Lendo: A Náusea, Jean-Paul Sartre.

Acabei de terminá-lo. Tenho esse costume estranho de, antes de dormir, ler os livros até me aproximar de seu fim, então adormecer e terminá-los ao acordar.

O que me impressionou em Sartre foi ver explicitamente o tipo de pensamento que ocupa minha mente. Há um código não escrito, um tabu literário que limita o que é próprio - o que é importante - o bastante para ser escrito. Aspectos da realidade que não interessem à “trama” ou à “proposta” são cortados fora. O acordo é tão forte que já cheguei a pensar ser o único a ter essa espécie de devaneios.

Por exemplo, em situações de mudança ou viagem, a realidade transfigura-se. Quando vi a rua XV pela primeira vez, ela era absolutamente outra rua, uma entidade diferente do calçadão que me é tão íntimo.

Para quem mudou-se de cidade doze vezes em vinte anos, as sensações já são conhecidas. O tempo todo você é respeitado, como alguém que estivesse próximo da morte. Não só as pessoas, mas as paredes, os objetos olham-te com deferência. Também onipresente é o sentimento de urgência, e a certeza de que alguma coisa você vai esquecer.

E como Antoine Roquentin deixando Bouville, sei que nas últimas horas a cidade me deixará antes que eu a deixe. Assumirá aquela aura de estranheza; já não será mais a minha cidade, mas o lugar que estou deixando.