Fri 10 Sep 2004
Pessoas tentando ser cool se encontrarão em desvantagem ao procurar surpresas. Surpreender-se é estar errado. E a essência de ser cool, como qualquer adolescente de quatorze anos sabe, é nil admirari. Ao se enganar, não investigue o erro; aja como se nada tivesse acontecido e talvez ninguém note.
Uma das chaves para ser cool é evitar situações nas quais a inexperiência pode fazê-lo parecer bobo. Se você deseja surpreender-se deve fazer o contrário.
— Paul Graham, The Age of the Essay.
Na mente do principiante há muitas possibilidades, mas na do experiente há poucas.
— Shinryu Suzuki
O Paul Graham que me desculpe por ensaiar basicamente sobre a mesma coisa que ele, mas o trecho citado iluminou um antigo dilema pessoal meu. Neste texto usarei deliberadamente a palavra “cool”, em inglês.
Em filmes, romances e jogos eletrônicos, com freqüência o personagem principal é maravilhosamente eficiente. Talvez o herói não faça tudo certo, mas ele não perde a pose. De filhos de deuses a encapotados de óculos escuros, passando por galanteadores de capa-e-espada e superhumanos com roupas berrantes, nossos superegos fictícios são totalmente cool.
É razoável, então, supor que um comportamento tão cativante traga-nos reconhecimento e sucesso. Se tantos heróis vencem e são admirados mantendo uma atitude de superioridade, por que não tentar o mesmo?
Só que não funciona. Diferente dos heróis, ninguém é bom em tudo. Por mais dedicação e talento individual que se tenha, no tempo de uma vida não é possível nem arranhar o espectro de atividades humanas, muito menos alcançar performances admiráveis em tudo.
A única solução parecer sempre cool acaba sendo, consciente ou inconscientemente, mascarar a própria ineficiência. Agir como se conhecessêssemos tudo, ou pelo menos tudo o que importa. Certas pessoas parecem inclusive acreditar que assim são.
Infelizmente ser cool é sustentar uma ilusão, e toda ilusão tem seu preço. Parte dele é que você acaba evitando situações interessantes. Uma situação interessante é aquela na qual você está impressionado e fascinado, freqüentemente com algo que não conhece. Fascinar-se, não conhecer são coisas terrivemente uncool.
Para ser cool você não pode se importar com as coisas. E quem não se importa, não busca a melhor solução. O resultado é que ser cool implica em ineficiência, em tomar deliberadamente atitudes sem inteligência.
Se o documento precisa ser entregue em dez minutos, o melhor é correr por toda a empresa. Correr é uma ação útil e saudável. Mas se você quer parecer adulto, sério, profissional — se quer parecer cool — não corra nunca. Uma pequena mochila de montanhista é bem mais útil do que uma maleta de mão, mas todos os executivos usam maletas.
A promessa de que, para alcançar a eficiência, precisamos da atitude dos heróis, não é apenas uma promessa falsa: é uma mentira. A outra oferta era ganhar reconhecimento e aceitação. Mas ninguém gosta de sabe-tudos. Sendo cool, você atrairá bajuladores, invejosos e inimigos, mas não amigos.
O preço de ser cool é alto demais. O melhor é ter orgulho de ser bobo. O otário, o crianção entusiasmado é o verdadeiro esperto.
September 14th, 2004 at 16:20:23
Apesar de ter lido ontem seu texto, só consigo comentá-lo com um pouco mais de discernimento hoje.
Não sei também se além de dizer que gostei de cada vírgula adianta. Mas uma coisa tenho de dizer: eu odeio o comportamento de quem acha que sempre precisa PARECER bem e melhor, numa tentativa patética de ao menos PARECER fazer e controlar tudo.
Tem mais coisas que estão aqui na cabeça, mas não quero escrever um ensaio baseado no seu ensaio. :)