Um pouquinho de veneno
“Nós romantizamos a metrópole enegrecida”, diz Raimi, o protagonista programador de Broken Saints:
Por um momento, os escritórios e apartamentos de caixa de sapato deixam de parecer dentes quebrados à beira da podridão. Esquecemos que eles se alinham em uma boca que tem fome; passamos a vê-los como outra coisa.
Eu começo a entender por que eles fazem fazem isso — eles precisam; ninguém conseguiria suportar tudo isso de outra forma — eles têm que ver um propósito na massa amorfa de feiúra, têm que encarar toda a violência e mau gosto como um desafio, um exercício, uma prova de masculinidade — como se fossem obstáculos propositais e não pura estupidez — não é que eles sejam indiferentes às péssimas condições de vida, à poluição desumana, ao ruído onipresente estuprando nossos tímpanos dia e noite — eles têm orgulho de tudo isso, da mesma maneira estúpida que um gordão que nunca fez exercícios tem orgulho do número de dobras de banha em sua pança — o ônibus se aproxima da cidade acompanhando a lama gordurosa do Tietê, o ar dá nós múltiplos em meu estômago como ele sempre faz, eu me perguntando mais uma vez o que estou fazendo aqui, como posso sair daqui, faça-eles-pararem-por-favor — o sol nasce sobre a viscosidade negra pintando a fumaça de laranja, e não consigo deixar de evitar a impressão que estou em Oil Ocean Zone — então uma fase de fim de jogo é assim?
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