Continuando com a série “detalhes absolutamente desinteressantes sobre minha vida”… por que será que todo blogger acaba nisso? Pelo menos um leitor eu garanto, uma vez que minha mãe anda lendo esta página (oi mãe!).

Já quando escolhi o quarto eu havia reparado nelas. Não são formigas assassinas amazônicas, mas pequenas formiguinhas doceiras pretas, do tipo que eu já havia convivido antes em cidades quentes. Faziam trilhas através do quarto e fora dele, na direção de um mato próximo, onde provavelmente estava a colônia principal.

Estou acostumado a colchonetes. Não acho confortável dormir em superfícies muito macias, nem em coisas suspensas. Além disso, um colchonete pode ser enrolado durante o dia para economizar espaço, e pode ser carregado em acampamentos ou viagens.

Acontece que eu freqüentemente acordava durante a noite com formigas nos ombros. Era um tanto incômodo. A dona do lugar onde moro me deu um inseticida, dizendo que era só matá-las por um tempo para espantá-las.

Foi uma forma didática de aprender que formigas mortas liberam um feromônio interpretado, basicamente, como “tivemos baixas aqui, enviem reforços”. Alguns dias matando formigas com o spray ou na mão e a quantidade havia dobrado.

Eu relutava em usar um formicida, capaz de genocidar um ninho inteiro, então tentei aplicar uma fita de vedação nas frestas da alvenaria que elas mais gostavam. Tentei também um inseticida do tipo “barreira ativa”. Segundo a embalagem, o veneno permanece por semanas, afastando baratas e formigas.

Elas roeram a fita, e passeavam tranqüilamente pela tal barreira meia hora após a aplicação. E encontraram minha despensa.

Apelei para o formicida, que leva cerca de uma semana para agir. Uma semana e muitas formigas mortas depois, a colônia-matriz na selva havia substituído com reforços as satélites do quarto. Uma aplicação do pote inteiro de formicida não adiantou, e nem uma marca mais forte.

Foi nessa época que as formigas, por alguma razão, me identificaram como comida. Faziam fila para o meu colchonete no meio do quarto, e acumulavam-se às dezenas sob minhas costas. Para fins de treinamento, forcei-me a dormir duas noites nessa condição; considerando que eu tenho (ou tinha) aversão a insetos na pele, foi uma experiência… edificante.

Estava então com o quarto todo envenenado, perdendo comida e sem dormir direito. Resolvi mudar de estratégia…

Comprei uma cama. De quebra, resolvi o problema de achar um móvel para guardar minhas roupas, conseguindo uma com baú. Encontrei apenas uma, e barata: R$185. Infelizmente não estava à venda, pois tinha um pequeno defeito no encaixe do baú. Conversei por mais um tempo e convenci a loja a vendê-la com desconto: R$65. Mais barato até que o colchão. Deu para tirar todas as minhas roupas das malas.

Comprei também potes plásticos para guardar comestíveis. Pareciam perfeitamente seguros, mas elas encontraram uma fresta no encaixe da tampa. Agora só compro potes marcados explicitamente como “herméticos”. No dia dessas compras, também tirei as fitas de vedação feias, o veneno de cheiro desagradável, e limpei todo o piso com sabão e eucalipto.

São insetos fascinantes, as formigas.

Conviver com elas não deixa de ter suas vantagens. Aparentemente esta espécie não ferroa, ou pelo menos não me atacaram até agora (e não por falta de oportunidade). Não transmitem doenças, e ajudam a espantar bichos realmente odiosos como baratas. E são um excelente incentivo para manter o quarto impecável (limpar o piso de cerâmica com pano é treinamento tanto de kendô quanto de chá…)

A Descalça perguntou se as formigas haviam me deixado em paz. Não, minha cara, eu é que parei de importuná-las. Resistir é inútil, a única saída é aprender a conviver.