É dia dezenove, e escrevo no notebook da Conectiva em meu novo quarto. Hoje completo um mês na cidade, e acabou minha vida de classe média. Com hotel, comida e táxi pagos pela empresa, cheguei mesmo a engordar um pouco.

Minha provável habitação até ano que vem é uma espécie de quitinete, aos fundos de uma lanchonete de fim de semana. Começarei pelos contras: a paisagem é uma parede, formiguinhas pretas de cozinha moram em frestas no chão, a mobília é por minha conta e de vez em quando no bar tocam forró.

Por outro lado, o quarto é limpo, arejado e bem pintado, o que já é mais do que a maioria dos que conheci em Curitiba. Paredes brancas e chão azulejado de cerâmica cinza ou verde (pode não parecer relevante, mas por aqui a sensação de frescor é fundamental). O banheiro e cozinha são do tamanho ideal para um morador solitário. Teto inclinado, sendo na ponta alto o suficiente para manejar uma shinai. Boa localização, suficientemente próximo à Associação Nipo-Brasileira para alcançá-la a pé. E de vez em quando no bar tocam samba.

Comprei uma mesa com gavetas, usada, e uma cadeira de treliça. Gostei de uma prateleira para prender na parede, perfeita para livros. Achei também um colchonete, do mesmo modelo que usei por um ano na Casa do Estudante, mas devido aos insetos penso em fazer como os nativos e arrumar uma rede. E comprei um ventilador de mesa (o calor amazônico não bastou para mudar minha opinião sobre ar condicionado: odeio-o).

Há duas atividades que tocam profundamente a natureza masculina, construir coisas e exercer poder. Poucas coisas as unem de forma tão pura quanto mexer com ferragens. Bom é projetar o lugar da prateleira, tirar nível, marcar o local dos parafusos a lápis. Segurar a furadeira com as duas mãos, abrir buracos à vontade na geralmente invulnerável parede de concreto. Fixar prendedores de cabos, feltro nos pés dos móveis, vedar frestas, ajeitar de forma eficiente a fiação e a circulação de ar. Você é Deus, olha para o que criou e vê que é bom.

Esposas, sei que melhor seria chamar logo o encanador, o eletricista ou o técnico. Mas, mesmo que o resultado não seja tão bom, deixem o companheiro lidar com a casa. Vocês farão a felicidade de um homem.

Devolvi as ferramentas e varri o chão, passei pano e tirei pó, que nem só de machismo vive o homem e lavar louça em Manaus é melhor ainda do que no Sul. Sim, estou feliz com meu quarto. Queria tirar fotos, mas terei de esperar alguns meses para minha câmera.

O leitor ainda está aí? Acho que esta é a coisa mais chata que já escrevi até hoje…