September 2004


Creio ter passado o “ponto sem retorno” nessa história de cultura japonesa. Não que antes não fosse pra valer. Desde a adolescência o negócio já havia se tornado mais do que um hobby, mas agora alguma coisa mudou lá no fundo.

Sei que não sou caso único. É só visitar um grupo qualquer de artes tradicionais japonesas ou de cultura pop para encontrar dúzias de candidatos a últimos samurais. O arquétipo, aliás, antecede bastante o filme do Tom Cruise, e mesmo a popularização das artes marciais modernas. Já no século 17 o capitão inglês William Adams desembarcou acidentalmente no Japão para ser culturalmente assimilado, nomeado samurai e homenageado com um bairro em Tóquio. Hoje existem tantos bárbaros ocidentais seguindo seu exemplo que prospera todo um mercado dedicado à exportação de produtos culturais nipônicos.

Às vezes me perguntam a razão de tanto fascínio, e não sei o que responder. Desejo de estar próximo aos meus heróis de infância. De participar de um grupo. Curiosidade antropológica. Estímulo estético. Escapismo, fuga da realidade através da idealização de uma sociedade distante. Necessidade de abraçar um rótulo para definir a si mesmo: Conan, o bárbaro, Strider, o ranger, Merlin, o mago, Leonardo, o nipófilo. Falta do que fazer. Todas essas razões são verdadeiras em algum grau, mas a verdadeira razão é a mesma pela qual as pedras caem.

Contudo, de vez em quando eu parava e pensava: por que não desistir da brincadeira toda? Há centenas de países interessantes por aí, inclusive o meu próprio. Que tal ir estudar outra coisa? Agora nem perguntar consigo mais. Sinto mais naturalidade com os padrões estéticos e ambientais japoneses do que com aqueles com os quais fui criado. O ponto crítico foi alcançado no caminho do chá e no estudo da língua. Não que antes não fosse pra valer, mas…

É dia dezenove, e escrevo no notebook da Conectiva em meu novo quarto. Hoje completo um mês na cidade, e acabou minha vida de classe média. Com hotel, comida e táxi pagos pela empresa, cheguei mesmo a engordar um pouco.

Minha provável habitação até ano que vem é uma espécie de quitinete, aos fundos de uma lanchonete de fim de semana. Começarei pelos contras: a paisagem é uma parede, formiguinhas pretas de cozinha moram em frestas no chão, a mobília é por minha conta e de vez em quando no bar tocam forró.

Por outro lado, o quarto é limpo, arejado e bem pintado, o que já é mais do que a maioria dos que conheci em Curitiba. Paredes brancas e chão azulejado de cerâmica cinza ou verde (pode não parecer relevante, mas por aqui a sensação de frescor é fundamental). O banheiro e cozinha são do tamanho ideal para um morador solitário. Teto inclinado, sendo na ponta alto o suficiente para manejar uma shinai. Boa localização, suficientemente próximo à Associação Nipo-Brasileira para alcançá-la a pé. E de vez em quando no bar tocam samba.

Comprei uma mesa com gavetas, usada, e uma cadeira de treliça. Gostei de uma prateleira para prender na parede, perfeita para livros. Achei também um colchonete, do mesmo modelo que usei por um ano na Casa do Estudante, mas devido aos insetos penso em fazer como os nativos e arrumar uma rede. E comprei um ventilador de mesa (o calor amazônico não bastou para mudar minha opinião sobre ar condicionado: odeio-o).

Há duas atividades que tocam profundamente a natureza masculina, construir coisas e exercer poder. Poucas coisas as unem de forma tão pura quanto mexer com ferragens. Bom é projetar o lugar da prateleira, tirar nível, marcar o local dos parafusos a lápis. Segurar a furadeira com as duas mãos, abrir buracos à vontade na geralmente invulnerável parede de concreto. Fixar prendedores de cabos, feltro nos pés dos móveis, vedar frestas, ajeitar de forma eficiente a fiação e a circulação de ar. Você é Deus, olha para o que criou e vê que é bom.

Esposas, sei que melhor seria chamar logo o encanador, o eletricista ou o técnico. Mas, mesmo que o resultado não seja tão bom, deixem o companheiro lidar com a casa. Vocês farão a felicidade de um homem.

Devolvi as ferramentas e varri o chão, passei pano e tirei pó, que nem só de machismo vive o homem e lavar louça em Manaus é melhor ainda do que no Sul. Sim, estou feliz com meu quarto. Queria tirar fotos, mas terei de esperar alguns meses para minha câmera.

O leitor ainda está aí? Acho que esta é a coisa mais chata que já escrevi até hoje…

Pessoas tentando ser cool se encontrarão em desvantagem ao procurar surpresas. Surpreender-se é estar errado. E a essência de ser cool, como qualquer adolescente de quatorze anos sabe, é nil admirari. Ao se enganar, não investigue o erro; aja como se nada tivesse acontecido e talvez ninguém note.
Uma das chaves para ser cool é evitar situações nas quais a inexperiência pode fazê-lo parecer bobo. Se você deseja surpreender-se deve fazer o contrário.

— Paul Graham, The Age of the Essay.

Na mente do principiante há muitas possibilidades, mas na do experiente há poucas.

— Shinryu Suzuki

O Paul Graham que me desculpe por ensaiar basicamente sobre a mesma coisa que ele, mas o trecho citado iluminou um antigo dilema pessoal meu. Neste texto usarei deliberadamente a palavra “cool”, em inglês.

Em filmes, romances e jogos eletrônicos, com freqüência o personagem principal é maravilhosamente eficiente. Talvez o herói não faça tudo certo, mas ele não perde a pose. De filhos de deuses a encapotados de óculos escuros, passando por galanteadores de capa-e-espada e superhumanos com roupas berrantes, nossos superegos fictícios são totalmente cool.

É razoável, então, supor que um comportamento tão cativante traga-nos reconhecimento e sucesso. Se tantos heróis vencem e são admirados mantendo uma atitude de superioridade, por que não tentar o mesmo?

Só que não funciona. Diferente dos heróis, ninguém é bom em tudo. Por mais dedicação e talento individual que se tenha, no tempo de uma vida não é possível nem arranhar o espectro de atividades humanas, muito menos alcançar performances admiráveis em tudo.

A única solução parecer sempre cool acaba sendo, consciente ou inconscientemente, mascarar a própria ineficiência. Agir como se conhecessêssemos tudo, ou pelo menos tudo o que importa. Certas pessoas parecem inclusive acreditar que assim são.

Infelizmente ser cool é sustentar uma ilusão, e toda ilusão tem seu preço. Parte dele é que você acaba evitando situações interessantes. Uma situação interessante é aquela na qual você está impressionado e fascinado, freqüentemente com algo que não conhece. Fascinar-se, não conhecer são coisas terrivemente uncool.

Para ser cool você não pode se importar com as coisas. E quem não se importa, não busca a melhor solução. O resultado é que ser cool implica em ineficiência, em tomar deliberadamente atitudes sem inteligência.

Se o documento precisa ser entregue em dez minutos, o melhor é correr por toda a empresa. Correr é uma ação útil e saudável. Mas se você quer parecer adulto, sério, profissional — se quer parecer cool — não corra nunca. Uma pequena mochila de montanhista é bem mais útil do que uma maleta de mão, mas todos os executivos usam maletas.

A promessa de que, para alcançar a eficiência, precisamos da atitude dos heróis, não é apenas uma promessa falsa: é uma mentira. A outra oferta era ganhar reconhecimento e aceitação. Mas ninguém gosta de sabe-tudos. Sendo cool, você atrairá bajuladores, invejosos e inimigos, mas não amigos.

O preço de ser cool é alto demais. O melhor é ter orgulho de ser bobo. O otário, o crianção entusiasmado é o verdadeiro esperto.

Dia sete fui à Presidente Figueiredo. Enquanto reúno disposição para escrever a respeito, vai uma foto para tranqüilizar o pessoal que me pediu para tomar cuidado na Amazônia.

Naturalmente eu fui ver o local indicado na placa. É muito bonito.

(Créditos: Milton e Ademar, respectivamente).

De mansinho, na multinacional,
o pardal faz ninho.

A vida no ambiente empresarial é terrivelmente antipoética. Sinto-me seco e incapaz de escrever. É decepcionante, porque daquela manhã no Memorial saíram coisas boas, e agora não consigo mais nada.

Penso se devo começar com críticas (de filmes, livros, músicas, etc.). O esforço necessário para produzir uma linha de poesia vale para cem linhas de prosa, ou mil de crítica. Mas temo quebrar a harmonia com acidez…

Na verdade ainda não decidi direito sobre a organização da página.