2008-01-03

Emo

1.

You label me, I label you
—Metallica, “The Unforgiven”

Uns tempos atrás eu estava andando perto do shopping Estação, em Curitiba, quando um carinha com roupas de mano apareceu do nada e berrou a poucos centímetros do meu rosto: eemooooo do caraaalhoooo! Eu fiquei sem ação. Tinha saído de casa sem pensar, com a roupa do corpo, e parei para avaliar minha aparência: cabelo descolorido amarelão, camiseta branca sem estampa, calça preta esportiva, tênis all-star, mochila simples sem chaveiros ou penduricalhos exceto um único bottom (do Gamer’s Quarter), e acompanhado de mulher e filha. Só isso já é suficiente para ser chamado de emo esses dias? Por outro lado, eu estava deprimido e bêbado, então talvez ele tenha, sei lá, sentido cheiro de emo ou coisa assim. Espero que ninguém queira me espancar na rua.

Um amigo no interior estava especulando se eu não fui de alguma forma a origem dos emos na cidade: “poxa, você já estava triste, de preto e cabelo no olho muito antes dessa moda existir!” É verdade que desde criança lido com melancolia, ansiedade social e isolamento, que usava roupa preta, pintava o cabelo, e que curtia franja no olho desde quando joguei Kid Icarus pela primeira vez e minha mãe disse que eu não podia ter o cabelo daquele jeito; mas nunca me identifiquei com a cena emo que emergiu nos últimos anos. Pra começo de conversa já era velho demais. Além disso, não gosto das músicas: passei a adolescência inteira grudado em Metallica e Iron e Sepultura, o que estragou meu gosto para formas mais modernas de rock. Quando ouço algo como My Chemical Romance, meu cérebro taxa de “musiquinha” e perde o interesse instantaneamente. E nunca fiz nenhum esforço consciente para seguir esta ou aquela moda. Mas não importa o quanto eu não me interesse por coisas emo, aparentemente sou emo de qualquer jeito; e isso é um xingamento, porque emos são coisas para se odiar.

2.

So you lay us in a line
Push your pins, they make us humble
Only you can tell in time
If we’ll fall or merely stumble

— Metallica, “Fixxxer”

No topo do meu perfil do Orkut eu digo que não respondo scraps que não sejam escritos em português decente, e usei o miguxês como mau exemplo. Alguns questionaram meu alinhamento lingüístico por isso, mas não tem nada a ver: como lingüista, reconheço que não existe uma gramática, uma variação “certa” do português, e que o estudo da língua não pode ser contaminado por critérios estéticos e subjetivos; como pessoa, tenho o direito de achar certas variações esteticamente desagradáveis. Eu não gosto de música emo, eu não gosto do miguxês, e eu acho a moda emo muito massificada; mas eu não odeio emos. Na minha opinião odiar um grupo é uma atitude muito forte. Como nerd, como cara sensível (aka fresco), como anticristão e como bissexual, eu sei como é ser um adolescente que pertence a grupos minoritários, e penso duas vezes antes de declarar ódio a alguém só porque não gosto de uma moda.

Assim, fiquei um pouco chocado ao ver a extensão e aceitação do ódio aos emos. Curiosamente, o conceito de emo surgiu como algo a ser odiado, e não algo com que se identificar; aqueles que foram taxados de emo se apropriaram do termo e passaram a celebrá-lo, assim como os neopagãos e os homossexuais. Eu, hm, conheço uns carinhas que se consideram emos, e acho interessante a história do surgimento dessa subcultura. A primeira coisa a se entender sobre emos é que eles são adolescentes buscando tribo. Eu vou tentar listar de cabeça alguns itens associados à moda:

  1. Franja no olho
  2. Cabelo colorido
  3. Bottons
  4. All-star
  5. Moda retrô; em especial os anos 20, 40, 60, 70 e 80
  6. Valorização da cultura pop (Chaves, desenhos antigos, publicidade icônica)
  7. “Modelo de fotolog”: fotos preto-e-brancas, olhares dramáticos etc
  8. Valorização da androginia
  9. Aceitação aberta de homo- e bissexualidade
  10. Visual gótico: ênfase no preto, roxo e vermelho, acessórios mórbidos de filmes B, maquiagem pesada
  11. Celebração do bonitinho, do fofo, inclusive entre homens (Hello Kitty, Mokona, Sakura)

Os itens de 1 a 9 os emos absorveram de um grupo adulto heterogêneo, mas facilmente identificável: fãs de indie rock, estudantes de cinema, teatro, artes plásticas, beatniks mortos-vivos, o que sobrou dos mods e certos punks descolados, enfim, toda essa gente que um colega do interior descreveu como “aqueles carinhas que usam boina e tocam bongô no desenho do Pateta”. O elemento comum entre esses grupos é a rejeição do modelo vestibular-trabalho-casa-carro, e meu palpite é que os emos tenham emulado a aparência deles por se identificarem com essa rejeição.

Os outros itens são mestiçagem tribal. Como adolescentes não-normais, muitos emos também têm envolvimento com fãs de rock e de animê, de onde vieram os costumes 10 e 11 (prova disso é que os elementos góticos seguem a moda “dungeon” do Judas Priest que virou padrão em lojas de rock, e as coisas fofas sempre puxam pro kawaii japonês).

Vamos brincar de estereótipo para entender como o emo surgiu. Você tem esse adolescente que não se encaixa: ele não gosta de sufocar e esconder os sentimentos, ou não quer trabalhar e ficar rico, ou está começando a sentir atrações sexuais que todos ridicularizam; de toda forma ele quer algo “diferente”, embora não saiba exatamente o quê. Ele começa a combinar superficialmente o visual dos tocadores de bongô do Pateta, que não entende mas admira, com os grupos de fronteira do seu mundo — rock, RPG, quadrinhos. Ele começa a dar vazão ao que sente em fotologs de celular e blogs de poesia ruim, e logo ele descobre as bandas de rock “introvertido” e se apaixona.

Aí os colegas de sala desenterram um termo punk obscuro da década de XX e começam a chamar os caras que ouvem essas músicas de “emos”. Assim como “direita”, “emo” no sentido moderno surgiu como ofensa. Porém, o próprio ato de nomear o grupo (mesmo que para xingá-lo) deu coesão a ele, e os rapazes emotivos passaram a se chamar alegremente de emos. Ou tristemente, sei lá.

3.

Good morning, Worm, your honor
The crown will plainly show
that the prisioner who now stands before you
was caught red-handed showing feelings—
showing feelings of an almost human nature!
This will not do.

Pink Floyd, “The Trial”

Até agora o post inteiro está no masculino, de propósito. Se você prestar atenção no ódio aos emos, verá que ele quase nunca faz referência às emas. Tirando a ocasional reclamação do miguxês e uma ou outra acusação de camwhoring, os grupos no orkut, as páginas da desciclopédia e as animaçõeszinhas flash glorificando intolerância são todas focadas em emos homens. Este fato é a chave para a questão de por quê emos são tão odiados. Vejamos as acusações mais comuns:

  • Emos são frescos. São playboyzinhos que têm tudo e ainda ficam reclamando da vida. Eles deveriam ser homens e parar de chorar.
  • Emos se acham, querem chamar a atenção.
  • Emos são gays.

O primeiro item é machismo. Minhas amigas feministas me olham torto quando eu digo que nós homens sofremos com o machismo tanto quanto as mulheres, mas o ódio aos emos é um bom exemplo do que estou falando. O machismo não diz só como as mulheres devem viver; ele quer podar a vida masculina, também. Até bem pouco atrás homem não podia cozinhar ou fazer tarefas domésticas, e ainda hoje interesse por arte é considerado não masculino (é proibido ao homem usar a palavra “bonito”, por exemplo; o mais próximo que se pode chegar é “legal”, “interessante”). E homens são terminantemente proibidos de demonstrar sentimentos, exceto raiva e uma certa satisfação estoicamente contida. Homens que falam de seus problemas emocionais devem ser odiados como fracos.

O segundo item é o preconceito com o que é diferente, e funciona precisamente da mesma forma que o ódio aos nerds: as pessoas que se forçaram a ser normais para poder fazer parte de um grupo validam sua normalidade para si mesmos atacando quem não se encaixa nele.

O terceiro item é homofobia pura e simples. Emos são acusados de serem gays o tempo todo, como se ser gay fosse um defeito. E, claro, as piadinhas sempre são daquelas que vão reforçando o estereótipo do homossexual como efeminado.

Eu não tenho nada contra emos, mas tudo contra odiadores de emos: o ódio aos emos não é nada mais do que a nova desculpa sociamente aceitável para ser machista, preconceituoso e homofóbico, e emo ou não emo eu já sofri demais com essas formas de ignorância.

2 comments

  1. [...] lidar com minhas dores mais profundas e aparece alguém pra me chamar (anonimamente) de poser ou emo ou equivalente. Não tenho nenhuma teoria sobre por que diabos as pessoas fazem isso, exceto, [...]

    Pingback by Diário de Leonardo Boiko2008-01-03 14:06:15

  2. Para mim essa “emofobia” sempre foi homofobia e machismo disfarçados. Mas ultimamente tenho achado que pode ser stress acumulado por causa de sexualidade reprimida. :-)

    Comment by Felipe2008-01-03 15:15:27

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