2009-07-07

Todas as cantigas infantis tradicionais são tristes, violentas, ou ambos

se esta rua, se esta rua fosse minha
eu mandava, eu mandava ladrilhar
com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante
para o meu, para o meu amor passar

nesta rua, nesta rua tem um bosque
que se chama, que se chama solidão
dentro dele, dentro dele mora um anjo
que roubou, que roubou meu coração

o cravo brigou com a rosa
debaixo de uma sacada
o cravo saiu ferido
e a rosa, despedaçada

o cravo ficou doente
e a rosa foi visitar
o cravo teve um desmaio
e a rosa pôs-se a chorar

ciranda cirandinha vamos todos cirandar
vamos dar a meia-volta, volta-e-meia vamos dar
o anel que tu me destes era vidro e se quebrou
o amor que tu me tinhas era fraco e se acabou

cai-cai balão, cai-cai balão, na rua do sabão
não-cai-não não-cai-não não-cai-não
cai aqui na minha mão

cai-cai balão, cai-cai balão, aqui na minha mão
não-vou-lá não-vou-lá não-vou-lá
tenho medo de apanhar

a barata diz que tem sete saias de filó
é mentira da barata, ela tem é uma só
ahaha, óhóhó, ela tem é uma só

atirei o pau no ga-to-to
mas o ga-to-to
não morreu-reu-reu
dona chi-ca-ca
adimirou-se-se
do berrô, do berrô que o gato deu

pirulito que bate-bate
pirulito que já bateu
quem gosta de mim é ela
quem gosta dela sou eu

pirulito que bate bate
pirulito que já bateu
a menina que eu gostava
não gostava como eu

dorme neném
que a cuca vem pegar
papai foi pra roça
mamãe foi trabalhar

roda-cutia
de noite–e de dia
o galo cantou
e a casa caiu

três patinhos foram passear
pelas montanhas para brincar
a mamãe chamou, quá quá quá quá
mas só dois patinhos voltaram de lá

dois patinhos foram passear
pelas montanhas para brincar
a mamãe chamou, quá quá quá quá
mas só um patinho voltou de lá

um patinho foi passear
pelas montanhas para brincar
a mamãe chamou, quá quá quá quá
mas nenhum patinho voltou de lá.

2009-06-16

Ando me batendo para conseguir descrever meu novo anime favorito, Sayōnara Zetsubō Sensei

sayōnara zetsubō sensei screenshot

sayōnara zetsubō sensei screenshot

sayōnara zetsubō sensei screenshot

sayōnara zetsubō sensei screenshot

Ok, Sayōnara Zetsubō Sensei:

É mais ou menos a mesma coisa que a Escolinha do Professor Raimundo, mas se o Professor Raimundo fosse japonês, deprimido e suicida, e a Escolinha ficasse no Japão contemporâneo mas um Japão ainda com a estética do período Shōwa, e se os programas da Globo fizessem humor político/literário/nonsequitur basicamente impossível de acompanhar e com uma arte tão bonita que dá vontade de enquadrar e levar pra casa.

sayōnara zetsubō sensei screenshot

sayōnara zetsubō sensei screenshot

sayōnara zetsubō sensei screenshot

sayōnara zetsubō sensei screenshot

Não coube num twit tweet.

sayōnara zetsubō sensei screenshot

sayōnara zetsubō sensei screenshot

sayōnara zetsubō sensei screenshot

2009-03-18

Re: estupro, aborto e linchamento moral

(Respondendo ao robteix].

Eu concordo, o episódio tem três pontos-chave. Mas discordo sobre quais são. Os pontos foram:

  • Um estupro.
  • Um aborto.
  • Um linchamento moral simbólico que marcou para sempre a vida de pessoas inocentes, do qual faz parte algumas excomunhões.

O problema com os cristãos não é a moral retrógrada e irracional; o problema é que eles querem impor a moral retrógrada e irracional deles nos outros, nos não-cristãos. Por exemplo, a bíblia diz que homossexualismo é uma aberração odiada por deus. Até aí tudo bem, todo mundo pode acreditar no que quiser e se uns caras querem acreditar que um punhado caótico de documentos contraditórios e cheios de erros são a determinante moral máxima, é o direito deles. O problema é que os cristãos partem daí para querer reprimir, proibir e eliminar os homossexuais na sociedade inteira, cristã ou não.

A igreja católica excomunhou a mãe da menina, o médico responsável, e a equipe médica inteira. Alguém perguntou se esse povo todo era católico? Se eles se importavam com a opinião da igreja? Não? Pois este é o ponto.

Os cristãos se julgam no direito de regular a sociedade inteira; eles já fizeram antes, e vão fazer de novo sempre que tiverem a chance. Por isso, quando eles se engajam em condenações públicas, eles têm de ser denunciados, de novo e de novo.

* * *

A igreja católica é contra o aborto; a igreja católica tem o direito de excomungar por aborto. A igreja católica, bem-como as protestantes e neopentecostais, não têm o direito de se misturar com o governo e transformar “pecados” imaginários em crimes. E o fato de que a igreja tem o direito de condenar não torna essa condenação eticamente ou racionalmente “certa” —eu posso sair por aí dizendo que comer chocolate é um crime imperdoável, mas isso não quer dizer que eu estaria certo. A igreja excomunhou por aborto, mas não por estupro; sobre isso, a igreja disse que o estupro foi um crime menor que o aborto. Quem está errado? A igreja, a igreja, a igreja.

A própria existência dessa controvérsia é uma violência moral —particularmente contra a mãe e a menina. Como comentaram por aí nas internets, é uma espécie de segundo estupro —nem de longe tão traumático, verdade, mas ainda assim traumático. Quem é o culpado pela controvérsia? A igreja.

* * *

Duas palavras sobre a condenação cristã ao aborto. Isso é uma coisa relativamente nova; ao contrário de homossexualismo, ateísmo, outras religiões, sexo recreativo e tecidos compostos, a bíblia não despeja seu veneno sobre aborto — o único comentário que existe dá uma punição bem menor que a de assassinato, e ainda assim para o caso de um homem que bata na mulher e cause um aborto contra a vontade dela. Porém, os cristãos de hoje — católicos ou não — estão fortemente engajados em tentar tornar aborto um crime e em manipular a opinião pública para condená-lo moralmente, como este caso demonstra. Por quê?

A chave para entender esse fenômeno do anti-abortismo está na oposição antiquíssima que os cristãos fazem à fornicação. O anti-abortismo surgiu em resposta direta à emancipação feminina e à liberação sexual. Como religião, o cristianismo precisa arruinar a vida; ao contrário, digamos, do budismo ou do paganismo, ele parte do prerrogativo que esta-vida é uma droga —você precisa querer a outra-vida, o paraíso ou reino de deus (i.e. fantasias), não pode ficar satisfeito com esta (a realidade). Uma vez que sexo por prazer é um instinto vital básico dos seres humanos, condenar moralmente o sexo é uma estratégia cristã velha e eficiente para tornar as pessoas infelizes.

Assim, o verdadeiro motivo que leva os cristãos a condenarem o aborto não é o assassinato dos “anjinhos”; é o horror que eles têm à idéia que as mulheres vão sair por aí fazendo sexo por prazer, e em caso de gravidez é só abortar. O motivo real da condenação dos homossexuais não é que é “antinatural”; é que eles não podem admitir que os gays possam simplesmente trepar uns com os outros e serem felizes, sem casamento nem família nem nada (note-se que os cristãos condenam “sodomia” —sexo oral e anal— seja entre gays ou não). E nem preciso dizer que este é o motivo das repetidas investidas contra camisinhas na África, investidas que estão literalmente genocidando os africanos. Não que seja a primeira vez que os cristãos fazem isso…

A tragédia do linchamento moral em discussão é que a menina e a mãe nem sequer estavam buscando prazer sexual; elas foram vítimas de fogo cruzado na guerra cristã contra o sexo. A falta de empatia que a igreja demonstrou pela menina foi assustadora, apesar de pouco surpreendente.

2009-03-07

Danoninho caseiro

Existem inúmeras receitas de danoninho caseiro na web, mas esta é a minha.

  • Uma lata (~400g) de leite condensado
  • 400g de morangos (ou, se não estiver na época, polpa congelada para suco)
  • 1/2 envelope (ou meia folha) de gelatina sem sabor, transparente ou vermelha
  • Suco de meio limão
  • 100g de ricota
  • Uma lata de creme de leite

Molhe a gelatina com 3 colheres de sopa de água e aqueça até derreter (não deixe ferver ou esquentar muito). Bata no liquidificador os morangos, o leite condensado, a gelatina e o limão. Acrescente a ricota e por último o creme de leite. Deixe bater por alguns minutos. Coloque em copinhos e deixe gelar bem. Rendimento: um litro e meio.

Kudos ao ehabkost por sugerir a forma básica do mousse.

2008-09-20

2008-09-20, outro sonho-filme completo:

Gordo, calvo, grisalho, ele era designer na área de publicidade. Trabalhava num escritório amplo, de paredes de vidro e vista para o mar. O sucesso da sua campanha do all-star listrado havia feito dele uma celebridade menor. Era por isso que o queriam morto.

O sol se punha quando os homens chegaram —ternos e gravatas e pistolas como colunas de preto contra um cenário tingido de bronze. O homem gordo não tinha idéia do que acontecia, e antes que pudesse perguntar levou o primeiro tiro. Nada aconteceu. Ele se viu com uma arma na mão e atirou nos invasores, também sem nenhum efeito. Era como se a causalidade tivesse quebrado.

Ninguém nunca reparou que o destaque de seus trabalhos era sempre o vermelho.

Lembrou de quando era criança, brincando sozinho na grama mais alta que sua cabeça, cada folha um nome e uma história — as tardes na biblioteca, o frenesi criativo do faz-de-conta — grama, dessa vez as colinas do campus, os outros estudantes com namoradas lindas, chopes, presilhas de morango — ele, tardes, noites, garimpo de traduções e tomos de tendências estéticas esquecidas nas estantes — o diploma em mãos: um longo pergaminho de críticas de professores em caligrafia medieval — “tem potencial, mas se distrai fácil” — “um brilho de talento, infelizmente sem dedicação” — “faltou todas as aulas, avaliação impossível” — Pedro, Maria, Paulo foram os nomes dos filhos, a esposa, a entrevista na empresa — toda noite a repulsa do si-mesmo tornado peão de jogos de dinheiro — projetos no lixo, campanhas de sucesso, o livro que nunca escreveu — uma súbita certeza de amor pelos filhos, um desejo de falar à esposa uma última vez, jantar a sós, taças de vinho, vermelho — o vinho era o próprio sangue, ele estava deitado em uma poça, e só então entendeu que tinha sido baleado e estava morrendo em flashback. “Digam…” — tentou falar mas as forças se esvaíam; os homens de terno se aproximaram pra ouvir, era sua última mensagem, “digam pra eles”, eles, a família, o trabalho, a faculdade, o mundo inteiro — “digam pra eles que vermelho é bonito”. E foi o que pensava quando morreu, admirando o sangue no chão. Fim.

2008-09-19

Como falar como pirata?

Alguém precisa fazer um guia de como falar como um pirata em português. Se eu ainda estudasse letras ia propor isso como paper =)

Até onde sei, o Modern Pirate é derivado de jargão clássico de marinheiros, mais uma série de convenções fixadas por mídia popular — notoriamente Treasure Island, livro e filme. Portanto, a pesquisa seria de como marinheiros portugueses falavam, mais as traduções canônicas de filmes e livros de piratas. Isso pode ser difícil, tendo em vista as traduções porcas e horríveis como essa do virtualbooks.terra. Original:

‘This is a handy cove,’ says he, at length; ‘and a pleasant sittyated grog-shop. Much company, mate?’

My father told him no, very little company, the more was the pity.

‘Well, then,’ said he, ‘this is the berth for me. Here you matey,’ he cried to the man who trundled the barrow; ‘bring up alongside and help up my chest. I’ll stay here a bit,’ he continued. ‘I’m a plain man; rum and bacon and eggs is what I want, and that head up there for to watch ships off. What you mought call me? You mought call me captain. Oh, I see what you’re at—there;’ and he threw down three or four gold pieces on the threshold. ‘You can tell me when I’ve worked through that,’ says he, looking as fierce as a commander.

Tradução:

Disse rudemente ao estalajadeiro, meu pai, que lhe trouxesse um copo de rum, pediu notícias da freguesia, mandou em seguida o empregado levar-lhe a bagagem e atirou sobre a mesa três ou quatro moedas de ouro. Durante os dias seguintes, o Capitão – assim queria o estranho hóspede que lhe chamassem – […]

Jêsuis. SHOW DON’T TELL MOTHERFUCKER. Por que esses caras estão traduzindo e eu estou aqui programando? Depois reclamam que criança não lê —o pacing aventureiro do original foi arruinado nesta “adaptação”…

* * *

Por outro lado, esta história que o boto me passou sugere que talvez esforçar-se pra criar um Pirata Moderno seja inútil:

<glommer> boto, eu tive uma surpresa ontem
*** glommer está conhecido agora como SouthDog.
<boto> SouthDog: que surpresa?
<SouthDog> boto, falei pra filha do lucas, de 5
<SouthDog> "Amanhã é um dia que os adultos falam todos que nem pirata"
<SouthDog> sabe o que ela respondeu?
<boto> "ah, eu já sabia"
<SouthDog> melhor que isso
<SouthDog> ela respondeu
<SouthDog> "yaaarr!!!"
<boto> uau!
<boto> quem ensinou isso pra ela?
<SouthDog> cara, nem ideia
<SouthDog> aí logo em seguida ela perguntou:
<SouthDog> "Até minha professora vai falar assim?"

Com cinco anos o dispositivo de aquisição de linguagem ainda está ligado, então a menina vai falar “arrrr!” como nativa. Talvez o International Talk Like a Pirate Day acabe fazendo o português absorver as convenções do Modern Pirate inglês mesmo.

2008-09-11

teologia estética

<leoboiko> http://www.abc.se/~m9783/naw/dkr_ei.html
<leoboiko> a reza pra perder 1000 pecados parece meio inútil, perto da
           outra pra perder todos os pecados
<leoboiko> tudo bem, ela é um pouquinho mais longa, mas a de 1000
           também tem que repetir 100 vezes.  acho que não vale a pena
<ehabkost_> talvez usar uma reza maior que necessário deixe allah
            irritado?
<ehabkost_> quero dizer, se você tem só 1000 pecados e fizer a reza
            para perder todos os pecados, acho que deve irritar allah
<leoboiko> mas é difícil saber quantos pecados exatamente você tem…
<leoboiko> a menos que tenha uma potion of enlightenment
<ehabkost_> se você não consegue cuidar dos seus pecados, é mais um
            motivo para deixar allah irritado
<ehabkost_> ei!
<ehabkost_> caralho
<ehabkost_> essa página é *séria*?
<leoboiko> parece
<leoboiko> mesmo que não seja, aposto 9 de 10 que são instruções do
           corão
<ehabkost_> eu achei que era explicitamente uma piada
<leoboiko> será que tem limite pras rezas das árvores?
<ehabkost_> peraí. você está falando de nethack ou do corão, agora?  :P
<leoboiko> se tem, todo muçulmano deve ter 11 árvores no céu
<leoboiko> se não, eu ia ficar rezando o dia inteiro pra ter um monte
           de florestas quando morrer
<leoboiko> …apesar de não saber pra que ia servir
<ehabkost_> pra que serve uma árvore no céu?
<ehabkost_> bah
<leoboiko> faz sentido que um povo do deserto tenha um deus que prometa
           palmeiras
<ehabkost_> hmm... é
<leoboiko> tupã: “reze pra mim e você ganha um coqueiro” índio: “bah”

<leoboiko> sharearam um negócio de videogame no meu reader
<leoboiko> brasileiro
<leoboiko> ad:
<leoboiko> “você sabe qual mensagem que Nossa Senhora deixou pra você?
           clique aqui para conhecer”
<leoboiko> twitter.com/maria?

<leoboiko> > "Todas as pessoas que usarem a Medalha receberão grandes
           graças, trazendo-a ao pescoço".
<leoboiko> > Estas foram as palavras de Nossa Senhora numa aparição a
           Santa Catarina Labouré, em 27 de novembro de 1830. E, a
           partir daí, milhões de pessoas no mundo inteiro passaram a
           receber graças através da Medalha Milagrosa.

<leoboiko> aaahn, _essa_ era a mensagem

<leoboiko> > A ADF é uma associação de fiéis, privada, sem fins
           lucrativos, que tem como missão fomentar a devoção a Nossa
           Senhora e difundir Seus apelos ao mundo.
<leoboiko> > Prencha o formulário abaixo e você receberá pelo correio,
           dentro de alguns dias, a sua Medalha (já benta por um
           sacerdote), junto com a Novena da Medalha Milagrosa para
           pedir as graças que necessita.
<leoboiko> > Você receberá também um convite para participar dessa
           divulgação através de doação espontânea que poderá ser feita
           através de boleto bancário (não se trata de cobrança) no
           valor de R$ 15,00.

<leoboiko> legal, já vem benta
<leoboiko> isso é outra coisa que eu prefiro muito mais os católicos
           que os evangélicos:
<leoboiko> os padres têm poderes especiais
<leoboiko> os pastores não fazem nada de mais
<leoboiko> mas os padres, só por serem ordenados sacerdotes pela Igreja
           (não por treinamento ou habilidade), podem fazer coisas como
           transformar itens comuns em bentos, vinho em sangue, unir
           casais perante Deus, des-paganizar bebês, nulificar pecados,
           etc.
<ehabkost_> por que prefere isso?
<ehabkost_> quero dizer, se é mentira mas pessoas levam a sério, acho
            uma merda
<leoboiko> é mais interessante
<leoboiko> idealmente eu preferia um mundo de ateus
<leoboiko> mas se for pra escolher entre um mundo de pessoas que
           acreditam em estátuas mágicas e rezas milagrosas ou um mundo
           de pessoas que acreditam na força da humildade e do trabalho
           duro, escolho o primeiro
<leoboiko> tudo bem, nem os evangélicos conseguem ficar muito tempo
           longe da magia
<leoboiko> mas eles são muito iniciantes.  quando vão fazer magia fazem
           de um jeito grosseiro, povão
<leoboiko> os católicos têm latim e vitrais e incensos e rituais de
           exorcismo e cânticos gregorianos.  a arte deles é melhor.
<leoboiko> por exemplo, imagine trocar o padre do filme do zé do caixão
           por um pastor
<leoboiko> ou o delegado católico “eu sou idólatra mesmo” por um
           delegado evangélico
<leoboiko> é mais legal lutar contra um inimigo mais interessante
<ehabkost_> então, acho isso legal só quando é arte
<ehabkost_> quando levam a sério deixa de ser arte, aí eu não gosto
<leoboiko> o que estou dizendo é que imho jeito que padre engana o
           povo > jeito que pastor engana o povo
<leoboiko> se tivesse, por exemplo, igrejas wiccas, eu acharia as
           igrejas wiccas mais legais que as católicas
<leoboiko> meu ranking de mentiras seria aproximadamente
           {neo-pagãos,ocultistas,independentes} > cultos tribais e
           pagãos (de verdade) > hindus > cristãos ortodoxos > cristãos
           católicos > cristãos protestantes > muçulmanos
<ehabkost_> então, eu acho que eu gosto menos dos ortodoxos justamente
            porque levam a ficção deles ainda mais a sério
<leoboiko> eu acho que isso torna eles mais interessantes
<ehabkost_> interessantes de olhar, só
<ehabkost_> mas não pra conviver
<leoboiko> evangélicos são CHATOS
<leoboiko> são agentes do chato chateando o mundo
<leoboiko> por isso que quero ter muitos filhos
<leoboiko> não dá pra diminuir a quantidade de pessoas chatas, então
           quero aumentar a quantidade de pessoas não-chatas

(editado saudavelmente)

2008-08-19

Perguntas muito, muito freqüentes sobre homeschooling

“A coisa mais importante para um professor saber (que eu não vi mencionada em nenhuma escola de educação que conheça) pode ser resumida em duas frases: Aprender não é a conseqüência de ser ensinado. Aprender é a conseqüência das ações de quem aprende.” (John Holt)

Recentemente teve um barulhinho na oldmedia sobre uma família de Minas Gerais que optou pelo homeschooling. Os pais vão ter que pagar multa e podem perder a guarda dos filhos. Nas discussões pela net as mesmas objeções velhas e cansadas continuam aparecendo. Por coincidência, final de semana passado eu e minha esposa tivemos um argumento deveras acalorado com um casal amigo que questionava a eficácia do homeschooling, e eu me peguei explicando as mesmas coisas mais uma vez: socialização, responsabilidade, limites. Antes eu tinha pensado que fazer um post sobre isso era chover no molhado, já que tudo já está muito bem explicado em um monte de lugares, mas mudei de idéia — talvez seja bom se repetir, afinal; pelo jeito a exposição no Brasil anda fraca. Tão vamos lá.

“Na vida a gente tem que conviver com gente que não gosta. Por isso, socialização forçada é uma necessidade.”

Concordo com a premissa, discordo com a conclusão. Em primeiro lugar porque é mentira: temos estudos que mostram que crianças educadas em casa são até melhor adaptadas socialmente que as forçadas (o que fará sentido imediatamente pra qualquer um que tenha sofrido bullying).

Mesmo ignorando os resultados e argumentando de forma puramente filosófica, é impossível não se socializar. Educação em casa não significa viver numa bolha dentro de casa. A criança que não é socializada à força ainda tem que conviver com outras crianças e amigos e inimigos e gente diferente e grupos de estudo e professores do mesmo jeito, no curso de natação e na vizinhança e na lanhouse e, de fato, em todo e qualquer lugar. A única diferença é que essas crianças têm escolha — se elas não gostam de um grupo, podem optar por sair dele, exatamente como eu e você podemos. Portões com cadeados são resquícios da era vitoriana.

“Eu confio mais em professores para ensinar do que em mim mesmo.”

Concordo plenamente. Sou um grande admirador de professores, não só os do tipo escolar como os que a sociedade não reconhece como “ensinadores”, e não tenho o menor receio de contratar bons profissionais para meus filhos — profissionais que eles ajudem a escolher, claro, para ensinar os assuntos que eles se interessarem.

Se eu rejeito a Escola com E maiúsculo não é porque eu confio mais em mim que nos professores; é porque confio mais nos meus filhos para decidirem o que estudar do que no Estado. Aliás eu confio mais neles que em qualquer pessoa, mas especialmente mais que no Estado.

“Mas as crianças vão ficar brincando o dia inteiro e não vão aprender matemática e física e outras coisas chatas!”

Ótimo! Elas têm plena capacidade de entender que precisam saber esses assuntos se quiserem ganhar os bilhetes mágicos que a sociedade exige pra provar que você é capaz de fazer qualquer coisa. Quando sentirem necessidade podem aprender por iniciativa própria. Eu mesmo fiz isso — o ensino público falhou totalmente pra mim, e eu aprendi química, física etc. lendo livros em casa uns seis meses antes do vestibular.

“Não dá pra fazer tudo que as crianças querem, o mundo não gira em torno delas.”

Não estamos falando de nós fazermos o que as crianças querem, estamos falando de elas viverem como querem. Eu faço o que eu quero; por acaso o mundo gira em torno de mim?

Ao contrário do que o Paulo Coelho diz, o universo não está nem aí pra gente e um monte de coisas que a gente quer não dá certo. Em qualquer lugar. Não é preciso criar mais dificuldades artificiais pra ensinar isso — essa é outra lição que é impossível não aprender.

Não sou pai superprotetor — pelo contrário, sou um grande adepto da filosofia “criança tem é que se ferrar”, mais do que quase todos os pais que conheço. Mas criança tem que se ferrar com as conseqüência das escolhas dela, pelo livre-arbítrio dela, não por uma decisão dúbia do Estado. Em todas as discussões periódicas de homeschooling, os caras ignoram as crianças completamente; em todas as reportagens que li sobre o caso dos Nunes acima, ninguém, ninguém perguntou pros piás em questão o que eles achavam de estudar em casa.

Homeschooling pra mim é uma conseqüência natural de minha filosofia pedagógica fundamental, levar crianças a sério. Crianças são pessoas, não propriedade.

“Homeschooling é coisa de religioso que não quer que o filho aprenda evolução.”

É uma verdade triste que isso acontece muito (nos EUA especialmente), mas um filho que tenha pai religioso está fodido de todo jeito — se ele vai pra Escola, o pai simplesmente ensina criacionismo em casa. Mas perceba que eu estou com o outro campo que rejeita a Escola precisamente pelo motivo contrário — historicamente, a Escola é uma instituição moral e religiosa, e ainda hoje ela continua com essas tendências; a escola ensina ciência como se fosse uma religião — com uma figura de autoridade imposta medindo os alunos com números e marcando suas respostas como certas ou erradas, é impossível aprender que ciência é questionamento. Ciência é derrubar autoridade, e Escola é autoritarismo. A Escola se foca tanto no modelo das notas que não pode explicar como a ciência é feita de dúvidas e desafios, como cada “resposta certa” que está nos livros é só um consenso geral que ainda é contestado por muitos, como praticamente cada linha do livro de história tem um debate interessante e animado acontecendo neste exato momento sobre ela. Ciência é um processo e eles ensinam dados; ciência é pescar e eles dão o peixe.

“Eu não tenho condições de ficar com meu filho em casa, nem mesmo meio-período.”

Aí está um argumento que eu respeito. Recentemente, nos EUA, fizeram um experimento em que mudaram o horário de entrada de uma Escola das 8:00 para as 10:00. Como resultado, os alunos da Escola inteira — tanto os “bons” quanto os “bagunceiros” — melhoraram imediatamente as notas e a presença. O que é bastante óbvio se você pensar a respeito.

Se um horário mais humano faz as pessoas estudarem melhor, por que as Escolas todas não abrem às dez? Simples: porque a Escola é uma creche. É um local fechado e (mais ou menos) seguro pra trancar os filhos enquanto os pais trabalham. O problema é que ficam divinizando a Escola, fazendo de conta que é uma instituição de conhecimento, com todo mundo fingindo que aprende dados enciclopédicos e esquecendo tudo no primeiro mês de férias. Não é à tôa que as crianças fazem os trabalhos colando coisas da Wikipedia — qualquer trabalho que possa ser colado da Wikipedia é um trabalho que não vale a pena fazer em primeiro lugar. Respeito quem admite que a Escola é uma creche.

Mas tem alguns problemas. O primeiro é que a Escola é uma creche ruim, na qual o controle social é exercido pelo grupo — os que se sobressaem são martelados. Isso é exatamente o oposto do que quero pros meus filhos. Outro problema é que, no Brasil, uma Escola de boa qualidade custa o mesmo que um dos pais receberia por um emprego de meio-período, assumindo que tenha diploma. E outro — meus amigos mais progressistas vão me chamar de reacionário por isso, mas enfim — eu não acho que seja uma boa idéia criar filhos com os dois pais fora o dia inteiro. Pessoalmente, acho que se ambos querem trabalhar oito horas, é melhor deixar a decisão de ter uma criança para depois, com Escola ou sem.

(E antes que me chamem de machista também, adianto que adoraria que fosse eu o pai que vai ficar em casa com os filhos — nós só não vamos fazer isso por causa da grana; infelizmente sou o pai que a sociedade paga mais. Ainda assim quero participar da vida deles tanto quanto for possível, e estou mexendo meus pauzinhos para isso.)

“Homeschooling é contra a lei no Brasil.”

E por isso vamos nos mudar para fora, onde meus filhos têm o direito de gastar o próprio tempo da forma que acharem melhor.

2008-07-14

hanging out in quiet desperation

Não vi quando aconteceu, mas parei de invejar juventude. Não sinto mais saudade de ter energia, de ter vontade de fazer as coisas, visão pro futuro, libido, tempo livre, potencial para habilidades novas — com minha suspensão de descrença quebrada, não tem como acreditar que essas coisas me fariam menos infeliz.

Fico pensando se com a morte é assim também: se até chegar à velhice a gente passa a aceitar não existir.

2008-06-16

Re: Coisas que eu gostaria que alguém tivesse me dito quando eu tinha 17 anos

O Fzero postou sobre este assunto que ando pensando bastante ultimamente — em parte por eu ter escolhido o curso errado, encontrado o curso certo, e não ter conseguido continuar nele; e em parte porque minha irmã está nessa idade e confusa sobre o que fazer da vida. Um problema assim merece um post-mortem: o que deu errado? O que faltou saber, aos dezessete, pra eu poder tomar uma decisão informada?

Tema do curso ≠ Possibilidades do curso

Tem um monte de gente na net explicando sobre como o curso tal e tal não é bem assim, como o assunto que se estuda na verdade é esse e aquele. Eu admito que errei escolhendo um curso de matemática. Nunca fui um cara de exatas, e aliás nem sabia que computação era matemática pura: eu só queria fazer videogames. Mas esse erro em si não foi tão ruim — se você se dedicar você pode ficar bom em qualquer coisa, e uns anos depois eu estava entrando nas optativas avançadas da UFPR por diversão (enquanto os “gênios de matemática” do segundo grau que se recusaram a sequer ler os livros-texto não conseguiram nem passar pelo filtro que é Discreta… dedicação é tudo).

O problema real foi que eu me esforcei à toa — os frutos que computação pode me dar não são frutos que eu queria. Esta foi a informação que me faltou: você não tem que pensar só no tópico do curso, mas também nos modos de ganhar a vida que ele facilita, incentiva, compreende. Se você não souber disso e se matar de estudar pra chegar em lugar nenhum, você acaba quebrando a cara feio (experimente conversar com os alunos de penúltimo período de qualquer curso para conhecer os perdidos — são os de cabeça baixa, com olheiras, tomando Red Bull e falando mal de tudo e de todos).

A meu ver, no mundo de hoje existem basicamente três estilos de vida disponíveis para uma pessoa independente, auto-suficiente (i.e. sem dinheiro da mãe), e com ensino superior:

  • Mercado: você usa o seu conhecimento para ganhar dinheiro e posição social, de acordo com a oferta e demanda. No tempo que sobra e com a riqueza que acumula, você faz outras coisas que te interessam.
  • Ciência: você passa a maior parte do tempo descobrindo coisas legais sobre o mundo (pesquisa), ou contando o que foi descoberto pros outros (ensino). Dinheiro é algo que você vê como necessário, mas não é o foco, e em geral você não pensa nisso (fama, por outro lado, é tentadora).
  • Arte: você passa a maior parte do tempo criando coisas legais, ou estudando coisas legais que os outros criaram. Dinheiro é algo que você vê como necessário, mas não é o foco, e na maior parte do tempo você não pensa nisso (fama, por outro lado, é tentadora).

Deve ter mais opções além dessas três (sugestões?). Por exemplo, a maioria dos alunos de medicina escolhe o curso pela alta demanda no mercado, mas conheço gente que só quer ajudar pessoas — o tipo de médico que vai de propósito pra empregos públicos em cidades abandonadas no interior, ou pra Cruz Vermelha numa guerra no Putaquepariuquistão. Também tenho amigos que tentaram dar aula no segundo grau, por achar que isso é o que mais falta pra sociedade. Esses desejos são muito diferentes de mercado ou ciência — fora pesquisa médica, quase ninguém faz ciência porque quer ajudar os outros; praticamente todos os cientistas estão nessa porque gostam do assunto que pesquisam (muitas vezes o cara entra no curso de ciência por motivos aleatórios, e aprende a gostar no meio. Isso de “gostar do curso” não é tão preto-e-branco assim).

Já estilo de vida é outra história. Se você não gosta de ter horário, de seguir regras, de torrar toda a sua capacidade humana só pra ajudar um punhado de gente rica a ficar mais rica; ou se você odeia morar numa quitinete alugada, comer miojo, andar de ônibus; ou se você acha um pé no saco ficar debruçado sobre livros e quer gastar seu tempo livre com os amigos no bar — se você não gosta de um estilo de vida, passar mais tempo nele só faz você odiá-lo cada vez mais.

Eu queria viver com arte: escrever roteiros para quadrinhos, analisar videogames com técnicas da crítica literária, estudar cerimônia do chá, comparar mangá com ukiyoe com zenga, encontrar jo-ha-kyū na trilha sonora de Samurai Spirits. Eu não vejo arte como hobby ou passatempo; é o meu foco; ficar oito horas por dia longe disso me é insuportável; comparado a isso, estou pouco me lixando de não ter casa própria ou home-theater. Fazer ciência da computação pra me aproximar de videogames foi um erro fatal — o que eu queria com videogames não era calcular trajetórias ou detectar colisões, era inventar personagens e histórias. Não que estudar letras automaticamente torne simples mexer com literatura, longe disso; mas ciência da computação é 100% mercado+ciência, não ajuda em nada pra ter a vida que eu queria.

Momento

Outra coisa que eu não sabia aos dezessete é que estilos de vida têm momento. É muito mais difícil mudar a bola de neve no meio do caminho do que no começo.

Paul Graham é um cara que acredita que empresas com empregados estão obsoletas, e o futuro está em “startups” — pequenas companhias com quase ninguém além dos fundadores. “Fundadores” aí não quer dizer yuppies de gravatinha, e sim um par de cabeludos se matando de trabalhar entusiasticamente numa idéia brilhante até ela ficar famosa — pra daí vender tudo e se aposentar ricamente. Depois de seguir esse caminho, o Graham tem se dedicado a divulgar o conceito de startups através da Y Combinator, que financia programadores que têm boas propostas e nenhuma grana. Se você acompanhar os ensaios e posts dele, dá pra ter uma boa idéia do tipo de programador que está procurando: dedicado, acima da média, entusiasta de boas linguagens e boas ferramentas, usuário de software livre, jovem e sem filhos, adepto do faça-você-mesmo, individualista, criativo.

Calma lá, uma dessas coisas não é como as outras.

Como assim, jovem e sem filhos? O que a sua família tem a ver com sua capacidade como programador ou startupeiro? E, pior ainda, jovem — isso não é preconceito de idade? Experiência não é importante?

Quando você tem dezessete anos, você pode viver com quase nada, e por isso pode fazer de tudo. É difícil entender o valor dessa liberdade antes de perdê-la. Eu me sustentava em casa de estudante com uma bolsa de estudos de R$150 mensais, e era feliz… ter dependentes muda tudo. Uma coisa é se alimentar de miojo, outra coisa é alimentar sua esposa grávida com miojo. Uma coisa é ir pra praia de ônibus nas férias, outra coisa é carregar no ônibus dois bebês mais toda a sua mudança. Quando você pensa na família você não consegue se dar ao luxo de viver de bolsa de pesquisa, ou de estágio em editora, ou de sobras de empréstimos da sua startup. Se eu tivesse escolhido o curso certo, a essa altura seria um professor universitário ensinando literatura japonesa, mas isto absolutamente não significa que o esforço necessário para me tornar um acadêmico agora é o mesmo que seria antes.

Com grandes poderes, etc.

Escolher seu modo de vida é uma mordomia moderna; no passado você seguia o mesmo caminho do seu pai, e pronto (isso se não fosse um miserável ou escravo). Porque hoje a gente pode escolher, a gente é responsável pelas conseqüências; porque a gente pode escolher, a gente pode se sentir culpado.

O ensino de currículo obrigatório é tão horrível que ele obscurece os assuntos que cada faculdade ensina, já que você acaba projetando suas péssimas experiências escolares na faculdade (eu não escolhi letras porque não queria estudar gramática ou literatura brasileira, e não escolhi biologia porque era ruim em decorar nomes… deve ter gente por aí que desistiu de história porque não queria copiar textos do quadro). Mas isso é só parte do problema. A escolha do curso não determina só o que você vai estudar, ela também bate pesado no jeito que você vai passar o resto dos seus dias — algo difícil de levar em consideração quando você está obcecado com passar no vestibular. Gente, o vestibular é o chefinho da primeira fase. Pensem no que vem depois de sair da faculdade. Melhor ainda, perguntem pra quem já está lá na frente o que deu certo e o que não deu. A maioria das universidades faz uma “feira de cursos” onde vestibulandos conversam com alunos de graduação; seria bom ter também uma “feira da vida depois da faculdade”, mostrando algumas ramificações de cada área. Pra escolher o curso certo não existe método…

2008-06-05

Papo de homem

A audiência deste blog (se alguma) vem quase toda do agregador do Matsuoka, nerds.valeta.org. De uns tempos pra cá um dos valetas, o Tiago Becker, começou a postar artigos de uma tal revista Papo De Homem (seria o pomo-de-adão?). Minha alergia usual a coisas de homem me deixou enjoado, mas eu não falei nada porque, ao contrário de uma certa outra audiência deste blog, sei que o nerds.valeta é o agregador do Matsuoka e o Matsuoka coloca lá o que bem quiser.

Mas os posts não pararam, e eu comecei a ficar desconfiado. Um pouco de investigação revelou que o Becker não estava escrevendo para a Papo de Homem como eu tinha assumido; o que acontece é que o que era pra ser o blog dele, trbecker.blogarium.net, estava redirecionando para a revista. Brincando um pouco eu e o Habkost descobrimos que qualquer subdomínio *.blogarium.net vai parar na Papo de Homem — que fica no mesmo IP no provedor de hospedagem, Porto Fácil. E porque padrões ad-hoc sempre funcionam quando você não quer, o endereço do feed de ambos era igual: /feed. Tecnologia!

2008-05-31

À imagem e semelhança

1.

pintura de Brueghel sobre a queda de Ícaro; uma grande paisagem rural, obscurecendo a tragédia

O que mais chama a atenção na pintura de Bruegel, Paisagem com a Queda de Ícaro, não é a queda de Ícaro em si mas a absoluta indiferença das figuras humanas: o pescador, o pastor, o agricultor cada qual com sua rotina, sem sequer virar a cabeça na direção da tragédia comicamente jogada num canto do quadro. Sente-se nos (não-)espectadores uma espécie de ignorância perversa, voluntária, um doublethink retratado com cinismo pelo pintor, que virou de ponta-cabeça a conclusão original do mito. É uma mensagem forte, e não passou despercebida pelos poetas:

According to Brueghel
when Icarus fell
it was spring

a farmer was ploughing
his field
the whole pageantry

of the year was
awake tingling
near

the edge of the sea
concerned
with itself

sweating in the sun
that melted
the wings’ wax

unsignificantly
off the coast
there was

a splash quite unnoticed
this was
Icarus drowning
(William Carlos Williams)


[…]In Brueghel’s Icarus, for instance: how everything turns away
Quite leisurely from the disaster; the ploughman may
Have heard the splash, the forsaken cry,
But for him it was not an important failure; the sun shone
As it had to on the white legs disappearing into the green
Water; and the expensive delicate ship that must have seen
Something amazing, a boy falling out of the sky,
Had somewhere to get to and sailed calmly on.
(W. H. Auden)


[…]Too late. The worst has happened: lost to man,
The angel, Icarus, for ever failed,
Fallen with melted wings when, near the sun
He scorned the ordering planet, which prevailed
And, jeering, now slinks off, to rise once more.
But he—his damaged purpose drags him down—
Too far from his half-brothers on the shore,
Hardly conceivable, is left to drown.
(Michael Hamburguer)

A pintura faz lembrar o famoso soneto de Augusto dos Anjos, que de certa forma é o único poema que ele escreveu a vida toda:

Vês? Ninguém assistiu ao formidável
enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão—esta pantera—
foi tua companheira inseparável![…]

Belo Horizonte é isto: é esta sala de espera, este vazio de ambição, este nada-a-reclamar, estas praças sem nada, a “capital nacional de coisa nenhuma” no linguajar local. Paul Graham vive escrevendo sobre o peso do ambiente no indivíduo, e o último artigo dele é sobre as mensagens que as cidades passam. A de Belo Horizonte seria “baixe a cabeça e não invente moda”. Todas as pessoas usam as mesmas roupas — eu moro num “pólo de moda” e todas as lojas vendem as mesmas roupas; todos os carros são os mesmos modelos se repetindo num carrossel prata, preto, branco, prata, preto, branco; todas as famílias fazem os mesmos programas; todos os restaurantes servem a mesma comida; quem se destaca um pouquinho que seja não pode sair na rua sem ser xingado… Não há polidez, respeito, orgulho, apenas o fluxo eterno e indiferente de massa humana furando sinais e jogando latinhas de refrigerante pela janela (onde há humildade não há educação…) O ideal belorizontino é o ideal cristão, trabalhar até a morte e antes de morrer ter filhos que vão trabalhar até a morte e antes de morrer ter mais filhos etc.

2.

Ando ressabiado com certas palavras. “Ser”, “se”, “bem”, “tudo”, “amanhã”, “esperança”, o futuro do pretérito, “eu”… Palavras que não correspondem a nada real, que não passam de coisas na nossa mente, palavras que são mentiras em essência, mas que mesmo assim têm o poder de acorrentar. “É a vida”, “pensar no futuro”, “se eu não tivesse afastado ela de mim”…

Don Cupitt, diácono não-realista da Igreja Anglicana, lida com a morte de Deus de forma muito interessante no seu After God. Cupitt diz que, exatamente como os religiosos acreditavam, existem seres invisíveis, fora do mundo material, onipresentes, influenciando nossos pensamentos e nossas vidas: esses espíritos se chamam palavras. Tudo bem, Deus não existe no mesmo sentido que uma pedra existe, mas até uma mentira não é o mesmo que nada: ela existe como mentira. Deus é um determinados padrão neural na cabeça das pessoas; um padrão que organiza a vida da maior parte do mundo ocidental, que tem seu próprio país, seus partidos e suas guerras, que controla economias e assassina infiéis. É Deus quem está ensinando a Bíblia e o Corão e criacionismo nas escolas, Deus quem proíbe casamento homossexual e aborto e sexo recreativo, Deus quem sussurra nos ouvidos de cada fiel para apedrejar os pecadores com olhares e sarcasmos em cada rua e cada sala de aula.

Nada mal pra alguém que não existe.

É possível resistir à pressão ambiental? Se Zeus existe tem que existir Prometeu, se Deus existe tem que existir Satanás, se o tirano existe então tem que existir o herói… Mas como Satanás vai lutar não contra o castigo do inferno, e sim contra a gaiola “educativa” do purgatório, o nihil que absorve tudo? Como declarar guerra contra anjos lotophágoi sentados assistindo tevê? Como se levantar não da Queda de Lúcifer, mas da Queda de Ícaro de Bruegel?



Tedium the ultimate chain.


Mirror, mirror upon the wall
Break the spell or become the doll

2008-05-24

pgrep -P `pgrep leoboiko` | wc -l → 2

Porque um bebê só não tava dando trabalho bastante. É isso aí caras, minha criação está aumentando!

2008-05-07

Flores do hanafuda em português

Nomes de plantas podem ser confusos… Veja também: as cartas do hanafuda.

Mês日本語EnglishPortuguês
Janeiro pine pinheiro
Fevereiro plum ameixeira
Março cherry cerejeira
Abril wisteria glicínia
Maio 菖蒲 iris íris, “lírio”
Junho ぼたん peony peônia
Julho bush clover lespedeza
Agosto ススキ chinese silver grass eulália, capim-roxo
Setembro キク chrysanthemum crisântemo
Outubro 紅葉 maple bordo
Novembro willow salgueiro ,chorão
Dezembro きり paulownia kiri, quiri, árvore-da-imperatriz, árvore-da-princesa

2008-05-05

Turning point

É discutível se a turma do fundão realmente é menos inteligente que nós, os da primeira fila, mas eles definitivamente são mais espertos. Que os da frente são otários não é só um estereótipo, é uma pré-condição; somos definidos por nossa otariedade; os alunos do fundo foram para o fundo porque enxergaram desde o início o jogo estúpido e sem sentido que é a Escola e se recusaram a jogar. Nós, tapeados por estrelinhas e palavras doces, demoramos muito mais pra perceber isso, e viramos motivo de riso — com razão. A maioria dos da frente só vai compreender o quão inútil a Escola é lá pelo final do ginásio.

Esse momento é importante. A partir desse ponto, se você comprar a visão capitalista, você tem dois caminhos a seguir: ou se junta com a turma do fundão, pela gratificação imediata; ou joga com o sistema, se quiser ter sucesso. E por “sucesso” querem dizer dinheiro. A educação é vista como acumular tesouros no céu, como um sacrifício que você faz no presente para conseguir vantagens futuras: vantagens bem tangíveis, aliás, na forma de bilhetinhos mágicos que dão acesso aos empregos mais invejados. A escolha, então, é entre recompensas diluídas a partir de agora, ou recompensas concentradas depois.

E quem escolhe recompensa nenhuma? Quem nem aceitou o conformismo, pra começo de conversa? Aí seu weltanschauung ruiu, e não há mais caminho nenhum.

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