2007-05-09

Spider-man 3: lamento por um alienígena

Spider-man 3 é um bom filme. Muita gente criticou o Emo Parker, mas o jeito que o filme explorou a idéia não ficou forçado (a cena da franjinha mostra o humor de uma decisão consciente). Ele nem ficou tão emo assim também; está mais para a figura clássica de “cara bonzinho que vira drogado, torna-se agressivo e passa a se vestir de preto”.

Outros reclamaram que há personagens demais. Não achei. As adaptações de X-men têm personagens demais. O Spider-man 3 está bem medido e todos os personagens tiveram seu espaço.

Menos um.

* * *

A fase do uniforme negro era a minha favorita quando criança, então fiquei feliz quando soube que o filme trataria disso. E, dentro da saga, o simbionte era meu personagem favorito. Tá, os peitos da Felicia ofereciam uma boa competição, mas ainda assim eu adorava o simbionte. E ele foi cortado do filme. Repito: o simbionte não está no filme. Seu equivalente é algo muito próximo de um objeto, uma colônia de bactérias, uma força sem cognição ou emoção. Ele não entende nem responde aos pensamentos do Peter, e em nenhum momento demonstra o amor obsessivo, a paranóia, a angústia da rejeição que caracterizam o personagem original. O simbionte do filme é meramente uma droga que aguarda pacientemente em um baú pelas recaídas do Pete. Isso casa com o motivo geral de “luta interna”: eles queriam mostrar o Homem-Aranha em dilemas morais, e o simbionte foi transformado na representação do Lado Negro. É uma decisão que posso compreender, mas, quando você adapta quadrinhos, você sempre corre o risco de mexer naquele pedacinho da história que tal fã adora. Eu adorava o simbionte, e não teve como gostar do filme sem ele.

(É por isso que Spider-man 3 é apenas um bom filme de quadrinhos, não um excelente filme de quadrinhos como Sin City ou 300. Eu esperava que a inovação do Rodriguez — que finalmente descobriu a fórmula para adaptar quadrinhos para cinema; não adapte nada, reproduza a estética original fielmente — tivesse mais impacto no mainstream. Torço para que um dia tenhamos filmes estilo Rodriguez dos heróis da Marvel e da DC. Por enquanto, vamos ter que agüentar outra rodada da aberração que é o Constantine Keanu Reeves…)

Eu tinha antipatizado com o Spider-man 3 já nos trailers, porque sou apegado emocionalmente ao uniforme negro, e o uniforme do filme é bem mais sem graça — simplesmente o uniforme normal pintado de preto. É que, na narrativa, o simbionte invade o apartamento de Peter e recobre o uniforme. Ele não parece ter os poderes de mimetizar qualquer roupa do simbionte dos quadrinhos. Aliás, não fica nem mesmo claro se o simbionte realmente tem qualquer poder além de fazer Peter se sentir poderoso.

(Estava curioso pra saber como iam encaixar o simbionte no enredo sem mencionar as Guerras Secretas. Ele cai do céu. Não, literalmente mesmo, ele cai do céu na vida no Pete. Deus mais ex machina que você já viu, mas vá lá, é perdoável…)

Se algum fã de quadrinhos estiver lendo isto, a essa altura deve estar pensando: se o simbionte não aparece no filme, como fica o Venom? Pois é, como fica o Venom. O Venom também não aparece no filme. Aparece só um Eddie Brock revestido por esse simbionte-objeto. O que é uma pena, porque o Brock do filme consegue ser, nesse aspecto, melhor que o dos quadrinhos: ele é um rival de Peter pela vaga de fotógrafo do Homem-Aranha e tem a carreira destruída cruelmente pelo Peter-drogado-machão. Perdemos o nosso halterofilista obsessivo com seu senso de honra distorcido, mas pelo menos o Brock do filme tem razões bem mais convincentes para odiar Peter/Aranha. E todo esse ódio é jogado fora; o simbionte que alcança Brock na (bastante competente) cena da igreja não odeia o Homem-Aranha, porque não tem emoção alguma. A mente de Brock não se funde num poço de sede de vingança compartilhada porque não há outra mente para se fundir com; e o Brock pós-”fusão” nunca chega a falar “nós somos Venom” (o mais próximo de uma menção do nome é a referência indireta na boca de Tia May: “a vingança é como um veneno[poison]…”). Aliás, o Brock sequer passa a usar a primeira pessoa do plural! Venom sem “nós” não é Venom, e os fãs dele tem todo o direito de ficarem bravos.

Posição do Dedão: Spider-man 3 é decepcionante para quem entende do assunto, mas ainda vale o ingresso. Dedão no meio.

3 comments

  1. Concordo, me decepcionou. Cade aquela língua enorme do Venom, aquela surra linda que o Venom SEMPRE dá no spidey. Sério, nota 0 no filme.

    Comment by Cap'n Ron — 2007-05-13 14:56:15

  2. A surra, né. É canon que o Venom é mais poderoso que o Aranha (na lógica deliciosa dos quadrinhos de antigamente, “ele recebeu todos os meus poderes e ainda tem mais músculos!”). E pra piorar, o Venom deixa o Aranha desorientado por não ativar seu sentido de aranha. No filme isso não fica claro, porque o Brock não é musculoso e o simbionte não parece ter os poderes que tem no original. Tanto que o Aranha só se sente ameaçado porque os vilões fazem dupla — outra coisa que o Venom não faria, aliás; ele deixava claro que não revelava a identidade do Peter porque queria matá-lo sozinho, “eu quero você só pra mim” (ui).

    Geralmente, nas histórias do Venom, ele dava um jeito de trazer o Aranha pra uma luta mano-a-mano, o que o deixava em forte desvantagem, e ele acabava tendo que inventar alguma idéia brilhante pra segurar o bicho. O mais legal foi quando ele se ofereceu pro simbionte, que imediatamente tentou deixar Brock e voltar para seu hospedeiro original — o que foi impossível, porque a fusão do Venom foi permanente. No filme, o simbionte descola do Brock sem problemas.

    Em tempo: colocaram no scans_daily um “O que aconteceria se… os heróis não tivessem voltado das Guerras Secretas?”, que inclui um Aranha que nunca se separou do simbionte. Creepy (o_O)

    Comment by leoboiko2007-05-15 15:36:18

  3. Também acho que o simbionte poderia ter sido melhor explorado. Ele é uma coisa, não um alien com sentimentos de rejeição e desejo de vingança pelo Parker… o lance todo do ” _ Vamos matar o Spider Man pois ele é uma ameaça aos inocentes!” foi esquecido. Nas lutas ele também não é utilizado para formar armas (como o Carnage), imitar ambiente (camuflagem) ou tecidos (roupas). Realmente uma pena, poderia ter sido mais interessante.

    Por outro lado, gostei da caracterização do Homem Areia. O personagem é fiel ao quadrinho: um cara que não é intrinsicamente ruim, somente muito azarado. Os efeitos especiais também foram bem usados.

    No mais, uma boa diversão, mas não chega aos pés de 300 de Esparta (que também tem alguns exageros, os Persas são literalmente monstros no filme e deram importância demais à esposa do Leônidas) ou Sim City (estória um pouco amaciada em relação ao quadrinho… menos violenta e com menos erotismo).

    Adenilson

    Comment by Adenilson Cavalcanti — 2007-05-17 10:48:10

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