Sat 14 Aug 2004
Li o primeiro volume de Haiku in four volumes e gostaria de dizer que estou apaixonado por Reginald Horace Blyth. Enquanto lia, me peguei anotando citações em um caderno. Tentei lembrar há quanto tempo eu não fazia isso — e me toquei que nunca fiz isso.
Um exemplo. A tradução é minha:
Religião e poesia têm a ver com o que está realmente acontecendo no universo. A religião falsa, que nada mais é do que magia disfarçada, distorce o passado, o presente e o futuro, reconstrói-os mais próximos do que o coração deseja. A poesia falsa faz a mesma coisa, embora com resultados menos desastrosos. Ela também é um mundo de fuga, um mundo de literatura mas não de vida. Se é assim, pode parecer que a ciência é nossa única salvação das ilusões, o que é verdade até certo ponto. De fato, a ciência pode livrar-nos do irreal, mas em troca da fantasia não nos dará mais do que um universo mecanicamente correto. Ela não pode nos dizer o que é a vida, ou nos dá-la em abundância. Esta é a função da poesia, mas como visto na passagem citada acima do “Inferno” [de Dante], precisamos procurar poesia, ou seja, realidade, também nos lugares mais improváveis: na simples sonoridade das linhas, na negação obstinada da verdade, nos desejos impossíveis dos seres humanos, nos tremendos castelos de ar intelectual que erigimos, nas mentiras e sofismos que são apenas verdades invertidas.
Algumas citações e informações na rede, uma discussão crítica interessante, e citações escolhidas por mim (em formato do “fortune”).
August 17th, 2004 at 14:32:24
Amor de verão
pipa rompeu linha
fugiu com o vento
Coincidente, como havia te dito pelo icq, falávamos (eu e o Eduardo) mais uma vez sobre Ciência estudando Religião e chegamos à conclusão de que determinadas coisas que ainda são vistas como mistério o são porque não é chegada a hora de ser revelado pois provocaria um choque grandioso. Agora leio aqui sobre a poesia e sua forma de demonstração da (ir) realidade. Tenho montes de coisas aqui maquinando sobre um texto, mas não vejo descrição de resumo melhor do que “…na simples sonoridade das linhas, na negação obstinada da verdade, nos desejos impossíveis dos seres humanos, nos tremendos castelos de ar intelectual que erigimos, nas mentiras e sofismos que são apenas verdades invertidas.” Ou seja, as vezes é preciso virar de ponta cabeça se quiser ver algumas coisas, já que a poesia brinca de esconde - esconde.
August 17th, 2004 at 14:57:57
Não há mistério nenhum, a menos que você conte este fato como mistério. A vida é isso aí mesmo.
Para bater num velho clichê, religião vem do latim religare, “religar”, ligar novamente. A religião (e a poesia) religa o ser humano com alguma coisa. A questão é: com o quê?
Uma resposta é religar o homem com o divino, o espiritual, o etéreo, o misterioso, o absoluto, o além-mundo, enfim, o que não existe. Essa é a religião da espera de um Novo Mundo, dos entes invisíveis, da vida após a morte, dos milagres, da moralidade. É o que Blyth chama de “religião falsa”.
A alternativa é religar o ser humano com o terreno, o mundano, o dia-a-dia, a natureza, o banal, enfim, a realidade. Esta é a religião do “rache uma acha de madeira e eu estarei lá; levante uma pedra, e me encontrarás”[1]. Blyth faz um paralelo com a poesia, e então a poesia “verdadeira” é aquela que revela, seduz, religa o leitor a um pedaço de realidade como compreendido pelo poeta. E a poesia realmente boa (como a de Dante), mesmo composta de alegorias e fantasias, está permeada de realidade até no ritmo, assim como um bom filme fala da realidade através da ficção (e.g. Mulholland Drive).
Seu verso da pipa é um exemplo ^^
[1] Do evangelho de Tomás.
Correção: Diabos, o clichê estava errado. Segundo o Aurélio, religião vem de religione e não de religare (deste descende, presumivelmente, “religar”).
August 18th, 2004 at 10:58:28
O clichê pode até estar errado, ou melhor: não estar de acordo com a origem da palavra dada pelo Aurélio. Mas acho que ainda foi válido, porque freqüentemente vejo gente utilizando esta interpretação e esta origem para a palavra “religião”: religare.
August 18th, 2004 at 11:01:09
Ei, como você sabe que a vida é isso aí? E o pessoal de fora da Matrix?
August 18th, 2004 at 12:37:50
Eu defino como mistério tudo aquilo que não sei, mas que tenho vontade de descobrir. (A curiosidade matou o gato). Religar, religar com a natureza, seja o que for visível aos olhos ou coração, o que você vê eu posso não ver, o que é falso para mim pode ser verdadeiro para o vizinho, etc, etc, etc, e vamos seguindo. Se é que exista Deus (e eu acredito que exista) ele não deve gostar de rótulos. :)
Boa viagem e não se esqueça das panquecas.
August 18th, 2004 at 14:15:11
Ei, como você sabe que a vida é isso aí? E o pessoal de fora da Matrix?
Parafraseando o Conan: “Se a vida é uma ilusão, então eu também sou uma ilusão, e vivo, e como, e danço, e sofro como ilusão. Então a ilusão é a única realidade para mim.”
August 23rd, 2004 at 22:37:04
Nunca vou apagar uma lembrança que ficou gravada em minha mente, quando vi você fazendo um ritual para a Deusa, você era o ritual e era tão singelo quanto as flores lançadas ao vento em homenagem a lua que acabava de nascer. Não dá para esquecer.
August 24th, 2004 at 12:08:28
Não espalha :)