November 2004


Ontem à noite, em momentos de insônia induzida por formigas, tive um insight: nada é tão perigoso para a saúde de um weblog quanto tentar mantê-lo para os outros.

“Pense sempre no leitor” é um imperativo moral inválido. Não existe “o leitor” em si, mas diferentes indivíduos com diferentes preferências e expectativas. Um escritor que quiser agradar ao denominador mais baixo acabará caindo no mesmo erro que o programador que tenta escrever sempre pensando no “usuário”.

Também é errado buscar conscientemente um estilo, uma cara. Os grandes mestres de todas as artes criavam porque precisavam, não dava para ignorar o impulso interno. O estilo vinha naturalmente. Cheguei à conclusão de que, se um weblogger fizer o que tem vontade, a página acabará ficando com a sua identidade e atrairá o público certo. Ou público nenhum, mas quem se importa? Escrever na Internet está para literatura como o karaoke está para o canto lírico.

Portanto, de agora em diante não vou ligar pra vocês e vou falar sobre o que me der na telha :p

Artigo de qualidade moderada no kuro5hin. Péssima conclusão auto-ajudística, mas o corpo contém observações interessantes:

Esse apego ao conforto é um vício, porque quanto menos experenciamos desconforto, menos tolerância temos a ele.

Na mosca. Gostaria de acrescentar, porém, que a recíproca é verdadeira, e a paixão por desafios, pelo desconforto por excelência, também é um vício: quanto menos experenciamos o conforto, o tédio, menos tolerância temos para ele.

A propósito, isso de “vida confortável” é próprio do ambiente citadino e alheio a nós, rurais.

Réplica simples, à la Alberto Caeiro, a um amigo .

As folhas não tentam nada,
e tampouco vêem cousa alguma.

Elas simplesmente são folhas
e, alheias a toda idéia,
caem.