semana de uso, quando o remédio finalmente bateu e aquela coisa dentro da minha cabeça sumiu; e eu sei que se parar de tomá-lo agora vai voltar tudo, porque teve dia que esqueci e foi terrível. Antidepressivos não te fazem feliz, te fazem normal — mas se sentir normal de novo é melhor que qualquer alegria.
Duas palavras sobre amor
I gave my soul to someone
she must have known that it was already soldIt was never about her, it was about the hurt
— Marilyn Manson, “They said hell is not hot”
Eu escrevi sobre isso faz pouco tempo, mas para deixar o post completo: não importa o quão profundamente você ame alguém, isso não é garantia nenhuma de que ele te ame de volta. Falando assim parece tão simples, mas é o fato mais doloroso que aprendi sobre a vida.
Como alguém com problemas mentais, tive que me convencer que não posso viver sozinho. E é fácil fazer com que gostem de você em condições normais de temperatura e pressão, quando você está bonitinho, barbeado e carinhoso, mas quem vai estar disposto a abandonar o próprio bem-estar para vir te abraçar quando você está abraçando a privada bêbado e xingando tudo o que vê? Foi terrível ver quem eu gostava indo cada vez mais longe e me deixando sozinho com a Eternidade, mas felizmente teve uma pessoa — apenas uma pessoa — que quis ficar do meu lado o tempo todo: uma pessoa que aturou meus desabafos, uma pessoa que me mandava emails, uma pessoa que viajou para me ver quando eu não agüentava mais de solidão. Então eu casei com ela antes que mudasse de idéia.
Estive no inferno e tudo o que ganhei foi esta frase de efeito
O que aprendi com tudo isso?
Força de vontade tem limites. Você pode conseguir muita coisa se tiver força de vontade, mas tem um custo. E mais: pessoas doentes têm um pool de força de vontade muito mais baixo que o normal. Se eu quiser tomar banho, fazer a barba e tomar café, só vou chegar na empresa meio-dia. Se eu cozinhar, não vou ler o livro. Se eu ler o livro não vou fazer o trabalho. Se eu fizer o trabalho não vou escrever no blog, e se eu escrever no blog não vou aprender caligrafia. É péssimo que seja assim, eu não queria que fosse assim, mas é assim. Quando você tem que lutar pra conseguir levantar, você aprende a baixar suas expectativas.
Por querer fazer tudo, eu quebrei meu cérebro e agora não posso fazer quase nada. Sou como o Rock Lee, que treinou duro demais, estragou seu corpo e teve que se recuperar bem lentamente, mesmo com a ajuda curativa da Tsunade Citalopram.
Pessoas deprimidas não deviam ter que trabalhar, mas eu tenho que trabalhar. Isso significa que não posso fazer mais nada além de trabalhar: até a sobrevivência básica do dia-a-dia vai sair prejudicada, e sem minha esposa eu não conseguiria nem fazer as duas coisas. Quanto a aprender japonês, shakuhachi, guitarra, cerimônia do chá, culinária japonesa, desenho, pintura, carpintaria, escrever um livro, um videogame, um punhado de blogs, tirar fotos na gameboy camera, analisar a relação entre pixel art e bordado etc. etc., isso não me pertence mais.
Nunca vou rir de uma pessoa escrevendo textinhos autopiedosos na Internet. Claro que eu nunca ri antes, mas agora que sei o que a pessoa pode estar passando, tenho mais certeza ainda de que não vou rir disso. Fico pensando em quantos adolescentes rimando amor com dor podem estar com um pé na depressão (com os dois você nem tenta mais); fico pensando naqueles que a mídia noticia que se mataram depois de net bullying, e se os bullies fazem idéia do sofrimento que estavam causando.
Faz uns dez anos que me perco nos cruzamentos das internets e já devia ter me acostumado com os golpes dela, mas eu tenho algo exposto demais e acho que não vou me acostumar nunca. Volta e meia eu tento lidar com minhas dores mais profundas e aparece alguém pra me chamar (anonimamente) de poser ou emo ou equivalente. Não tenho nenhuma teoria sobre por que diabos as pessoas fazem isso, exceto, claro, a Greater Internet Fuckwad Theory, mas mesmo sabendo que não deveria dar bola, essas coisas me derrubam por semanas. Minha esposa até já aprendeu a detectar quando acontece (“Você está triste hoje, o que foi? Quer dizer, você sempre está triste, mas hoje está mais triste.”) A net é perigosa pra gente como eu.
Desconfio da percepção subjetiva mais ainda do que já desconfiava (“eu só confio em mim mesmo”, me disse alguém certa vez, e eu pensei “então você é bem menos cético que eu”). Quando você tem um problema mental, você enxerga a realidade de uma forma completamente distorcida.
O que eu pensava que era procrastinação e preguiça era uma doença. Quando o inibidor de reabsorção de serotonina começou a agir, de repente o reddit não me prendia mais.
Sem perceber, fiquei psicologicamente dependente do álcool. Álcool é uma droga ruim para deprimidos, atrapalha mais do que ajuda. Estou em abstinência agora; ainda tomo um golinho de vinho quando faço macarrão, mas vodka e uísque nem pensar.
As pessoas não vão entender o quanto eu não quero trabalhar, e pronto. Eu virei uma pecinha da Máquina, e se a engrenagem não está lá no meio pra rodar todos consideram um desperdício. Durante os meses em que eu lutava para conseguir dormir com a luz apagada, os cumprimentos que eu recebia não eram “oi, tudo bem?”, eram “oi, você já está trabalhando?” Elas vivem em um outro mundo, um mundo no qual o valor de um homem é medido pelo seu salário, e esperar compreensão delas é esperar demais.
Doenças mentais existem, não são só frescura ou exagero sobre emoções ruins. Minha vida mudou quando achei na net descrições assustadoramente exatas do que estava acontecendo dentro da minha cabeça; novamente agradeço à ciência, por ter se dado ao trabalho de estudar e documentar isso. Os sites que mais me ajudaram foram:
- Artigo na wikipedia sobre depressão clínica. Todas as pessoas saudáveis que têm que lidar com alguém deprimido deveriam ler isso e comparar com Depression (mood).
- Modelo simplificado de depressão no kuro5hin.
- Como pessoas deprimidas se sentem — os comentários são melhores que o post.
- Remédios pra cabeça, sem enrolação.

Muito interessante seu relato sobre depressão. Saiba que hoje você ajudou alguém a se sentir melhor.
Comment by Anderson — 2008-01-03 17:14:21
Faltou um “mas atenção, ao contrário do Citalopram, a caixinha do Windows não vai te trazer felicidade” :P
Gostei do texto em geral, apesar de longo. E achei interessante você ter apontado as origens do seu problema, acho que foi por aí mesmo.
“Doenças mentais existem, não são só frescura ou exagero sobre emoções ruins”. Com certeza, e embora no contexto isso se aplique a depressão, existem doenças bem mais graves, (e diga-se de passagem, muitas vezes com sintomas nada óbvios) que vão bem contra qualquer entendimento leigo.
Já o texto do Kuroshin é +/- o cara começa a viajar demais, e fala muita besteira. Por exemplo, qunado não recomenda esportes porque “o bem estar vem da adrenalina” Não! Existem outros mecanismos de bem estar associado ao esporte (como endorfinas). E é claro, o esporte mais adequado para alguém sofrendo de depressão não é futebol americano, triatlo, etc… (e falam isso nos comentários) Os comentários então, acho que no geral estão melhores que o texto, tem uns bons, mas tem muitos malucos também.
Comment by Tabgal — 2008-01-03 21:26:22
Na parte do esporte o cara do kuro5hin tá errado mesmo. Ele teve experiências ruins, mas no caso em geral tem uma grande quantidade de estudos que comprovam que exercícios físicos fazem bem (em defesa do cara, a sociedade atual confunde muito exercício com competição). O ponto interessante do artigo é a dinâmica serotonina/adrenalina/cortisol (embora esteja muito simplificado; na vida real existe um monte de outros hormônios mais complexos envolvidos).
O texto está virando um livro no wikibooks e o livro corrigiu a parte sobre exercícios, mas da última vez que vi estava zoado demais pra ser linkado.
Comment by Leonardo Boiko — 2008-01-03 22:04:18
a depressão é uma doença mental complicada e infelizmente à pessoas que sensuram, mas não sabem que é um sofrimento muito grande
Comment by Maria natividade Martins — 2008-01-23 13:25:37
seu texto é muito interessante, tenho uma pergunta pra te fazer voce acha que adepressão tem cura
Comment by fabiola — 2008-02-08 16:32:20
Depressão-a-doença tem cura, sim. As caixinhas ali em cima servem pra isso.
Agora, as condições que causam depressão já são outros quinhentos…
Comment by leoboiko — 2008-02-18 20:04:04