August 2004
Monthly Archive
Mon 30 Aug 2004
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Pessoal ,
Diário1 Comment
À noite há uma tonalidade etérea que parece superposta ao Rio Negro e ao céu, como se um pintor houvesse passado uma grande pincelada azul-escura sobre a composição toda. A lua é muito bonita e parece maior do que no Sul. O ar próximo aos rios lembra o de praia; meu corpo estranhou, ficava esperando a salinidade.
O açaí daqui nem se compara com a polpa congelada que servem em Curitiba. Tem tapioca em todo lugar. E todo dia como peixe. O que nós chamamos de “desfiados” eles chamam de “iscas”: isca de carne, de frango, de pimentão. Costume de pescador, com certeza.
Não vi as marcas tradicionais de refrigerante de guaraná (não, nem aquela do “guaraná da Amazônia”). Em seu lugar encontramos marcas locais, tão escuras quanto chá mate e com uma taxa maior de guaranina.
Os preços são bem altos, alimentação, moradia, produtos de limpeza, roupas, eletrônicos, tudo. Qualquer coisa marinha custa bastante. Tomate é artigo de luxo.
Há vários restaurantes e bares coreanos na região onde estou, e um grupo da Coréia está hospedado no hotel. Encontrei uma associação da colônia japonesa que tem curso do idioma. A professora é japonesa e me passou boa impressão.
Tue 24 Aug 2004
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Diário[3] Comments
De camiseta, dirijo-me à porta, cansado do ar artificial, opressivo, gelado por dentro. Ao tocar a maçaneta, meu instinto curitibano paralisa o corpo: cuidado, vista uma blusa, lá fora estará ainda mais frio. Confiante, saio e sou recebido em golfadas pelo ar quente e úmido. Manaus me abraça, e eu a abraço em retorno.
É uma cidade agradável e bonita, embora não tenha muita sofisticação. A floresta é maravilhosa, vida em todo lugar.
Agora eu sou oficialmente da Conectiva. Irônico que tenha morado tanto tempo próximo a esta empresa tão famosa na cidade e agora trabalhe nela de tão longe.
Infelizmente minha presença na rede diminuiu, já que por enquanto o único acesso é no trabalho. Quando puder escrevo mais.
Sat 14 Aug 2004
Li o primeiro volume de Haiku in four volumes e gostaria de dizer que estou apaixonado por Reginald Horace Blyth. Enquanto lia, me peguei anotando citações em um caderno. Tentei lembrar há quanto tempo eu não fazia isso — e me toquei que nunca fiz isso.
Um exemplo. A tradução é minha:
Religião e poesia têm a ver com o que está realmente acontecendo no universo. A religião falsa, que nada mais é do que magia disfarçada, distorce o passado, o presente e o futuro, reconstrói-os mais próximos do que o coração deseja. A poesia falsa faz a mesma coisa, embora com resultados menos desastrosos. Ela também é um mundo de fuga, um mundo de literatura mas não de vida. Se é assim, pode parecer que a ciência é nossa única salvação das ilusões, o que é verdade até certo ponto. De fato, a ciência pode livrar-nos do irreal, mas em troca da fantasia não nos dará mais do que um universo mecanicamente correto. Ela não pode nos dizer o que é a vida, ou nos dá-la em abundância. Esta é a função da poesia, mas como visto na passagem citada acima do “Inferno” [de Dante], precisamos procurar poesia, ou seja, realidade, também nos lugares mais improváveis: na simples sonoridade das linhas, na negação obstinada da verdade, nos desejos impossíveis dos seres humanos, nos tremendos castelos de ar intelectual que erigimos, nas mentiras e sofismos que são apenas verdades invertidas.
Algumas citações e informações na rede, uma discussão crítica interessante, e citações escolhidas por mim (em formato do “fortune”).
Sat 14 Aug 2004
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A ida a Manaus foi adiada para quarta. Desta vez, porém, é definitivo, com passagem comprada e tudo.
Em Jaguariaíva fui ao Lago Azul com o João Henrique e o Guilherme, e tiramos fotos. Assim que recebê-las colocarei-as na página.
Sun 8 Aug 2004
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Estarei em Wenceslau Braz de hoje até quinta-feira. Darei uma passadinha em Jaguariaíva, também.
Volto para Curitiba sexta, e domingo viajo para Manaus.
Thu 5 Aug 2004
Fui hoje ao meu último treino de cerimônia do chá, despedir-me do pessoal. Ou assim pensei. O grupo já estava em férias, e encontrei uma Praça do Japão vazia.
Decidi ficar por lá mesmo, lendo no segundo andar o “History of Haiku” de Blyth. Foi minha despedida do memorial.
A policial em serviço veio conversar comigo e esqueceu sua xícara de café. Levei a xícara para a cozinha, aproveitando para roubar um cafezinho. Passava das dez, e ele estava morno. O murmúrio dos lagos era relaxante, mas os koi não estavam lá.
Manhã solitária;
bebo como fosse água
o café já frio.
Não vejo nenhuma carpa
hoje, nos lagos da praça.
Durante o inverno, gosto de me vestir preto e cinza para o treino. Além das cores sóbrias serem próprias para a estação, acredito que elas harmonizam com o carvão visível no ro (fornalha de piso). Lembrei disso enquanto observava um pardal tentando aninhar-se no telhado.
Serei um pardal?
Em tons de cinza, no ninho
acima do chão.
Na praça pessoas, cachorros, flores, o Buda, tudo em cores esmaecidas. Desejei o vermelho alaranjado dos peixes e fui atendido, mas não pela natureza.
Ah! Encontrei carpas:
Em fila, três, quatro táxis
expressos, garis.
Wed 4 Aug 2004
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Data marcada para Manaus: 16 de agosto.
Estou pensando em passar esta semana em Curitiba e a próxima em Wenceslau.
Alteração: a data foi remarcada para o dia 15.
Wed 4 Aug 2004
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Humor[4] Comments
O sexto círculo do inferno: hereges! Mas também consegui um score alto em luxúria.
Tue 3 Aug 2004
Lendo: A Náusea, Jean-Paul Sartre.
Acabei de terminá-lo. Tenho esse costume estranho de, antes de dormir, ler os livros até me aproximar de seu fim, então adormecer e terminá-los ao acordar.
O que me impressionou em Sartre foi ver explicitamente o tipo de pensamento que ocupa minha mente. Há um código não escrito, um tabu literário que limita o que é próprio - o que é importante - o bastante para ser escrito. Aspectos da realidade que não interessem à “trama” ou à “proposta” são cortados fora. O acordo é tão forte que já cheguei a pensar ser o único a ter essa espécie de devaneios.
Por exemplo, em situações de mudança ou viagem, a realidade transfigura-se. Quando vi a rua XV pela primeira vez, ela era absolutamente outra rua, uma entidade diferente do calçadão que me é tão íntimo.
Para quem mudou-se de cidade doze vezes em vinte anos, as sensações já são conhecidas. O tempo todo você é respeitado, como alguém que estivesse próximo da morte. Não só as pessoas, mas as paredes, os objetos olham-te com deferência. Também onipresente é o sentimento de urgência, e a certeza de que alguma coisa você vai esquecer.
E como Antoine Roquentin deixando Bouville, sei que nas últimas horas a cidade me deixará antes que eu a deixe. Assumirá aquela aura de estranheza; já não será mais a minha cidade, mas o lugar que estou deixando.