2008-06-16

Re: Coisas que eu gostaria que alguém tivesse me dito quando eu tinha 17 anos

O Fzero postou sobre este assunto que ando pensando bastante ultimamente — em parte por eu ter escolhido o curso errado, encontrado o curso certo, e não ter conseguido continuar nele; e em parte porque minha irmã está nessa idade e confusa sobre o que fazer da vida. Um problema assim merece um post-mortem: o que deu errado? O que faltou saber, aos dezessete, pra eu poder tomar uma decisão informada?

Tema do curso ≠ Possibilidades do curso

Tem um monte de gente na net explicando sobre como o curso tal e tal não é bem assim, como o assunto que se estuda na verdade é esse e aquele. Eu admito que errei escolhendo um curso de matemática. Nunca fui um cara de exatas, e aliás nem sabia que computação era matemática pura: eu só queria fazer videogames. Mas esse erro em si não foi tão ruim — se você se dedicar você pode ficar bom em qualquer coisa, e uns anos depois eu estava entrando nas optativas avançadas da UFPR por diversão (enquanto os “gênios de matemática” do segundo grau que se recusaram a sequer ler os livros-texto não conseguiram nem passar pelo filtro que é Discreta… dedicação é tudo).

O problema real foi que eu me esforcei à toa — os frutos que computação pode me dar não são frutos que eu queria. Esta foi a informação que me faltou: você não tem que pensar só no tópico do curso, mas também nos modos de ganhar a vida que ele facilita, incentiva, compreende. Se você não souber disso e se matar de estudar pra chegar em lugar nenhum, você acaba quebrando a cara feio (experimente conversar com os alunos de penúltimo período de qualquer curso para conhecer os perdidos — são os de cabeça baixa, com olheiras, tomando Red Bull e falando mal de tudo e de todos).

A meu ver, no mundo de hoje existem basicamente três estilos de vida disponíveis para uma pessoa independente, auto-suficiente (i.e. sem dinheiro da mãe), e com ensino superior:

  • Mercado: você usa o seu conhecimento para ganhar dinheiro e posição social, de acordo com a oferta e demanda. No tempo que sobra e com a riqueza que acumula, você faz outras coisas que te interessam.
  • Ciência: você passa a maior parte do tempo descobrindo coisas legais sobre o mundo (pesquisa), ou contando o que foi descoberto pros outros (ensino). Dinheiro é algo que você vê como necessário, mas não é o foco, e em geral você não pensa nisso (fama, por outro lado, é tentadora).
  • Arte: você passa a maior parte do tempo criando coisas legais, ou estudando coisas legais que os outros criaram. Dinheiro é algo que você vê como necessário, mas não é o foco, e na maior parte do tempo você não pensa nisso (fama, por outro lado, é tentadora).

Deve ter mais opções além dessas três (sugestões?). Por exemplo, a maioria dos alunos de medicina escolhe o curso pela alta demanda no mercado, mas conheço gente que só quer ajudar pessoas — o tipo de médico que vai de propósito pra empregos públicos em cidades abandonadas no interior, ou pra Cruz Vermelha numa guerra no Putaquepariuquistão. Também tenho amigos que tentaram dar aula no segundo grau, por achar que isso é o que mais falta pra sociedade. Esses desejos são muito diferentes de mercado ou ciência — fora pesquisa médica, quase ninguém faz ciência porque quer ajudar os outros; praticamente todos os cientistas estão nessa porque gostam do assunto que pesquisam (muitas vezes o cara entra no curso de ciência por motivos aleatórios, e aprende a gostar no meio. Isso de “gostar do curso” não é tão preto-e-branco assim).

Já estilo de vida é outra história. Se você não gosta de ter horário, de seguir regras, de torrar toda a sua capacidade humana só pra ajudar um punhado de gente rica a ficar mais rica; ou se você odeia morar numa quitinete alugada, comer miojo, andar de ônibus; ou se você acha um pé no saco ficar debruçado sobre livros e quer gastar seu tempo livre com os amigos no bar — se você não gosta de um estilo de vida, passar mais tempo nele só faz você odiá-lo cada vez mais.

Eu queria viver com arte: escrever roteiros para quadrinhos, analisar videogames com técnicas da crítica literária, estudar cerimônia do chá, comparar mangá com ukiyoe com zenga, encontrar jo-ha-kyū na trilha sonora de Samurai Spirits. Eu não vejo arte como hobby ou passatempo; é o meu foco; ficar oito horas por dia longe disso me é insuportável; comparado a isso, estou pouco me lixando de não ter casa própria ou home-theater. Fazer ciência da computação pra me aproximar de videogames foi um erro fatal — o que eu queria com videogames não era calcular trajetórias ou detectar colisões, era inventar personagens e histórias. Não que estudar letras automaticamente torne simples mexer com literatura, longe disso; mas ciência da computação é 100% mercado+ciência, não ajuda em nada pra ter a vida que eu queria.

Momento

Outra coisa que eu não sabia aos dezessete é que estilos de vida têm momento. É muito mais difícil mudar a bola de neve no meio do caminho do que no começo.

Paul Graham é um cara que acredita que empresas com empregados estão obsoletas, e o futuro está em “startups” — pequenas companhias com quase ninguém além dos fundadores. “Fundadores” aí não quer dizer yuppies de gravatinha, e sim um par de cabeludos se matando de trabalhar entusiasticamente numa idéia brilhante até ela ficar famosa — pra daí vender tudo e se aposentar ricamente. Depois de seguir esse caminho, o Graham tem se dedicado a divulgar o conceito de startups através da Y Combinator, que financia programadores que têm boas propostas e nenhuma grana. Se você acompanhar os ensaios e posts dele, dá pra ter uma boa idéia do tipo de programador que está procurando: dedicado, acima da média, entusiasta de boas linguagens e boas ferramentas, usuário de software livre, jovem e sem filhos, adepto do faça-você-mesmo, individualista, criativo.

Calma lá, uma dessas coisas não é como as outras.

Como assim, jovem e sem filhos? O que a sua família tem a ver com sua capacidade como programador ou startupeiro? E, pior ainda, jovem — isso não é preconceito de idade? Experiência não é importante?

Quando você tem dezessete anos, você pode viver com quase nada, e por isso pode fazer de tudo. É difícil entender o valor dessa liberdade antes de perdê-la. Eu me sustentava em casa de estudante com uma bolsa de estudos de R$150 mensais, e era feliz… ter dependentes muda tudo. Uma coisa é se alimentar de miojo, outra coisa é alimentar sua esposa grávida com miojo. Uma coisa é ir pra praia de ônibus nas férias, outra coisa é carregar no ônibus dois bebês mais toda a sua mudança. Quando você pensa na família você não consegue se dar ao luxo de viver de bolsa de pesquisa, ou de estágio em editora, ou de sobras de empréstimos da sua startup. Se eu tivesse escolhido o curso certo, a essa altura seria um professor universitário ensinando literatura japonesa, mas isto absolutamente não significa que o esforço necessário para me tornar um acadêmico agora é o mesmo que seria antes.

Com grandes poderes, etc.

Escolher seu modo de vida é uma mordomia moderna; no passado você seguia o mesmo caminho do seu pai, e pronto (isso se não fosse um miserável ou escravo). Porque hoje a gente pode escolher, a gente é responsável pelas conseqüências; porque a gente pode escolher, a gente pode se sentir culpado.

O ensino de currículo obrigatório é tão horrível que ele obscurece os assuntos que cada faculdade ensina, já que você acaba projetando suas péssimas experiências escolares na faculdade (eu não escolhi letras porque não queria estudar gramática ou literatura brasileira, e não escolhi biologia porque era ruim em decorar nomes… deve ter gente por aí que desistiu de história porque não queria copiar textos do quadro). Mas isso é só parte do problema. A escolha do curso não determina só o que você vai estudar, ela também bate pesado no jeito que você vai passar o resto dos seus dias — algo difícil de levar em consideração quando você está obcecado com passar no vestibular. Gente, o vestibular é o chefinho da primeira fase. Pensem no que vem depois de sair da faculdade. Melhor ainda, perguntem pra quem já está lá na frente o que deu certo e o que não deu. A maioria das universidades faz uma “feira de cursos” onde vestibulandos conversam com alunos de graduação; seria bom ter também uma “feira da vida depois da faculdade”, mostrando algumas ramificações de cada área. Pra escolher o curso certo não existe método…

14 comments

  1. (in b4 alguém dizer que é impossível viver de ciência/arte e todo mundo tem que ter um emprego produtivo pra sociedade e pra nação: eu conversei uma pá de gente que tentou, uns que conseguiram e outros que não, e sei como é a vida daquele lado.)

    Comment by leoboiko2008-06-16 19:14:52

  2. Foi o melhor post que já li seu. Eu me identifico com muito disso, já que também considero que não escolhi um curso que tenha me trazido grande felicidade. Hoje tenho de me preocupar com o “mercado” ao invés de me divertir com coisas novas.

    Comment by Roberto Teixeira — 2008-06-16 19:17:26

  3. wee, um elogio! brigadim.

    Comment by leoboiko2008-06-16 22:04:43

  4. Gostei do post, acho que a “escolha de Sofia” repete-se também, como um fractal (em sub-escolhas e sub-sub-escolhas), dentro de cada uma das opções. Eu escolhi ser um desenvolvedor normal. Ok, mas trabalhar com Linux ou Windows? Talvez eu pudesse ganhar muito mais desenvolvendo em .NET ou Java, mas Linux me traz mais satisfação.

    Achei um pouco reducionista insinuar que “escolheu o curso errado na faculdade, BUM, perdeu!”, em particular vindo de você, que tem pouca fé no sistema de ensino convencional. Com a facilidade de acesso a uma pós ou mestrado hoje em dia, acho que é perfeitamente possível corrigir a rota da carreira “em vôo”. Além do que, existem muitas profissões que não há faculdade para. Quantos engenheiros não são banqueiros?

    Finalmente, a história de ter uma família realmente muda muita coisa. Alguns já disseram que o grande conflito social em 2050 não vai ser mais entre classes sociais, mas sim entre pessoas sem filhos X pessoas com filhos, pois estes criam os que vão sustentar a Previdência no futuro, enquanto aqueles não querem ser tributados por causa disso (mas também vão envelhecer e também vão querer benefícios previdenciários). Entre outros motivos. Um conhecido meu que viveu na Alemanha contou que o vizinho veio encher o saco dele porque a criança chorou à noite e ele precisava dormir para trabalhar no dia seguinte.

    Penso que esse conflito meio que já começou em áreas de ponta como a nossa, onde a mobilidade e frugalidade são importantes.

    Comment by Elvis Pfutzenreuter — 2008-06-17 08:58:38

  5. Achei um pouco reducionista insinuar que “escolheu o curso errado na faculdade, BUM, perdeu!”

    É exagero porque eu me ferrei. Mudar no meio é mais difícil do que eu pensava, mas tá, não é impossível também.

    Comment by leoboiko2008-06-17 09:05:48

  6. A vida é dura.

    Comment by lcapitulino2008-06-17 11:29:29

  7. @lcapitulino: eu não gosto da minha mãe, eu não gosto de você, eu não gosto de ninguém. só não quero que as pessoas pensem que o cheiro vem de mim. o cheiro vem dali. vem do…

    Comment by leoboiko2008-06-17 13:04:05

  8. Haha, não achei que você tivesse visto o filme e/ou lido o livro. :)

    Comment by lcapitulino2008-06-17 14:49:09

  9. Os dois, e é um dos raros casos em que achei o filme melhor ;)

    Comment by leoboiko2008-06-17 14:52:07

  10. Ei, ei, que filme é esse? :)

    Comment by domingosnovo2008-06-17 16:20:14

  11. @domingosnovo: “O cheiro do ralo”, muito bom.

    Comment by leoboiko2008-06-17 16:28:28

  12. Cara, você resumiu aí tudo que eu queria ter ouvido aos 16, mas ainda bem que tenho oportunidade de ouvir aos 18. Terminei o ensino médio aos 16 anos e era muito imaturo, e acabei escolhendo fazer engenharia elétrica, considerando mais a força do mercado do que qualquer outro fator. E também porque eu me dava bem, mesmo sem gostar muito, em matemática e física. Na verdade, só pude estudar numa escola boa daqui de João Pessoa porque eu fazia olimpíadas de física e matemática, e acabei ganhando bolsa.

    Comecei a estudar engenharia numa cidade perto daqui, morando com meu irmão num apartamento, e voltava pra casa nos finais de semana. Demorou apenas 1 semestre e meio pra eu trancar o curso. Não conseguia me imaginar trabalhando como engenheiro, não queria fazer um curso só pelo dinheiro, e além disso, morar fora de casa estudando algo que desde o começo não me agradou, simplesmente porque garantia um trabalho bom, não era o que eu queria fazer.

    Agora penso em fazer Relações Internacionais, também gosto muito da cultura japonesa, estudo japonês, e pretendo trabalhar com algo relacionado ao Japão, tentar oportunidades de bolsa, e mesmo dar aulas de japonês. Queria muito poder fazer Letras/Japonês, se tivesse esse curso aqui com certeza faria, num tava nem aí se eu fosse acabar sendo professor, prefiro ganhar pouco trabalhando com algo que eu goste, do que o inverso.

    Quando eu falei isso pras pessoas muitas com certeza acharam que eu tava maluco, mesmo sem terem me dito nada. O curso de engenharia elétrica que eu fazia é o um dos 6 melhores do país, e abre muitas oportunidades profissionais. Mas… não era o que eu queria fazer. Mesmo agora não estou muito certo do caminho que tenho pela frente, mas quero trabalhar com a cultura japonesa. Contando isso pra um amigo meu, que tentava me convencer a voltar ao curso, ele me disse “vai fazer Relações Internacionais só por causa disso?”. Sim, entre outras coisas, é por causa disso mesmo, qual o problema? Bem, problema agora é só me livrar do jeito tímido, introspectivo e meio nerd (meio?) que me acompanhou por tanto tempo xD Abraço e desculpa pelo comentário longo demais…

    Comment by Arthur Melo — 2008-06-18 21:19:03

  13. (escreve, escreve, esceve. apaga, apaga, apaga)

    Eu ia dar minha opinião sobre formação academica e escolha profissional.

    Mas deixa pra lá (o Léo nunca presta atenção mesmo…).

    Comment by yves2008-07-10 00:06:18

  14. Eu presto atenção em comentários sim, yvesj, eu sou mó attention whore. Só que depois eu ignoro e considero a minha opinião a melhor de todo jeito. Isso é porque eu sou sabão, eu sabo tudo.

    Comment by leoboiko2008-07-14 14:04:16

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