Creio ter passado o “ponto sem retorno” nessa história de cultura japonesa. Não que antes não fosse pra valer. Desde a adolescência o negócio já havia se tornado mais do que um hobby, mas agora alguma coisa mudou lá no fundo.

Sei que não sou caso único. É só visitar um grupo qualquer de artes tradicionais japonesas ou de cultura pop para encontrar dúzias de candidatos a últimos samurais. O arquétipo, aliás, antecede bastante o filme do Tom Cruise, e mesmo a popularização das artes marciais modernas. Já no século 17 o capitão inglês William Adams desembarcou acidentalmente no Japão para ser culturalmente assimilado, nomeado samurai e homenageado com um bairro em Tóquio. Hoje existem tantos bárbaros ocidentais seguindo seu exemplo que prospera todo um mercado dedicado à exportação de produtos culturais nipônicos.

Às vezes me perguntam a razão de tanto fascínio, e não sei o que responder. Desejo de estar próximo aos meus heróis de infância. De participar de um grupo. Curiosidade antropológica. Estímulo estético. Escapismo, fuga da realidade através da idealização de uma sociedade distante. Necessidade de abraçar um rótulo para definir a si mesmo: Conan, o bárbaro, Strider, o ranger, Merlin, o mago, Leonardo, o nipófilo. Falta do que fazer. Todas essas razões são verdadeiras em algum grau, mas a verdadeira razão é a mesma pela qual as pedras caem.

Contudo, de vez em quando eu parava e pensava: por que não desistir da brincadeira toda? Há centenas de países interessantes por aí, inclusive o meu próprio. Que tal ir estudar outra coisa? Agora nem perguntar consigo mais. Sinto mais naturalidade com os padrões estéticos e ambientais japoneses do que com aqueles com os quais fui criado. O ponto crítico foi alcançado no caminho do chá e no estudo da língua. Não que antes não fosse pra valer, mas…