2008-10-21

25

Then one day you say the wrong thing to the wrong person and bam!, you’re fired
and forgotten,
with barely a word of goodbye from Maya,
blown by the wind in the streets
with the waves of other discarded bourgeois youth,
we the losers.

The machine hungers for new blood.


A quarter century, and back to the starting point. Not much to show for all the trouble — a couple babies, a resume full of too-short jobs, a few boxes of the antidepressants I now can’t afford, too many books, too much debt. But it doesn’t matter. In the town nothing’s real except the town. It’s morning and grandma is baking me cake.

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2008-10-08

hm, qual será que eu compro?

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2008-10-04

guest badge

We wanderers are protected by Kron, god of change. If we stay too much time in the same place, Kron will send powerful winds to blow us all the way back. That’s a reminder of our eternal destiny as wanderers.

(A wanderer from Fuurai no Shiren, SNES)

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2008-09-29

a cup

my wrt54g-tm running openwrt

one of my daughter's toys

man I just love Colors for the Nintendo DS :D

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2008-09-24

baby at home

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2008-09-23

The secret of productivity

calvin & hobbes parody

Found in 4chan, unknown source.

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2008-09-21

The word “natural” has become overused to the point of losing its meaning. Nonetheless, I find myself surprisingly optimistic. It may be confirmation bias, but it appears to me the environmental movement is finally bearing fruit; after being politicized, absorbed by the amoeba of consumerism, given its own address in Babylon — no one noticed all the while it was spreading seeds; as the “movement” corpse fossilized, it gave birth to a thousand natural “lifestyles”.

People today are richer than ever, more knowledgeable than ever, more powerful than ever. It was to be expected for modern age to cause an explosion of consumerist excess. But now they finally appear to be finding that excess has a bitter aftertaste. Two generations ago, people wanted more money; today they want less work.

They say in Japan, a post-crisis advanced economy, cars have lost their meaning as markers of social status. Young people are not interested in cars; they find it’s a crude, troublesome gadget for outdated tastes. “Not prizing treasures difficult to obtain keeps people from committing theft” —not having an expensive car and mansion saves you the pain in the ass that are alarms and dogs and insurances and electric fences.

They say the USA are facing an unprecedented crisis of their own right now. Hopefully they’ll find the same solution.

Natural: eating when you’re hungry, sleeping when you’re sleepy. Finding the path of least resistance, like water: Slow life. Natural buildings. Bicycling instead of driving. Eating local food. Reusing electronic components, fetishizing outdated technology. Giving things instead of throwing away. Preserving local culture out of romantic nostalgia; local culture you did not grow up with because your parents were too busy being normal. Picking scraps of clothing and wood and furniture from the trash for your own creations. A return of the ethos of hospitality.

My utopia is a society where everyone is a hobbyist, a dabbler, where things like Wikipedia and Craft and Instructables are the new practical education — a society not of consumers, but of makers.

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2008-09-20

2008-09-20, outro sonho-filme completo:

Gordo, calvo, grisalho, ele era designer na área de publicidade. Trabalhava num escritório amplo, de paredes de vidro e vista para o mar. O sucesso da sua campanha do all-star listrado havia feito dele uma celebridade menor. Era por isso que o queriam morto.

O sol se punha quando os homens chegaram —ternos e gravatas e pistolas como colunas de preto contra um cenário tingido de bronze. O homem gordo não tinha idéia do que acontecia, e antes que pudesse perguntar levou o primeiro tiro. Nada aconteceu. Ele se viu com uma arma na mão e atirou nos invasores, também sem nenhum efeito. Era como se a causalidade tivesse quebrado.

Ninguém nunca reparou que o destaque de seus trabalhos era sempre o vermelho.

Lembrou de quando era criança, brincando sozinho na grama mais alta que sua cabeça, cada folha um nome e uma história — as tardes na biblioteca, o frenesi criativo do faz-de-conta — grama, dessa vez as colinas do campus, os outros estudantes com namoradas lindas, chopes, presilhas de morango — ele, tardes, noites, garimpo de traduções e tomos de tendências estéticas esquecidas nas estantes — o diploma em mãos: um longo pergaminho de críticas de professores em caligrafia medieval — “tem potencial, mas se distrai fácil” — “um brilho de talento, infelizmente sem dedicação” — “faltou todas as aulas, avaliação impossível” — Pedro, Maria, Paulo foram os nomes dos filhos, a esposa, a entrevista na empresa — toda noite a repulsa do si-mesmo tornado peão de jogos de dinheiro — projetos no lixo, campanhas de sucesso, o livro que nunca escreveu — uma súbita certeza de amor pelos filhos, um desejo de falar à esposa uma última vez, jantar a sós, taças de vinho, vermelho — o vinho era o próprio sangue, ele estava deitado em uma poça, e só então entendeu que tinha sido baleado e estava morrendo em flashback. “Digam…” — tentou falar mas as forças se esvaíam; os homens de terno se aproximaram pra ouvir, era sua última mensagem, “digam pra eles”, eles, a família, o trabalho, a faculdade, o mundo inteiro — “digam pra eles que vermelho é bonito”. E foi o que pensava quando morreu, admirando o sangue no chão. Fim.

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2008-09-19

Como falar como pirata?

Alguém precisa fazer um guia de como falar como um pirata em português. Se eu ainda estudasse letras ia propor isso como paper =)

Até onde sei, o Modern Pirate é derivado de jargão clássico de marinheiros, mais uma série de convenções fixadas por mídia popular — notoriamente Treasure Island, livro e filme. Portanto, a pesquisa seria de como marinheiros portugueses falavam, mais as traduções canônicas de filmes e livros de piratas. Isso pode ser difícil, tendo em vista as traduções porcas e horríveis como essa do virtualbooks.terra. Original:

‘This is a handy cove,’ says he, at length; ‘and a pleasant sittyated grog-shop. Much company, mate?’

My father told him no, very little company, the more was the pity.

‘Well, then,’ said he, ‘this is the berth for me. Here you matey,’ he cried to the man who trundled the barrow; ‘bring up alongside and help up my chest. I’ll stay here a bit,’ he continued. ‘I’m a plain man; rum and bacon and eggs is what I want, and that head up there for to watch ships off. What you mought call me? You mought call me captain. Oh, I see what you’re at—there;’ and he threw down three or four gold pieces on the threshold. ‘You can tell me when I’ve worked through that,’ says he, looking as fierce as a commander.

Tradução:

Disse rudemente ao estalajadeiro, meu pai, que lhe trouxesse um copo de rum, pediu notícias da freguesia, mandou em seguida o empregado levar-lhe a bagagem e atirou sobre a mesa três ou quatro moedas de ouro. Durante os dias seguintes, o Capitão - assim queria o estranho hóspede que lhe chamassem - […]

Jêsuis. SHOW DON’T TELL MOTHERFUCKER. Por que esses caras estão traduzindo e eu estou aqui programando? Depois reclamam que criança não lê —o pacing aventureiro do original foi arruinado nesta “adaptação”…

* * *

Por outro lado, esta história que o boto me passou sugere que talvez esforçar-se pra criar um Pirata Moderno seja inútil:

<glommer> boto, eu tive uma surpresa ontem
*** glommer está conhecido agora como SouthDog.
<boto> SouthDog: que surpresa?
<SouthDog> boto, falei pra filha do lucas, de 5
<SouthDog> "Amanhã é um dia que os adultos falam todos que nem pirata"
<SouthDog> sabe o que ela respondeu?
<boto> "ah, eu já sabia"
<SouthDog> melhor que isso
<SouthDog> ela respondeu
<SouthDog> "yaaarr!!!"
<boto> uau!
<boto> quem ensinou isso pra ela?
<SouthDog> cara, nem ideia
<SouthDog> aí logo em seguida ela perguntou:
<SouthDog> "Até minha professora vai falar assim?"

Com cinco anos o dispositivo de aquisição de linguagem ainda está ligado, então a menina vai falar “arrrr!” como nativa. Talvez o International Talk Like a Pirate Day acabe fazendo o português absorver as convenções do Modern Pirate inglês mesmo.

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2008-09-11

teologia estética

<leoboiko> http://www.abc.se/~m9783/naw/dkr_ei.html
<leoboiko> a reza pra perder 1000 pecados parece meio inútil, perto da
           outra pra perder todos os pecados
<leoboiko> tudo bem, ela é um pouquinho mais longa, mas a de 1000
           também tem que repetir 100 vezes.  acho que não vale a pena
<ehabkost_> talvez usar uma reza maior que necessário deixe allah
            irritado?
<ehabkost_> quero dizer, se você tem só 1000 pecados e fizer a reza
            para perder todos os pecados, acho que deve irritar allah
<leoboiko> mas é difícil saber quantos pecados exatamente você tem…
<leoboiko> a menos que tenha uma potion of enlightenment
<ehabkost_> se você não consegue cuidar dos seus pecados, é mais um
            motivo para deixar allah irritado
<ehabkost_> ei!
<ehabkost_> caralho
<ehabkost_> essa página é *séria*?
<leoboiko> parece
<leoboiko> mesmo que não seja, aposto 9 de 10 que são instruções do
           corão
<ehabkost_> eu achei que era explicitamente uma piada
<leoboiko> será que tem limite pras rezas das árvores?
<ehabkost_> peraí. você está falando de nethack ou do corão, agora?  :P
<leoboiko> se tem, todo muçulmano deve ter 11 árvores no céu
<leoboiko> se não, eu ia ficar rezando o dia inteiro pra ter um monte
           de florestas quando morrer
<leoboiko> …apesar de não saber pra que ia servir
<ehabkost_> pra que serve uma árvore no céu?
<ehabkost_> bah
<leoboiko> faz sentido que um povo do deserto tenha um deus que prometa
           palmeiras
<ehabkost_> hmm... é
<leoboiko> tupã: “reze pra mim e você ganha um coqueiro” índio: “bah”

<leoboiko> sharearam um negócio de videogame no meu reader
<leoboiko> brasileiro
<leoboiko> ad:
<leoboiko> “você sabe qual mensagem que Nossa Senhora deixou pra você?
           clique aqui para conhecer”
<leoboiko> twitter.com/maria?

<leoboiko> > "Todas as pessoas que usarem a Medalha receberão grandes
           graças, trazendo-a ao pescoço".
<leoboiko> > Estas foram as palavras de Nossa Senhora numa aparição a
           Santa Catarina Labouré, em 27 de novembro de 1830. E, a
           partir daí, milhões de pessoas no mundo inteiro passaram a
           receber graças através da Medalha Milagrosa.

<leoboiko> aaahn, _essa_ era a mensagem

<leoboiko> > A ADF é uma associação de fiéis, privada, sem fins
           lucrativos, que tem como missão fomentar a devoção a Nossa
           Senhora e difundir Seus apelos ao mundo.
<leoboiko> > Prencha o formulário abaixo e você receberá pelo correio,
           dentro de alguns dias, a sua Medalha (já benta por um
           sacerdote), junto com a Novena da Medalha Milagrosa para
           pedir as graças que necessita.
<leoboiko> > Você receberá também um convite para participar dessa
           divulgação através de doação espontânea que poderá ser feita
           através de boleto bancário (não se trata de cobrança) no
           valor de R$ 15,00.

<leoboiko> legal, já vem benta
<leoboiko> isso é outra coisa que eu prefiro muito mais os católicos
           que os evangélicos:
<leoboiko> os padres têm poderes especiais
<leoboiko> os pastores não fazem nada de mais
<leoboiko> mas os padres, só por serem ordenados sacerdotes pela Igreja
           (não por treinamento ou habilidade), podem fazer coisas como
           transformar itens comuns em bentos, vinho em sangue, unir
           casais perante Deus, des-paganizar bebês, nulificar pecados,
           etc.
<ehabkost_> por que prefere isso?
<ehabkost_> quero dizer, se é mentira mas pessoas levam a sério, acho
            uma merda
<leoboiko> é mais interessante
<leoboiko> idealmente eu preferia um mundo de ateus
<leoboiko> mas se for pra escolher entre um mundo de pessoas que
           acreditam em estátuas mágicas e rezas milagrosas ou um mundo
           de pessoas que acreditam na força da humildade e do trabalho
           duro, escolho o primeiro
<leoboiko> tudo bem, nem os evangélicos conseguem ficar muito tempo
           longe da magia
<leoboiko> mas eles são muito iniciantes.  quando vão fazer magia fazem
           de um jeito grosseiro, povão
<leoboiko> os católicos têm latim e vitrais e incensos e rituais de
           exorcismo e cânticos gregorianos.  a arte deles é melhor.
<leoboiko> por exemplo, imagine trocar o padre do filme do zé do caixão
           por um pastor
<leoboiko> ou o delegado católico “eu sou idólatra mesmo” por um
           delegado evangélico
<leoboiko> é mais legal lutar contra um inimigo mais interessante
<ehabkost_> então, acho isso legal só quando é arte
<ehabkost_> quando levam a sério deixa de ser arte, aí eu não gosto
<leoboiko> o que estou dizendo é que imho jeito que padre engana o
           povo > jeito que pastor engana o povo
<leoboiko> se tivesse, por exemplo, igrejas wiccas, eu acharia as
           igrejas wiccas mais legais que as católicas
<leoboiko> meu ranking de mentiras seria aproximadamente
           {neo-pagãos,ocultistas,independentes} > cultos tribais e
           pagãos (de verdade) > hindus > cristãos ortodoxos > cristãos
           católicos > cristãos protestantes > muçulmanos
<ehabkost_> então, eu acho que eu gosto menos dos ortodoxos justamente
            porque levam a ficção deles ainda mais a sério
<leoboiko> eu acho que isso torna eles mais interessantes
<ehabkost_> interessantes de olhar, só
<ehabkost_> mas não pra conviver
<leoboiko> evangélicos são CHATOS
<leoboiko> são agentes do chato chateando o mundo
<leoboiko> por isso que quero ter muitos filhos
<leoboiko> não dá pra diminuir a quantidade de pessoas chatas, então
           quero aumentar a quantidade de pessoas não-chatas

(editado saudavelmente)

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2008-09-08

praised be Allah who put two sides in my head

I hate computers. I will sell my computer and buy a guitar. I’m getting outa this bland purgatorium of a city this week and I will be back to the study of art and literature and comic books. I will be a scholar and travel the world and buy a house in Kyōto and have ten boyfriends and ten girlfriends of all colors and sizes and tongues. I will sow the seed of dissent right in the middle of society and watch smiling as my cute spawn disrupts patriarchy from the inside.

I am 0% Pill Leoboiko, and am about to stop existing.

I become fully manifested two or three days after my body goes clean of antidepressants. Once the harshest pains of withdrawal are appeased - once the dizziness and nausea and brain jolts are tolerable enough for me to think - I wake up and look around, take a deep breath and shake my wings only to find I no longer have any. Then I’m overwhelmed by despair so strong I can’t even go through the motions of the basest vital needs, say feeding or getting up. They call it “depression”, this glass cage, this chained blood –I call it insight. I call it reality. I cannot handle it at all.

So I suicide softly with the magic potions, and suddenly the pain is gone and a strange spirit possess this abandoned body. I call him, I call this entity the 100% Pill Leoboiko. 100% Pill Leoboiko doesn’t care much about love or sex or the madness and beauty of art and life, and while he’s not exactly content with selling himself to the corporate religion he’s at least resigned –“have to do it for my family”, he says (myself, I’d be ashamed of presenting such a boring failure of a figure as the model of a family). He’s not “happy” (if such a thing even exists), but he kind of enjoy going home after a day of hard work and watch in silent contemplation as time drips by.

* * *

If I close my eyes, even for minutes, the night-mares catch up with me, rendering me terrified and paralysed and hallucinating alone in the dark.

The Other has no such problems. He’s unable to dream.

* * *

I’m throwing the drugs away, I’m thinking of myself now, I’m taking my life back. Only I’m not, of course. I feel too old to even fantasize about that —thirty years aged in two —I’m swallowing my dearest serotonin-norepinephrine reuptake inhibitor this very moment. There, good boy, well-behaved boy. I’ll be gone in a few minutes now. Hope you do well, Other; as a last jest, this clown sings for you to remember that—

if the dam breaks open many years too soon
and if there is no room upon the hill
and if your head explodes with dark forebodings too
I’ll see you in the dark side of the moon

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2008-09-02

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2008-08-23

Visiting the Museum

  • I can’t stand the “look but don’t touch” feel of the Western art tradition. I mean, I really can’t stand it. My æsthetic tastes were formed by the tea ceremony, which like the West features deep respect for beautiful objects — but where Western art expresses that respect by isolating the pieces behind a dozen “keep distance” signs, Japanese art was made to be manipulated, interacted, passed from hand to hand, exalted by the human touch instead of by its avoidance — when I visit a museum I find the aura of sanctity to be unbearable, like if I was a pig in a church.

    I just went to an exhibition where the artist made a room wholly in red — walls, furniture, lamps, everything. It had a cozy feeling to it, like if one had just entered James Bond’s bedroom right in the middle of a spy-movie opening. Forgetting the chains and warnings of the Museum for a moment, me and my daughter promptly proceeded to try out red hats and glasses and sit in red sofas, only to be politely but firmly told not to touch anything. What’s the point?

    (Side note: The artist put a Brazilian Hermes Lettera portable typewriter in there, but she didn’t notice the Lettera is not really red —it’s orangeish. That’s why I spray-painted mine 8)

  • When Andy placed commercial, mass-produced designs right in the middle of the Museum’s holy ground, it was shocking and innovative because it went counter to what everyone believed art to be back then. In the sixties. Since then, pasting a logo a hundred times is not shocking nor innovative anymore. Seriously, guys, stop. Think of something yourselves.

    It’s ironic that pop-art backfired: in its attempt to take Real Art down from the pedestal, it ended up there herself — and now chocolate wrapping paper is raised to the realm of elitism by painters who can’t draw, while the bourgeois middle-class audience either pretend there’s some mysterious meaning to it or whines that “my son could do better”. The beast is tamed; pop is unpopped.

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2008-08-19

Silogismo

Quando dizemos pra nossa filha que uma imagem é de um “cavalo”, ela entende “cabelo” e passa a mão no próprio.

Tentando associar as figuras do livro de bichos com o que ela conhece, a mãe disse que zebra é um cavalo.

Agora, toda vez que ela abre o livro na página da zebra, ela passa a mão no cabelo.

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Perguntas muito, muito freqüentes sobre homeschooling

“A coisa mais importante para um professor saber (que eu não vi mencionada em nenhuma escola de educação que conheça) pode ser resumida em duas frases: Aprender não é a conseqüência de ser ensinado. Aprender é a conseqüência das ações de quem aprende.” (John Holt)

Recentemente teve um barulhinho na oldmedia sobre uma família de Minas Gerais que optou pelo homeschooling. Os pais vão ter que pagar multa e podem perder a guarda dos filhos. Nas discussões pela net as mesmas objeções velhas e cansadas continuam aparecendo. Por coincidência, final de semana passado eu e minha esposa tivemos um argumento deveras acalorado com um casal amigo que questionava a eficácia do homeschooling, e eu me peguei explicando as mesmas coisas mais uma vez: socialização, responsabilidade, limites. Antes eu tinha pensado que fazer um post sobre isso era chover no molhado, já que tudo já está muito bem explicado em um monte de lugares, mas mudei de idéia — talvez seja bom se repetir, afinal; pelo jeito a exposição no Brasil anda fraca. Tão vamos lá.

“Na vida a gente tem que conviver com gente que não gosta. Por isso, socialização forçada é uma necessidade.”

Concordo com a premissa, discordo com a conclusão. Em primeiro lugar porque é mentira: temos estudos que mostram que crianças educadas em casa são até melhor adaptadas socialmente que as forçadas (o que fará sentido imediatamente pra qualquer um que tenha sofrido bullying).

Mesmo ignorando os resultados e argumentando de forma puramente filosófica, é impossível não se socializar. Educação em casa não significa viver numa bolha dentro de casa. A criança que não é socializada à força ainda tem que conviver com outras crianças e amigos e inimigos e gente diferente e grupos de estudo e professores do mesmo jeito, no curso de natação e na vizinhança e na lanhouse e, de fato, em todo e qualquer lugar. A única diferença é que essas crianças têm escolha — se elas não gostam de um grupo, podem optar por sair dele, exatamente como eu e você podemos. Portões com cadeados são resquícios da era vitoriana.

“Eu confio mais em professores para ensinar do que em mim mesmo.”

Concordo plenamente. Sou um grande admirador de professores, não só os do tipo escolar como os que a sociedade não reconhece como “ensinadores”, e não tenho o menor receio de contratar bons profissionais para meus filhos — profissionais que eles ajudem a escolher, claro, para ensinar os assuntos que eles se interessarem.

Se eu rejeito a Escola com E maiúsculo não é porque eu confio mais em mim que nos professores; é porque confio mais nos meus filhos para decidirem o que estudar do que no Estado. Aliás eu confio mais neles que em qualquer pessoa, mas especialmente mais que no Estado.

“Mas as crianças vão ficar brincando o dia inteiro e não vão aprender matemática e física e outras coisas chatas!”

Ótimo! Elas têm plena capacidade de entender que precisam saber esses assuntos se quiserem ganhar os bilhetes mágicos que a sociedade exige pra provar que você é capaz de fazer qualquer coisa. Quando sentirem necessidade podem aprender por iniciativa própria. Eu mesmo fiz isso — o ensino público falhou totalmente pra mim, e eu aprendi química, física etc. lendo livros em casa uns seis meses antes do vestibular.

“Não dá pra fazer tudo que as crianças querem, o mundo não gira em torno delas.”

Não estamos falando de nós fazermos o que as crianças querem, estamos falando de elas viverem como querem. Eu faço o que eu quero; por acaso o mundo gira em torno de mim?

Ao contrário do que o Paulo Coelho diz, o universo não está nem aí pra gente e um monte de coisas que a gente quer não dá certo. Em qualquer lugar. Não é preciso criar mais dificuldades artificiais pra ensinar isso — essa é outra lição que é impossível não aprender.

Não sou pai superprotetor — pelo contrário, sou um grande adepto da filosofia “criança tem é que se ferrar”, mais do que quase todos os pais que conheço. Mas criança tem que se ferrar com as conseqüência das escolhas dela, pelo livre-arbítrio dela, não por uma decisão dúbia do Estado. Em todas as discussões periódicas de homeschooling, os caras ignoram as crianças completamente; em todas as reportagens que li sobre o caso dos Nunes acima, ninguém, ninguém perguntou pros piás em questão o que eles achavam de estudar em casa.

Homeschooling pra mim é uma conseqüência natural de minha filosofia pedagógica fundamental, levar crianças a sério. Crianças são pessoas, não propriedade.

“Homeschooling é coisa de religioso que não quer que o filho aprenda evolução.”

É uma verdade triste que isso acontece muito (nos EUA especialmente), mas um filho que tenha pai religioso está fodido de todo jeito — se ele vai pra Escola, o pai simplesmente ensina criacionismo em casa. Mas perceba que eu estou com o outro campo que rejeita a Escola precisamente pelo motivo contrário — historicamente, a Escola é uma instituição moral e religiosa, e ainda hoje ela continua com essas tendências; a escola ensina ciência como se fosse uma religião — com uma figura de autoridade imposta medindo os alunos com números e marcando suas respostas como certas ou erradas, é impossível aprender que ciência é questionamento. Ciência é derrubar autoridade, e Escola é autoritarismo. A Escola se foca tanto no modelo das notas que não pode explicar como a ciência é feita de dúvidas e desafios, como cada “resposta certa” que está nos livros é só um consenso geral que ainda é contestado por muitos, como praticamente cada linha do livro de história tem um debate interessante e animado acontecendo neste exato momento sobre ela. Ciência é um processo e eles ensinam dados; ciência é pescar e eles dão o peixe.

“Eu não tenho condições de ficar com meu filho em casa, nem mesmo meio-período.”

Aí está um argumento que eu respeito. Recentemente, nos EUA, fizeram um experimento em que mudaram o horário de entrada de uma Escola das 8:00 para as 10:00. Como resultado, os alunos da Escola inteira — tanto os “bons” quanto os “bagunceiros” — melhoraram imediatamente as notas e a presença. O que é bastante óbvio se você pensar a respeito.

Se um horário mais humano faz as pessoas estudarem melhor, por que as Escolas todas não abrem às dez? Simples: porque a Escola é uma creche. É um local fechado e (mais ou menos) seguro pra trancar os filhos enquanto os pais trabalham. O problema é que ficam divinizando a Escola, fazendo de conta que é uma instituição de conhecimento, com todo mundo fingindo que aprende dados enciclopédicos e esquecendo tudo no primeiro mês de férias. Não é à tôa que as crianças fazem os trabalhos colando coisas da Wikipedia — qualquer trabalho que possa ser colado da Wikipedia é um trabalho que não vale a pena fazer em primeiro lugar. Respeito quem admite que a Escola é uma creche.

Mas tem alguns problemas. O primeiro é que a Escola é uma creche ruim, na qual o controle social é exercido pelo grupo — os que se sobressaem são martelados. Isso é exatamente o oposto do que quero pros meus filhos. Outro problema é que, no Brasil, uma Escola de boa qualidade custa o mesmo que um dos pais receberia por um emprego de meio-período, assumindo que tenha diploma. E outro — meus amigos mais progressistas vão me chamar de reacionário por isso, mas enfim — eu não acho que seja uma boa idéia criar filhos com os dois pais fora o dia inteiro. Pessoalmente, acho que se ambos querem trabalhar oito horas, é melhor deixar a decisão de ter uma criança para depois, com Escola ou sem.

(E antes que me chamem de machista também, adianto que adoraria que fosse eu o pai que vai ficar em casa com os filhos — nós só não vamos fazer isso por causa da grana; infelizmente sou o pai que a sociedade paga mais. Ainda assim quero participar da vida deles tanto quanto for possível, e estou mexendo meus pauzinhos para isso.)

“Homeschooling é contra a lei no Brasil.”

E por isso vamos nos mudar para fora, onde meus filhos têm o direito de gastar o próprio tempo da forma que acharem melhor.

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