2008-01-03

Meus objetivos como pai

Se você quer ser um ladrão, seja um ladrão bom.
— ditado japonês

Eu vivo dizendo que gostaria de ter filhos porque tenho certos planos para a educação deles, ou que estou feliz porque minha esposa compartilha de minha abordagem pedagógica. Acho que está na hora de explicar o que exatamente são esses planos, essa abordagem. Aí vão alguns pontos que considero importantes, sem nenhuma ordenação em particular.

A língua portuguesa é estúpida por chamar um progenitor indefinido de “pai”; no texto abaixo, “pai” quer dizer “pai ou mãe”, e “filho”, “filho ou filha”.

  1. Nietzsche dizia que, quando pensamos na evolução da humanidade, temos que pensar antes de mais nada para onde queremos que ela evolua. Alas, muitos de nós temos esperanças diferentes para a espécie. Há quem sonhe com um paraíso rural de paz e tranqüilidade, sem dificuldades e sofrimentos. Este objetivo é precisamente o oposto do meu. Eu quero seres humanos grandes; quero gente ambiciosa, com vontade de entender a natureza, explorar o universo e criar grandes obras. Meu ideal é Leonardo da Vinci, e portanto meu ambiente ideal é a Florença do século XV. Grandes criadores não são necessariamente felizes: muitos se matam, têm problemas mentais ou dificuldades pessoais por toda a vida. Mesmo assim, uma vida criativa e atribulada é melhor que uma vida pacata e medíocre.

    Assim como na questão da evolução da humanidade, na pedagogia também precisamos, antes de qualquer coisa, perguntar: educar as crianças para quê? Alas, muitos de nós temos esperanças diferentes para nossos filhos. Há quem sonhe com crianças obedientes e comportadas, que tragam paz e tranqüilidade para os pais e professores, e que cresçam para se tornar pessoas decentes, honestas, trabalhadores esforçados. Este objetivo é precisamente o oposto do meu, e se minha filha crescer assim vou me considerar um fracasso como pai. Eu quero filhos fortes e ambiciosos, independentes e criativos, que me digam “não” e questionem os professores, que encontrem seu rumo na vida sem se deixar levar pela opinião dos outros. A educação deve ser subversiva e crítica.

    Como eu quero filhos desobedientes e autônomos, e quase todo material dito “educativo” educa para obediência e passividade, esse material é prejudicial para meus objetivos — e o mais prejudicial de todos os ambientes é a Escola.

  2. A maior inspiração para meu ideal de pai é o deus cristão. O deus cristão, além de criador, é chamado de pai da humanidade, e por isso os cristãos se chamam irmãos. Como pai, o deus cristão é possessivo, invejoso, ciumento e arbitrariamente autoritário. Ele ordena que os filhos façam coisas absurdas como matar o próprio filho, e os recompensa por seguirem suas ordens sem questionar; assim, o deus cristão ensina que a responsabilidade moral não cabe ao indivíduo, e existe apenas por imposição dos superiores. O deus cristão espera que os filhos vivam eternamente como seus subordinados, e taxou aquele que ousou querer ser tão grande quanto o pai — Lúcifer — de vilão e traidor. O deus cristão testa a obediência de seus filhos de maneiras realmente sádicas, como colocar uma árvore no centro do paraíso apenas para mandar aos filhos que não comam dela.

    Um bom pai é exatamente o oposto do pai cristão. Seu objetivo último é que os filhos saiam do ninho, que pensem por conta própria, que não precisem mais dele; um bom pai trabalha para ser inútil. Quanto mais cedo os pais se tornarem inúteis, melhor desempenharam seu papel.

    O espadachim Musashi dizia: quando você mexer o pé, mexa o pé para cortar o inimigo; quando você erguer a mão, erga a mão para cortar o inimigo. Da mesma forma, tudo o que eu fizer com a minha filha manterá em vista o objetivo de me tornar inútil.

  3. Crianças são pessoas. Devemos levar crianças a sério pelo mesmo motivo que levamos adultos a sério. Crianças têm menos inteligência e conhecimento que adultos, mas mesmo assim têm as suas próprias necessidades e vontades. Quando um adulto é menos inteligente e culto que nós, nós respeitamos a sua vontade do mesmo jeito, e quando um adulto mais inteligente e culto que nós nos desrespeita nós nos sentimos, com razão, injustiçados.

    Vejo pais tratando crianças como se fossem objetos de sua propriedade; os amigos perguntam “quantos anos ele tem” e o pai diz “seis”, enquanto o filho fica como um boneco mudo observando a cena. Nós não tratamos adultos assim e não há nenhuma razão para tratarmos crianças.

    Claro que uma criança não tem conhecimento sobre a conseqüência de seus atos, e é obrigação dos pais proibir autoritariamente qualquer ação potencialmente perigosa. Mas o uso de autoridade deve ser sempre considerado uma última alternativa, uma solução temporária para preservar a criança enquanto ela não sabe analisar o problema sozinha. Os pais que vejo por aí têm o threshold para perigo muito, muito baixo, ou até inexistente. Impedir o filho de brincar perto do poço é justificável. Impedir o filho de brincar na grama da praça, não. Impedir o filho de usar a roupa que ele quer simplesmente não faz sentido.

    Quando é possível deixar que o filho se ferre, o filho deve se ferrar; isso o torna forte e ensina a lição. Quando a ação do filho não vai fazer mal a ninguém, ele deve ser deixado em paz. As sociedades tribais, orientais e antigas todas tinham muito mais paciência com crianças do que os pais de hoje, que parecem querer robozinhos inertes ao invés de filhotes.

    O fundamento da civilização é o respeito à vontade dos outros, e se queremos que nossos filhos sejam civilizados, o primeiro passo é respeitar a vontade deles.

  4. Pais são pessoas, e pessoas são imperfeitas. Exercer poder é prazeroso, e eu tenho certeza que, apesar de meus esforços, haverá dias em que vou descarregar minha frustração e raiva em minha filha.

    Quando isso acontecer, vou me esforçar para pedir desculpas e admitir que estava errado assim que esfriar a cabeça. Mais importante, vou conversar sobre por quê minha atitude foi injusta. Como quando a figura do Rei deixou de ser divina, isso a incentivará a julgar as atitudes dos pais através da razão.

  5. Sobre religião eu concordo com Dawkins, que ensinar religião às crianças constitui abuso infantil. Porém, não dá para simplesmente ensinar as crianças a serem ateístas. Crianças acreditam nos pais porque nos vêem como oniscientes; se ensinarmos para uma criança que deus não existe, ela vai acreditar que deus não existe, ao invés de concluir isso.

    É impossível isolar as crianças do pensamento religioso porque, como Freud e Dawkins discutiram exaustivamente, o pensamento infantil é o pensamento religioso. O mundo da criança é governado por seres onipotentes, oniscientes, onipresentes, que dão ordens inescrutáveis e podem trazer tanto recompensas e tesouros quanto punição e sofrimento. Quando sua tia católica explicar o conceito de “pai do céu”, ele fará todo o sentido para uma criança. A idade de se tornar um ateu verdadeiro é a idade em que o filho compreende que o pai não é oni–coisa nenhuma, que é tão falível quanto ele próprio.

    O que um pai ateu pode fazer para se precaver? Ensinar história da religião, e religião comparada. Mais de 90% dos religiosos seguem a religião de seus pais e/ou de seu país; ensinar que existe muita gente que pensa diferente é a melhor forma de combater esse bias ambiental. Quando minha filha perguntar a respeito, eu vou explicar que existem pessoas que acreditam em um deus pai, ou em uma deusa mãe, ou em vários deuses e deusas, ou em espíritos, magia etc., ou que não têm certeza de nada; vou pegar um globo e mostrar o território aproximado das principais religiões; vou explicar que muitas dessas pessoas dizem que você vai ser castigado se não acreditar no deus delas, e algumas até decidem nos castigar elas mesmas; e vou contar que muitas pessoas não acreditam em nenhum tipo de deus, e eu sou uma delas.

    O importante do ateísmo não é o ateísmo, é o ceticismo; o ateísmo é só a conclusão lógica de se ter pensamento crítico. Por definição, é impossível forçar os outros a pensar criticamente, e portanto o ceticismo não tem convertidos. Mas ele tem inspiradores; eu me lembro de como me senti quando li Sagan pela primeira vez. Não posso forçar minha filha a pescar, mas posso levá-la para o pesque-pague, deixar vara e isca disponíveis, e pescar na sua frente para ela ver como é.

  6. A única educação é educação por exemplo. Se eu quero que minha filha tenha uma vida independente, preciso em primeiro lugar ter uma vida independente; se quero que ela pense nela mesma, preciso pensar em mim mesmo. Se deixar de viver para garantir conforto material para ela, estarei ensinando que não há problema em vender sua alma por conforto material.

  7. Ao contrário do que dizem, a Escola não é uma instituição de ensino. A Escola é uma creche; daí as faltas e as grades, antitéticas ao aprender. Se a Escola fosse uma instituição de ensino, ela teria turmas muito menores; é impossível ensinar adeqüadamente cinqüenta pessoas ao mesmo tempo. E se a Escola fosse uma instituição de ensino, ela ensinaria assuntos interessantes.

    (Note-se como os cursos realmente enriquecedores em universidades decentes tipicamente ignoram as faltas, têm turmas pequenas, e são fascinantes.)

    As únicas coisas importantes que se ensinam na Escola são ler e escrever (com isso não quero dizer “gramática”) e matemática básica; ainda assim, ensina-se ordens de magnitude mais lentamente do que um orientador de verdade poderia ensinar. Todo o resto é substituído com vantagens pelo estudo independente, autodidata, de bons livros (jamais “livros didáticos”!) e por atividades fisicamente estimulantes (ensinar biologia no bioma, química no laboratório, história em RPG). A educação em casa não é apenas muito superior à Escola: a educação na Escola nem mesmo conta como educação, é simplesmente encheção de lingüiça. Compare-se a maneira que Sócrates ensinava com a maneira que a Escola (des)ensina.

    Quando trago o tema de educação em casa à tona, sempre dizem que a Escola é importante para a socialização. O maior de todos os fracassos da Escola é justamente a socialização. A pior forma de socializar uma criança é forçá-la a passar os dias com cinqüenta outras crianças, escolhidas sem nenhum critério, nervosamente sentadas fazendo de conta que aprendem coisas ignoráveis que ninguém queria aprender. A Escola é o grande massificador, o grande inibidor, a grande fábrica de preconceitos de nossa sociedade; nada cria tantos bloqueios e problemas mentais quanto a Escola; me dói o coração pensar em quanto tempo de juventude poderia ser gasto aprendendo e é escoado no ralo da Escola.

    Socializar a criança se socializará de todo jeito, porque somos animais sociais; mas uma criança educada em casa se socializa da maneira decente, da maneira que adultos se socializam, ou seja, com interlocutores que ela escolheu — se quer aprender natação ela interage com crianças que querem aprender natação, se quer estudar inglês com estudantes de inglês. Qualquer adulto que tivesse que passar os dias em um ambiente como a Escola tomaria todas as medidas para sair de lá o quanto antes; as crianças vivem na Escola por puro abuso de poder.

    Educar em casa é o ideal, mas é muito caro e infelizmente eu não tenho recursos para arcar com isso (pelo menos por enquanto). Vou ser obrigado a buscar uma Escola menos ruim, embora saiba de antemão que é uma busca quixotesca: na nossa sociedade, como Nietzsche previra, a educação se tornou utilitária, empreguista, e é considerada uma “boa” Escola aquela que treina e molda para o modelo vestibular-diploma-casa-carro. Até onde eu sei, não existe nenhuma Escola fundada no pensamento crítico — as Escolas ensinam as crianças que o conhecimento é um jogo no qual estar certo conta pontos e estar errado não, bem ao contrário do que o aprender realmente é (i.e. saber duvidar e mudar de opinião). Ao prender minha filha num desses inferninhos, vou manter sempre em mente que Escola deseduca, e que vou ter que gastar muito tempo desfazendo o mal que a Escola faz.

    Uma criança que não quer fazer o dever de casa é uma criança inteligente. Uma criança que quer faltar aulas é uma criança inteligente. Uma criança que faz tudo o que mandam é uma criança mal-educada.

  8. Durante quase toda a nossa existência como espécie fomos caçadores-coletores. A vida sedentária não é a vida para qual nossos corpos foram feitos. Nossa mente é constantemente recriada por nossos corpos, ou seja, nós somos nossos corpos; portanto, educação física tem uma importância muito maior do que lhe é dada. Mas educação física não significa, como se pensa por aqui, esportes; ter um corpo saudável é ortogonal a, e muito mais importante que, competição.

    Metade de educação física é nutrição. Como a maioria das pessoas não procura comer bem, seus filhos não aprendem a comer bem. Minha filha comerá o que nós comemos; desde bebê, se nós comemos legumes lhe damos legumes, se comemos doces lhe damos doces. Como nós comemos bem, ela comerá bem.

    Além de exercício — preferencialmente não competitivo, leve e constante — o passado dos seres humanos implica que o ambiente urbano é o ambiente errado para nós (qualquer um que já tenha feito mochilismo sabe do que estou falando). Minha filha vai acampar conosco assim que sair das fraldas. Alguns me sugeriram escotismo, mas vou mantê-la longe da organização dos escoteiros — machista, homofóbica, conformista e religiosamente preconceituosa.

    Filhotes de animais caçadores brincam com fantasias violentas, e seres humanos não são exceção. Nossos avôs estouravam sapos, espancavam gatos e matavam passarinho; nossos filhos assistem desenhos e jogam videogames violentos. Não existe nenhum estudo que prove que essas fantasias tenham quaisquer efeitos a longo prazo, e os países mais civilizados e sem crime são os que menos censuram violência (como o Japão). Minha filha vai poder assistir filmes e ler quadrinhos cheios de sangue assim que tiver vontade. Isso é apenas uma conseqüência da regra geral: não existe uma boa razão para proibir, portanto não proíbo.

  9. Quando notam como minha filha é bonita, muita gente diz com um sorrisinho irônico “nossa, vai dar trabalho para o pai”. Aparentemente eu deveria me orgulhar se meu filho arranjasse namoradas cedo ou em grande número, mas como ela nasceu menina eu devo me enraivecer se ela fizer o mesmo. Vão se foder, machistas.

    A vida amorosa da minha filha diz respeito a ela e ela vai namorar, beijar e transar com quem ela bem entender. Ela vai ser educada sobre sexo seguro assim que perguntar a respeito, e tenho certeza que sua formação crítica lhe dará capacidade mental mais que suficiente para decidir por si mesma como e quando se envolver com outras pessoas.

  10. A sociedade me diz que agora que tenho uma filha devo comprar uma casa e criar raízes. Até os 17 anos eu me mudei 16 vezes, e achei muito pouco. O mundo é muito grande e a vida muito curta. Agora que tenho uma filha, mais do que nunca quero mudar bastante para que ela possa conhecer diferentes ambientes.

  11. Crianças não são como obras; elas não nos pertencem, não são feitas por nós, não espelham nossos desejos de como gostaríamos que fossem. Quem quer criar crianças como obras deve ir jogar Princess Maker, não ter filhos. Crianças são como plantas. Como jardineiros, podemos regá-las e protegê-las, podemos limpar o caminho para que cresçam para o lado de sua inclinação natural, mas não temos o direito de exigir que rosas sejam margaridas.

    O modelo tradicional de educação é como aquele tipo de jardinagem que poda os arbustos, transformando-os em formas geométricas contidas. Acho isso de uma crueldade injustificável, seja com plantas ou com crianças.

11 comments

  1. muito bom o texto, confirma quase tudo que eu penso sobre educação. embora eu discorde de algumas partes (pessoas podem sim ser ambiciosas num ambiente bucólico), são mais ou menos essas as linhas gerais que eu vou adotar na educação das crianças que porventura venham a morar comigo um dia.

    sobre educação diferenciada, existem sim várias escolas que partilham de uma visão pedagógica mais libertária e aberta, nos moldes da escola da ponte de portugal, por exemplo. de cabeça eu só lembro de algumas em são paulo, vou pesquisar se existe alguma em BH. o problema é que a maioria delas são de educação pré-escolar

    abraços.

    Comentário de raphael — 2008-01-03 16:10:00

  2. Hum… mas espera aí…

    “A pior forma de socializar uma criança é forçá-la a passar os dias com cinqüenta outras crianças, escolhidas sem nenhum critério”

    “Qualquer adulto que tivesse que passar os dias em um ambiente como a Escola tomaria todas as medidas para sair de lá o quanto antes;”

    Isso se chama “Empresa”. E as crianças / adolecentes fazem o que durante a aula mesmo? Prestar atenção está lá pelo 2o ou 3o lugar…

    Infelizmente a vida é assim, e temos que nos relacionar com gente nada a ver conosco. Seja na empresa, na própria família, e mesmo nesses ambientes de interlocutores de interesses comuns como aula de inglês, etc. E vamos ser maltratados e maltratar, vamos nos desentender e vamos odiar aquele cara lá do canto. Mas também vamos fazer amizades, muitas vezes inesperadas, vamos conhecer novas idéias, etc

    Pessoalmente concordo que a socialização é muito melhor em ambientes de interesses comuns (como por exemplo, foi a universidade para mim)

    Quanto a parte de educação, é realmente complicado. As gerações passadas tiveram uma educação muito mais estúpida que a nossa, onde o importante era a decoreba e escrever bonitinho. E enfim, inventaram o rádio, a TV e mandaram o homem à lua na base da régua de cálculo (apesar de tudo).

    E infelizmente toda essa abobrinhada da escola tradicional é necessária para um negócio chamado vestibular (ou seus equivalentes internacionais). E mesmo estudando o que se quer, muitas vezes é necessário colocar a bunda na cadeira e estudar.

    “Uma criança que não quer fazer o dever de casa é uma criança inteligente.” O problema daí é a famosa responsabilidade… Claro que eu ach(ei|o) lição de casa estúpida. mas enfim, faz parte de colocar um senso de responsabilidade (o que IMHO eh ‘a good thing’).

    Quanto a religião, concordo, no final das contas, religião faz parte da cultura, e é importante saber quem é Deus/Allah/FSM etc, o que não implica em seguir uma religião.

    E os livros “didáticos” são todos iguais, filhotes da mesma máquina repetitiva “de ensino”. A mesma máquina que todo ano pega os livros de um pool constante para cair no vestibular, que não ensina nada além do marxismo em história no 2o grau, etc, etc. Mas acredite, existem livros didáticos bons (sim, são raros)

    Comentário de Tabgal — 2008-01-04 19:52:52

  3. Opa, legal o texto, food for thought. :-)

    Como alguém que pretende ter filho(s) num futuro próximo, li o texto discutindo-o com a minha esposa (que é pedagoga e já tem um pouco mais de 10 anos de experiência profissional com crianças pequenas). Seria legal uma discussão ao vivo, mas vamos lá, deixa eu resumir os pontos:

    1. Pra alguns, “Ignorance is Bliss”. Tem gente que prefere o “mar de paz e tranquilidade”, e há chances de que sua filha eventualmente olhe pra tras e prefira isso também. Não há como saber disso agora, mas tome cuidado pra que sua filha não perca a tal “inocência da infância”. Pode ser que ela te cobre por isso no futuro.

    2. Concordo em quase tudo, mas um pai que tenta ser inútil corre o risco de se tornar irrelevante e distante do filho. Eu quero que meu filho tenha confiança e “dependência” de mim o suficiente para trazer seus problemas e compartilha-los comigo, mesmo quando já estiver mais velho. Tenho a impressão que é um pouco difícil tentar ser o melhor amigo do filho e ao mesmo tempo tentar se tornar inútil como pai.

    3. Concordo e acho que hoje todos os pais com o mínimo de educação já levam isso em consideração. Qualquer literatura sobre o ensino de crianças aborda isso. Esse é um problema que foi comum na nossa geração, mas acredito estar superado pela maioria dos pais de hoje com o mínimo de instrução.

    4. Concordo.

    5. Concordo (mesmo eu mesmo sendo um cristão). Aqui também vale um pouco da discussão “até que ponto vale a pena estar enganado se isso te trouxer felicidade” - algo que eu particularmente não concordo em princípio, mas respeito). Pode ser que um filho passe por alguma experiência em algum momento de sua vida que o faça “crer” em algo “sobrenatural” e não há nada de errado com isso. Aqui fica uma pergunta: como você reagiria se sua filha chegasse em casa e dissesse que se converteu a , se batizou e pretende seguir uma carreira ministerial?

    6. Concordo, mas lembre-se que o exemplo pode ser bom ou mal. Todo filho vê muito do que os pais fazem como “ruim” e decide fazer justamente o contrário.

    7a (sobre o valor da escola) Acho que aqui você descarregou um pouco do seu pré-conceito em relação as instituições de ensino, principalmente as moldadas nos conceitos tradicionais, que não evoluiram nos últimos anos. As escolas de hoje (as sérias, que evoluiram seus currículos e métodos) já tem essa preocupação de ensinar o pensamento crítico. Sim, ainda há muito o que evoluir, mas a coisa não é tão ruim como você coloca. Talvez tenha sido na nossa geração, mas as coisas mudaram bastante e hoje as crianças aprendem de um modo diferente. Minha esposa achou que essa sua crítica está um pouco ultrapassada no tempo. :-)

    7b (sobre a socialização) Aqui acho que você está bastante enganado, pois quanto mais diversificado o ambiente onde a criança estiver, melhor sua capacidade de socialização. Embora como adultos não gostemos de estar em ambientes com pessoas “diferentes”, nos relacionar com essas pessoas é fundamental para qualquer atividade (e para a construção de um bom caráter). É importante que a criança aprenda desde cedo que existem pessoas com diferentes gostos, temperamentos, hábitos, religiões, etc, pois na vida adulta é isso que ela irá encontrar o tempo todo. Ela precisa disso pra crescer tolerante.

    1. Concordo, mas essa também está um pouco ultrapassada. Hoje as escolas (de novo, as que evoluiram), incluem nas aulas de educação física conceitos de nutrição, reciclagem, integração, construção de brinquedos, socialização, etc) e Educação Física anda junto com uma disciplina chamada “Preparação Para a Vida” (PPV).

    2. Não subestime o poder dos hormônios e da capacidade de convencimento dos filhos dos outros (os “machos procurando várias namoradas, o mais cedo possível”). Pra um adulto de cabeça aberta, sexo é só sexo, mas pra uma adolescente, é bem mais do que isso e não é tão simples assim lidar com esse assunto.

    3. A maioria das crianças e adolescentes tem dificuldades em mudar de ambiente com muita frequencia. Diferentemente de um adulto, elas tem mais dificuldades em deixar os amigos e as raizes pra trás. Enfim, mudar o tempo todo não é algo ruim, mas não pense que será fácil.

    4. Querendo ou não, você estará moldando sua filha e esse post é uma prova disso. Moldar a personalidade e o caráter de um filho é a responsabilidade de um pai e não há como fugir dela.

    Acho que seu texto em alguns momentos é regado a preconceitos (possivelmente coisas que aconteceram com você - e em alguns momentos com todos da nossa geração). Algumas críticas estão um pouco exageradas e algumas coisas não são tão simples como parecem a uma primeira vista, mas as colocações são boas, gostei da leitura.

    Te desejo sorte com a filha e espero que você continue mantendo relatos no blog sobre o que você aprender como pai ao longo do tempo. Não querendo te usar como laboratório, mas será interessante acompanhar e aprender com isso. :-)

    Ah, por último, uma curiosidade: você manterá seus posts como “registros históricos”, públicos e acessíveis para sua filha ler quando crescer? :-)

    Comentário de Ademar2008-01-05 19:24:05

  4. Bah, o seu blog tentou dar uma de esperto e transformou meus ítens em uma lista numerada… Mas acho que ainda dá pra associar os comentários com o texto original.

    Além disso, ele também não soube interpretar maior-que e menor-que e pensou que eram tags HTML. No item 5, devia ser:

    “Aqui fica uma pergunta: como você reagiria se sua filha chegasse em casa e dissesse que se converteu a [insira aqui a religião mais abominável que você conhece] se batizou e pretende seguir uma carreira ministerial?”

    Comentário de Ademar2008-01-05 19:28:24

  5. Achei perfeito! Você é o pai ideal! Aquele que eu queria pra mim ^^ A sua filha vai ser no mínimo a melhor filósofa dos séculos! Ela vai ter sede de aprender… e não vai encarar provas, vestibulares, funis e competições como massacres intelectuais! Adorei o post e toda sua linha de raciocínio! Fez o meu dia (e por que não dizer ano?) valer incrivelmente muito a pena! Você é o melhor! Adoro seu blog!

    Comentário de Rodayne2008-01-07 12:04:45

  6. “Qualquer adulto que tivesse que passar os dias em um ambiente como a Escola tomaria todas as medidas para sair de lá o quanto antes;”

    Isso se chama “Empresa”.

    Você ficaria numa empresa em que odeia o servico e odeia todo mundo? Eu trabalhei numa empresa assim uma vez; seis meses depois, ninguém da minha equipe ficou lá.

    Você pode cair fora de empresas quando quiser, mas criancas não podem cair fora da escola. É isso que quero dizer com abuso de poder.

    Infelizmente a vida é assim, e temos que nos relacionar com gente nada a ver conosco.

    Mas quando a gente tá chateado com um ambiente, a gente pode sair dele. Criancas na escola não.

    E infelizmente toda essa abobrinhada da escola tradicional é necessária para um negócio chamado vestibular (ou seus equivalentes internacionais). E mesmo estudando o que se quer, muitas vezes é necessário colocar a bunda na cadeira e estudar.

    Sim; é importante aprender a aprender, e aprender a aprender significa saber ficar lendo textos chatos até cansar. Mas você aprende esses textos chatos por um motivo; você ganha uma recompensa no final (fique debulhando o livro do C e no final você sabe programar em C). Como a escola ensina enchecão de linguica, ela rouba a recompensa e as criancas ficam pensando que aprender é só a parte chata.

    Sobre o vestibular, eu acredito que uma pessoa com formacao crítica consegue aprender aquelas matérias sozinhas facilmente — como eu fiz quando passei na UFPR; a escola pública nunca me ajudou. De qualquer forma eu colocaria minha filha no segundo grau sem medo, porque aí ela já desenvolveu defesas psicológicas contra o inferninho da discriminacão; meu medo maior é que ela sofra como eu sofri por ser uma crianca diferente no ensino fundamental.

    O problema daí é a famosa responsabilidade…

    Existem mais maneiras de ensinar responsabilidade do que fazendo coisas inúteis que ela não quer fazer. Ela provavelmente vai querer estudar alguma coisa, seja pintura ou danca ou artes marciais ou programacao ou o que for; terá meu encorajamento, e pra ficar boa nisso terá que aprender a ser responsável.

    Ensinar a ser responsável com dever de casa inútil IMHO ensina o tipo errado de responsabilidade, a responsabilidade acrítica, responsabilidade pros outros, de fazer o que os outros acham bom apesar de você mesmo ter decidido que não é. Eu ferrei boa parte da minha vida por causa disso.

    Comentário de leoboiko2008-01-07 17:41:59

  7. Tome cuidado pra que sua filha não perca a tal “inocência da infância”. Pode ser que ela te cobre por isso no futuro.

    IMHO isso é overrated. De toda forma acho que o texto talvez tenha passado a impressão errada; é claro que eu vou deixar ela solta pra brincar e fantasiar. Diabos, eu brinco e fantasio muito mais que os adultos que conheco. Tenho horror àqueles pais que vêem o tempo de infância como uma fase de treinamento pra ir adicionando skills.

    Tenho a impressão que é um pouco difícil tentar ser o melhor amigo do filho e ao mesmo tempo tentar se tornar inútil como pai.

    Talvez. Mas nesse caso eu prefiro errar pro lado de ser inútil. Acho muita pretensão querer ser o melhor amigo de alguém, especialmente de alguém que você forma. Quem tem que decidir quem vai ser o melhor amigo é ela.

    Pode ser que um filho passe por alguma experiência em algum momento de sua vida que o faça “crer” em algo “sobrenatural” e não há nada de errado com isso.

    E não adianta você querer ficar debunkando, também (como alguém que foi wiccano aos 16, seria até hipócrita da minha parte). O máximo que a gente pode fazer é dar as ferramentas e esperar que eles se virem.

    Aqui fica uma pergunta: como você reagiria se sua filha chegasse em casa e dissesse que se converteu a , se batizou e pretende seguir uma carreira ministerial?

    Muito triste, mas orgulhoso, porque ela está saindo das minhas asas. O mesmo vale se ela virar algo que desprezo, como administradora de empresas.

    Mas sem querer tirar tuas esperancas, se ela for virar religiosa é muito mais provável que vá pra algum lado como religião oriental ou algo bizarro tipo Santo Daime (como a mãe dela). Como filha de um casal duplamente bissexual e poliamorista, acho que vai ser difícil ela aceitar como palavra de deus uma bíblia que diz que fornicadores e gays são abominacões que tem que ser postos à morte.

    Minha esposa achou que essa sua crítica está um pouco ultrapassada no tempo. :-)

    Fale para a sua esposa experimentar ser nerd, gay e ateísta numa escola pública.

    Como disse o Paul Graham, eu não me incomodo que as escolas sejam prisões. Eu me incomodo que 1) a gente minta às criancas a respeito, fazendo de conta que são instituicões de ensino, e 2) a prisão seja controlada pelos detentos. Bullying é um problema sério e que ninguém cuida.

    Sobre socializacão, veja minha resposta acima ao Tabgal. Eu não acredito em socializacão forcada.

    Concordo, mas essa também está um pouco ultrapassada. Hoje as escolas (de novo, as que evoluiram), incluem nas aulas de educação física conceitos de nutrição, reciclagem, integração, construção de brinquedos, socialização, etc) e Educação Física anda junto com uma disciplina chamada “Preparação Para a Vida” (PPV).

    Se tiver isso mesmo e funcionar, aí eu admito que estou ultrapassado.

    Pra mim a educacao física ideal ia funcionar em clubes: com esportes, dancas, artes marciais, trilha, montanhismo etc. e as criancas podem escolher de qual clube fazer parte, mais alongamento, nutricão, anatomia etc. como matérias obrigatórias.

    Não subestime o poder dos hormônios

    Adolescentes têm hormônios. Logo, adolescentes gostam de sexo. Não existe uma boa razão para proibir, por isso não proíbo. Eu já disse e vou dizer de novo: MINHA FILHA VAI DAR PRA QUEM QUISER QUE É PROBLEMA DELA.

    Minha mãe criou a mim e à minha irmã assim, eu achei perfeito, e é assim que vou criar minha filha.

    A maioria das crianças e adolescentes tem dificuldades em mudar de ambiente com muita frequencia. Diferentemente de um adulto, elas tem mais dificuldades em deixar os amigos e as raizes pra trás.

    Eu acho que é o contrário: quando eu era crianca eu gostava de mudar muito mais do que gosto hoje, e minha vó jura que a gente chega numa idade que perde a graca.

    Querendo ou não, você estará moldando sua filha e esse post é uma prova disso.

    Eu não concordo. Você pode ajudar a crescer pro lado que ela quer crescer ou tentar podar, mas as inclinacões vêm todas do berco.

    Ah, por último, uma curiosidade: você manterá seus posts como “registros históricos”, públicos e acessíveis para sua filha ler quando crescer? :-)

    Mesmo que por alguma razão eu não quisesse fazer isso, ela ia saber usar archive.org :)

    Considerarei minha tarefa como pai como concluída se ela ler os posts no futuro e pensar “nossa, não sei por que o pai se preocupava tanto com essas coisas, minha infância foi tão bacana.”

    Comentário de leoboiko2008-01-07 17:59:54

  8. Btw, teve bastante gente que discordou de minha opinião que escola atrapalha mais que ajuda, e isso eu esperava; mas parece que teve interesse positivo também. Quem quer saber mais, procure na net sobre homeschooling; normalmente homeschooling está associado com educação religiosa, mas existe pelo menos um site de secular homeschooling bacana. Outra coisa legal pra se estudar é unschooling.

    Comentário de leoboiko2008-01-08 08:12:58

  9. “Você ficaria numa empresa em que odeia o servico e odeia todo mundo? “

    Hum… Se eu realmente odiasse TODO mundo/TODAS as “matérias,serviços” óbvio que não.

    E se uma criança realmente odeia TODO mundo da escola dela, ou mesmo por menos, então tem que se pensar em trocar de escola. É, a criança vai ter dificuldade em saber ‘o que está havendo’ que ela não se acerta com a escola e com certeza sozinha não troca de escola.

    E tem muitas escolas aí, seja públicas, seja particulares, e uma (por mais que tenham similaridades) é diferente da outra.

    “Pra mim a educacao física ideal ia funcionar em clubes: com esportes, dancas, artes marciais, trilha, montanhismo etc…”

    Opa, gostei! Muito melhor do que “educação física” ser “aquele” esporte maldito 99% das vezes.

    Comentário de Tabgal — 2008-01-08 12:16:18

  10. Leoboiko

    Excelente artigo.

    Eu queria fazer um comentário sobre escola: eu fiz escola pública (ensino fundamental e secundário) entre 1986 a 1996 (10 anos).

    A minha experiência foi que escola sempre foi um estorvo (a partir da 4 série em diante, ou seja, após eu já saber ler, fazer contas sozinho e saber um mínimo de biologia). O motivo é que os assuntos cobertos eram básicos demais (já na 5 série eu comecei a ler os livros de 2. grau do meu irmão) ou simplesmente desinteressantes.

    Eu aprendi muito mais passando as tardes da minha infância na biblioteca municipal da minha cidade.

    Os meus amigos (com quem brincava diariamente) moravam próximos da minha casa, e curiosamente, não eram da mesma escola/série/classe/etc. Ou seja, a parte de ’sociabilização’ provida pela escola eram 15 minutos de recreio.

    E eu sofria bullying de colegas invejosos com meu desempenho na escola, pois ser CDF não é o melhor caminho para ser popular… Pelo menos até a 6 série onde após 2 anos de estudos de artes marciais meus problemas se acabaram (assim como os bullies, heheheheh…).

    O segundo grau foi pelo mesmo caminho, com a única vantagem que minha escola ficava perto de uma loja de fliperama e eu tinha uma namorada. Para o vestibular, eu estudava sozinho em casa.

    Homeschooling é um sonho que eu gostaria de realizar para minha filha, entretanto, parece que por lei você precisa matricular sua filha/filho na escola (até mesmo para permitir obter os diplomas…). Além disso, eu não disponho do tempo necessário para atuar como um tutor para a mesma.

    No geral, o modelo de ensino que temos (seja fundamental e mesmo superior) está ultrapassado em pelo menos uns 50 anos, e eu não vejo isto mudando.

    Eu tenho como opinião que é possível se aprender qualquer assunto de qualquer área (talvez com exceção de medicina, onde não é fácil obter material de estudo…) sozinho de posse de:

    a) Bons livros

    b) Muita dedicação

    c) Disciplina

    Atenciosamente

    Adenilson

    Comentário de Adenilson Cavalcanti — 2008-01-10 21:50:52

  11. Parabéns pelo texto, realmente, muita coisa do que eu penso está escrito aí.

    Abraços

    Comentário de Gustavo Roberto2008-01-14 10:11:35

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