2008-05-05

Turning point

É discutível se a turma do fundão realmente é menos inteligente que nós, os da primeira fila, mas eles definitivamente são mais espertos. Que os da frente são otários não é só um estereótipo, é uma pré-condição; somos definidos por nossa otariedade; os alunos do fundo foram para o fundo porque enxergaram desde o início o jogo estúpido e sem sentido que é a Escola e se recusaram a jogar. Nós, tapeados por estrelinhas e palavras doces, demoramos muito mais pra perceber isso, e viramos motivo de riso — com razão. A maioria dos da frente só vai compreender o quão inútil a Escola é lá pelo final do ginásio.

Esse momento é importante. A partir desse ponto, se você comprar a visão capitalista, você tem dois caminhos a seguir: ou se junta com a turma do fundão, pela gratificação imediata; ou joga com o sistema, se quiser ter sucesso. E por “sucesso” querem dizer dinheiro. A educação é vista como acumular tesouros no céu, como um sacrifício que você faz no presente para conseguir vantagens futuras: vantagens bem tangíveis, aliás, na forma de bilhetinhos mágicos que dão acesso aos empregos mais invejados. A escolha, então, é entre recompensas diluídas a partir de agora, ou recompensas concentradas depois.

E quem escolhe recompensa nenhuma? Quem nem aceitou o conformismo, pra começo de conversa? Aí seu weltanschauung ruiu, e não há mais caminho nenhum.

2 comments

  1. Creio que nem sequer há vantagem a longo prazo. Muitos dos que eu considerava “vagais” no meu tempo de escola, hoje estão aproximadamente na mesma posição que eu. Em particular um deles dá aula no mesmo lugar que eu!

    A verdade é que o sistema de ensino repete N vezes a mesma coisa justamente com a intenção de nivelar a turma (nesse caso, nivelar por cima), salvando alguns vagais a cada tentativa. Quantas vezes a gente aprende potenciação? Eu lembro de 4 vezes: 4a serie, 5a serie, 2o grau e faculdade.

    Hoje em dia ainda tem um nível adicional: a tal da pós-graduação. Você pode ter vagalizado a vida inteira, mas no final, quando decide virar uma pessoa séria, paga uma pós de 1 ano e está tudo resolvido. Tudo que interessa é apenas a formação de grau mais alto, não é mesmo?

    Eu me sinto um caso especial pois fui um “CDF-vagal”. Sempre fui “querido” dos professores e bem-comportado, mas nunca precisei fazer esforço sério para absover o conteúdo, distinguindo-me daquele pelotão da sala geralmente formado por 4 ou 5 meninas, que se descabela para tirar as notas mais altas. Nunca fui o #1 nas notas da sala.

    Foi uma opção minha ser bem relacionado com os professores, não me arrependo disso, provavelmente eu nem saberia ser de outro jeito. É da minha natureza procurar a aprovação dos meus pares, e também ser um pouco preguiçoso.

    Se eu resolvesse ficar chateado com o fato dos vagais do meu tempo estarem tão bem ou melhor do que eu, eu estaria indo contra minha religião. Em Mateus 20:1, há uma história análoga onde um trabalhador recebe o pagamento combinado, mas revolta-se porque outro recebe a mesma quantia tendo trabalhado menos.

    Comment by Elvis Pfutzenreuter — 2008-05-05 13:07:53

  2. Em muitos casos nem tem vantagem mesmo, mas o que importa para a instituição é que as pessoas pensem que tenha.

    Comment by leoboiko2008-05-05 13:59:37

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