Meus objetivos como pai
Se você quer ser um ladrão, seja um ladrão bom.
— ditado japonês
Eu vivo dizendo que gostaria de ter filhos porque tenho certos planos para a educação deles, ou que estou feliz porque minha esposa compartilha de minha abordagem pedagógica. Acho que está na hora de explicar o que exatamente são esses planos, essa abordagem. Aí vão alguns pontos que considero importantes, sem nenhuma ordenação em particular.
[Nota em maio de 2009: Este post foi escrito quando o blog tinha comentários, e num tom provocante de propósito pra ver o que o pessoal comentava se eu atacasse frontalmente ídolos como “professores” e “educação”. Qualquer dia faço uma versão mais neutra.]
A língua portuguesa é estúpida por chamar um progenitor indefinido de “pai”; no texto abaixo, “pai” quer dizer “pai ou mãe”, e “filho”, “filho ou filha”.
Nietzsche dizia que, quando pensamos na evolução da humanidade, temos que pensar antes de mais nada para onde queremos que ela evolua. Alas, pessoas diferentes têm esperanças diferentes para a espécie. Há quem sonhe com um paraíso rural de paz e tranqüilidade, sem dificuldades e sofrimentos; esse é precisamente o o oposto do meu objetivo. Eu quero seres humanos grandes; quero gente ambiciosa, com vontade de entender a natureza, explorar o universo, criar grandes obras. Meu ideal é Leonardo da Vinci, e portanto meu ambiente ideal é a Florença do século XV. Grandes criadores não são necessariamente felizes: muitos se matam, têm problemas mentais ou dificuldades pessoais por toda a vida. Mesmo assim, uma vida criativa e atribulada é melhor que uma vida pacata e medíocre.
Assim como na questão da evolução da humanidade, na pedagogia também precisamos, antes de qualquer coisa, perguntar: educar as crianças para quê? Alas, pessoas diferentes têm esperanças diferentes para os filhos. Há quem sonhe com crianças obedientes e comportadas, que tragam paz e tranqüilidade para os pais e professores, e que cresçam para se tornar pessoas decentes, honestas, trabalhadores esforçados. Esse objetivo é precisamente o oposto do meu, e se minha filha crescer assim vou me considerar um fracasso como pai. Eu quero filhos fortes e ambiciosos, independentes e criativos, que me digam “não” e questionem os professores, que encontrem seu rumo na vida sem se deixar levar pela opinião dos outros.
A educação deve ser subversiva e crítica.
Como eu quero filhos desobedientes e autônomos, e quase todo material dito “educativo” educa para obediência e passividade, esse material é prejudicial para meus objetivos — e o mais prejudicial de todos os ambientes é a Escola.
A maior inspiração para meu ideal de pai é o deus cristão. O deus cristão, além de criador, é chamado de pai da humanidade, e por isso os cristãos se chamam irmãos. Como pai, o deus cristão é possessivo, invejoso, ciumento e arbitrariamente autoritário. Ele ordena que os filhos façam coisas absurdas como matar o próprio filho, e os recompensa por seguirem suas ordens sem questionar; assim, o deus cristão ensina que a responsabilidade moral não cabe ao indivíduo, e existe apenas por imposição dos superiores. O deus cristão espera que os filhos vivam eternamente como seus subordinados, e classificou aquele que ousou querer ser tão grande quanto o pai — Lúcifer — de vilão e traidor. O deus cristão testa a obediência de seus filhos de maneiras realmente sádicas, como colocar uma árvore no centro do paraíso apenas para mandar aos filhos que não comam dela.
Um bom pai é exatamente o oposto do pai cristão. Seu objetivo último é que os filhos saiam do ninho, que pensem por conta própria, que não precisem mais dele; um bom pai trabalha para ser inútil. Quanto mais cedo os pais se tornarem inúteis, melhor desempenharam seu papel.
O espadachim Musashi dizia: quando você mexer o pé, mexa o pé para cortar o inimigo; quando você erguer a mão, erga a mão para cortar o inimigo. Da mesma forma, tudo o que eu fizer com a minha filha manterá em vista o objetivo de me tornar inútil.
Crianças são pessoas. Devemos levar crianças a sério pelos mesmos motivos que levamos adultos a sério. Crianças têm menos inteligência e conhecimento que adultos, mas mesmo assim têm as suas próprias necessidades e vontades. Quando um adulto é menos inteligente e culto que nós, nós respeitamos a sua vontade do mesmo jeito, e quando um adulto mais inteligente e culto que nós nos desrespeita nós nos sentimos, com razão, injustiçados.
Vejo pais tratando crianças como se fossem objetos de sua propriedade; os amigos perguntam “quantos anos ele tem” e o pai diz “seis”, enquanto o filho fica como um boneco mudo observando a cena. Nós não tratamos adultos assim e não há nenhuma razão para tratarmos crianças.
Claro que uma criança não tem conhecimento sobre a conseqüência de seus atos, e é obrigação dos pais proibir autoritariamente qualquer ação potencialmente perigosa. Mas o uso de autoridade deve ser sempre considerado uma última alternativa, uma solução temporária para preservar a criança enquanto ela não sabe analisar o problema sozinha. Os pais que vejo por aí têm o threshold para perigo muito, muito baixo, ou até inexistente. Impedir o filho de brincar perto do poço é justificável. Impedir o filho de brincar na grama da praça, não. Impedir o filho de usar a roupa que ele quer simplesmente não faz sentido.
Quando é possível deixar que o filho se ferre, o filho deve se ferrar; isso o torna forte e ensina a lição. Quando a ação do filho não vai fazer mal a ninguém, ele deve ser deixado em paz. As sociedades tribais, orientais e antigas todas tinham muito mais paciência com crianças do que os pais de hoje, que parecem querer robozinhos inertes ao invés de filhotes.
O fundamento da civilização é o respeito à vontade dos outros, e se queremos que nossos filhos sejam civilizados, o primeiro passo é respeitar a vontade deles.
Pais são pessoas, e pessoas são imperfeitas. Exercer poder dá barato, e eu tenho certeza que, apesar de meus esforços, haverá dias em que vou descarregar minha frustração e raiva em minha filha.
Quando isso acontecer, vou me esforçar para pedir desculpas e admitir que estava errado assim que esfriar a cabeça. Mais importante, vou conversar sobre por quê minha atitude foi injusta. Como quando a figura do Rei deixou de ser divina, isso a incentivará a julgar as atitudes dos pais através da razão.
Sobre religião eu concordo com Dawkins, que ensinar religião às crianças constitui abuso infantil. Porém, não dá para simplesmente ensinar as crianças a serem ateístas. Crianças acreditam nos pais porque nos vêem como oniscientes; se ensinarmos para uma criança que deus não existe, ela vai acreditar que deus não existe, ao invés de concluir isso.
É impossível isolar as crianças do pensamento religioso porque, como Freud e Dawkins discutiram exaustivamente, o pensamento infantil é o pensamento religioso. O mundo da criança é governado por seres onipotentes, oniscientes, onipresentes, que dão ordens inescrutáveis e podem trazer tanto recompensas e tesouros quanto punição e sofrimento. Quando sua tia católica explicar o conceito de “pai do céu”, ele fará todo o sentido para uma criança. A idade de se tornar um ateu verdadeiro é a idade em que o filho compreende que o pai não é oni–coisa nenhuma, que é tão falível quanto ele próprio.
O que um pai ateu pode fazer para se precaver? Ensinar história da religião, e religião comparada. Mais de 90% dos religiosos seguem a religião de seus pais e/ou de seu país; ensinar que existe muita gente que pensa diferente é a melhor forma de combater esse bias ambiental. Quando minha filha perguntar a respeito, eu vou explicar que existem pessoas que acreditam em um deus pai, ou em uma deusa mãe, ou em vários deuses e deusas, ou em espíritos, magia etc., ou que não têm certeza de nada; vou pegar um globo e mostrar o território aproximado das principais religiões; vou explicar que muitas dessas pessoas dizem que você vai ser castigado se não acreditar no deus delas, e algumas até decidem nos castigar elas mesmas; e vou contar que muitas pessoas não acreditam em nenhum tipo de deus, e eu sou uma delas.
O importante do ateísmo não é o ateísmo, é o ceticismo; o ateísmo é só a conclusão lógica de se ter pensamento crítico. Por definição, é impossível forçar os outros a pensar criticamente, e portanto o ceticismo não tem convertidos. Mas ele tem inspiradores; eu me lembro de como me senti quando li Sagan pela primeira vez. Não posso forçar minha filha a pescar, mas posso levá-la para o pesque-pague, deixar vara e isca disponíveis, e pescar na sua frente para ela ver como é.
A única educação é educação por exemplo. Se eu quero que minha filha tenha uma vida independente, preciso em primeiro lugar ter uma vida independente; se quero que ela pense nela mesma, preciso pensar em mim mesmo. Se deixar de viver para garantir conforto material para ela, estarei ensinando que não há problema em vender sua alma por conforto material.
Ao contrário do que dizem, a Escola não é uma instituição de ensino. A Escola é uma creche; daí as faltas e as grades, antitéticas ao aprender. Se a Escola fosse uma instituição de ensino, ela teria turmas muito menores; é impossível ensinar adeqüadamente cinqüenta pessoas ao mesmo tempo. E se a Escola fosse uma instituição de ensino, ela ensinaria assuntos interessantes.
(Note-se como os cursos realmente enriquecedores em universidades decentes tipicamente ignoram as faltas, têm turmas pequenas, e são fascinantes.)
As únicas coisas importantes que se ensinam na Escola são ler e escrever (com isso não quero dizer “gramática”) e matemática básica; ainda assim, ensina-se (literalmente) ordens de magnitude mais lentamente do que um orientador de verdade poderia ensinar. Todo o resto é substituído com vantagens pelo estudo independente, autodidata, de bons livros (jamais “livros didáticos”!) e por atividades fisicamente estimulantes (ensinar biologia no bioma, química no laboratório, história em RPG). A educação em casa não é apenas muito superior à Escola: a educação na Escola nem mesmo conta como educação, é simplesmente encheção de lingüiça. Compare-se a maneira que Sócrates ensinava com a maneira que a Escola (des)ensina.
Quando trago o tema de educação em casa à tona, sempre dizem que a Escola é importante para a socialização. O maior de todos os fracassos da Escola é justamente a socialização. A pior forma de socializar uma criança é forçá-la a passar os dias com cinqüenta outras crianças, escolhidas sem nenhum critério, nervosamente sentadas fazendo de conta que aprendem coisas ignoráveis que ninguém queria aprender. A Escola é o grande massificador, o grande inibidor, a grande fábrica de preconceitos de nossa sociedade; nada cria tantos bloqueios e problemas mentais quanto a Escola; me dói o coração pensar em quanto tempo de juventude poderia ser gasto aprendendo e é escoado no ralo da Escola.
Socializar a criança se socializará de todo jeito, porque somos animais sociais; mas uma criança educada em casa se socializa da maneira decente, da maneira que adultos se socializam, ou seja, com interlocutores que ela escolheu — se quer aprender natação ela interage com crianças que querem aprender natação, se quer estudar inglês com estudantes de inglês. Qualquer adulto que tivesse que passar os dias em um ambiente como a Escola tomaria todas as medidas para sair de lá o quanto antes; as crianças vivem na Escola por puro abuso de poder.
Educar em casa é o ideal, mas infelizmente é proibido no Brasil porque o Brasil é um país retrógado e que não sabe questionar a utilidade das próprias leis. A menos que consiga mudar pro exterior em alguns anos (o que seria o dieal), vou ser obrigado a buscar uma Escola menos ruim, embora saiba de antemão que é uma busca quixotesca: na nossa sociedade, como Nietzsche previra, a educação se tornou utilitária, empreguista, e é considerada uma “boa” Escola aquela que treina e molda para o modelo vestibular-diploma-casa-carro. Até onde eu sei, não existe nenhuma Escola fundada no pensamento crítico — as Escolas ensinam as crianças que o conhecimento é um jogo no qual estar certo conta pontos e estar errado não, bem ao contrário do que o aprender realmente é (i.e. saber duvidar e mudar de opinião). Ao prender minha filha num desses inferninhos, vou manter sempre em mente que Escola deseduca, e que vou ter que gastar muito tempo desfazendo o mal que a Escola faz.
Uma criança que não quer fazer o dever de casa é uma criança inteligente. Uma criança que quer faltar aulas é uma criança inteligente. Uma criança que faz tudo o que mandam é uma criança mal-educada.
Durante quase toda a nossa existência como espécie fomos caçadores-coletores. A vida sedentária não é a vida para qual nossos corpos foram feitos. Nossa mente é constantemente recriada por nossos corpos, ou seja, nós somos nossos corpos; portanto, educação física tem uma importância muito maior do que lhe é dada. Mas educação física não significa, como se pensa por aqui, esportes; ter um corpo saudável é ortogonal a, e muito mais importante que, competição.
Metade de educação física é nutrição. Como a maioria das pessoas não procura comer bem, seus filhos não aprendem a comer bem. Minha filha comerá o que nós comemos; desde bebê, se nós comemos legumes lhe damos legumes, se comemos doces lhe damos doces. Como nós comemos bem, ela comerá bem.
Além de exercício — preferencialmente não competitivo, leve e constante — o passado dos seres humanos implica que o ambiente urbano é o ambiente errado para nós (qualquer um que já tenha feito mochilismo sabe do que estou falando). Minha filha vai acampar conosco assim que sair das fraldas. Alguns me sugeriram escotismo, mas vou mantê-la longe da organização dos escoteiros — machista, homofóbica, conformista e religiosamente preconceituosa.
Filhotes de animais caçadores brincam com fantasias violentas, e seres humanos não são exceção. Nossos avôs estouravam sapos, espancavam gatos e matavam passarinho; nossos filhos assistem desenhos e jogam videogames violentos. Não existe nenhum estudo que prove que essas fantasias tenham quaisquer efeitos a longo prazo, e os países mais civilizados e sem crime são os que menos censuram violência (como o Japão). Minha filha vai poder assistir filmes e ler quadrinhos cheios de sangue assim que tiver vontade. Isso é apenas uma conseqüência da regra geral: não existe uma boa razão para proibir, portanto não proíbo.
Quando notam como minha filha é bonita, muita gente diz com um sorrisinho irônico “nossa, vai dar trabalho para o pai”. Aparentemente eu deveria me orgulhar se meu filho arranjasse namoradas cedo ou em grande número, mas como ela nasceu menina eu devo me enraivecer se ela fizer o mesmo. Vão se foder, machistas.
A vida amorosa da minha filha diz respeito a ela e ela vai namorar, beijar e transar com quem ela bem entender. Ela vai ser educada sobre sexo seguro assim que perguntar a respeito, e tenho certeza que sua formação crítica lhe dará capacidade mental mais que suficiente para decidir por si mesma como e quando se envolver com outras pessoas.
A sociedade me diz que agora que tenho uma filha devo comprar uma casa e criar raízes. Até os 17 anos eu me mudei 16 vezes, e achei muito pouco. O mundo é muito grande e a vida muito curta. Agora que tenho uma filha, mais do que nunca quero mudar bastante para que ela possa conhecer diferentes ambientes.
Crianças não são como obras; elas não nos pertencem, não são feitas por nós, não espelham nossos desejos de como gostaríamos que fossem. Quem quer criar crianças como obras deve ir jogar Princess Maker, não ter filhos. Crianças são como plantas. Como jardineiros, podemos regá-las e protegê-las, podemos limpar o caminho para que cresçam para o lado de sua inclinação natural, mas não temos o direito de exigir que rosas sejam margaridas.
O modelo tradicional de educação é como aquele tipo de jardinagem que poda os arbustos, transformando-os em formas geométricas contidas. Acho isso de uma crueldade injustificável, seja com plantas ou com crianças.