December 2004


Fiquei em dúvida se publicava isto ou não, foi escrito ontem à noite sem cuidado… é poesia adolescente sem valor. Mas ficou bonitinho, até. Digamos que psicografei de um moleque português, pintor e discípulo do Caeiro.

Coisas

Gosto do meu quarto
porque ele está aqui.

Estava deitado de costas
olhando as tábuas do teto
e me senti satisfeito.

Não tenho tevê, rádio ou internet,
não sei guardar dinheiro e não sou bom em nada.
Estou sozinho agora, e que me importa?
Meu quarto vazio é um desenho bonito,
e minha solidão eu bebo aos poucos.

Ah,
as capas coloridas de livros não lidos,
a garrafa térmica, escura e redonda,
as manchas pardas no lençol velho.

Estou enamorado do imediato.
Dispenso os sonhos e responsabilidades:
a mim me bastam as coisas.

Eles estão se multiplicando… Sociedade Brasileira de Bugei.

O líder é o Jordan Augusto, com um currículo impressionante: “psicologia oriental”, “filosofia clássica e tradicional”, chanoyu, shodo, sumie, bujutsu, fenomenologia, aikijujutsu, kenjutsu, “O-Chikara” e (pasmem): “administração do universo paralelo”.

Jordan Augusto escreveu mais de 50 livros. Todos, provavelmente, com seu estilo “culto”, com pérolas do jargão como “o aspecto prestacional é desenvolvido através da disponibilização de serviços à comunidade”. Aparentemente suas credenciais são altas o bastante para reinventar regras simples como o uso de vírgulas, e para romanizar japonês com grafias como “Hajmeru” e “Shinzen Kay”.

O estilo é o “Kaze no Ryu”, que naturalmente não está listado no koryu.com nem em lugar algum. Fuçando a página encontramos informações exclusivas sobre o povo “Shizen”, sua língua “Shizen-Go” e religião “O-Chikara”, os fundamentos do estilo. A defesa da proximidade entre o japonês e o hebraico na página do Shizen-Go merece ser lida como exemplo didático das principais falácias de raciocínio.

Achei em algum lugar uma lista de “boas qualidades” de programas educativos, uma coleção de clichês e preconceitos morais. O tipo de pessoa formada pela “boa educação” é, previsivelmente, o cidadão passivo, inculto, tributável.

Eu quero é um mundo com mais Vincis, mais Sagans, Caetanos, Leminskys. Como seria uma educação voltada não para o enfraquecimento, mas para o crescimento do ser humano? Pensei em fazer uma anti-lista de boas qualidades. Um programa para meu filho:

  1. É interessante. É pura crueldade com as crianças forçá-las a assistir programas chatos, como a maioria dos desenhos educativos. Serve para os pais se sentirem com boa consciência, mas não serve para educar.
  2. Mostra violência e sexo de forma educativa. Não aceito essa obsessão em manter as crianças isoladas de violência e sexo — são partes da vida com as quais todos temos que lidar. A incompetência do povo para controlar e saber viver com seus instintos é resultado de uma educação deficiente. Um bom exemplo de um trabalho que ensina sobre sexo é a Turma da Mônica; um mau exemplo, Disney. Sobre o uso educativo de violência, basta analisar qualquer desenho japonês shounen de luta.
  3. Não esconde a realidade. Qualquer tipo de mentira é nociva e indefensável, não importa o quão bonitinha. Exemplos de mentiras incluem Papai Noel, eufemismos sobre a morte, montros que castigam crianças desobedientes e estão sempre vigiando, e explicações simples mas não científicas para perguntas sobre o mundo.
  4. Ensina a tolerância. A criança deve, desde pequena, aprender a respeitar as diferenças entre culturas e indivíduos. Colocar um negro e um oriental todo mundo faz, mas é preciso cuidado com os grupos que ainda sofrem preconceito, como homossexuais, seguidores de religiões menores e ateus. O fato de que desenhos que mostram gays ou crenças buditas serem censurados em nosso país é bastante revelador sobre o tipo de educação que damos.
  5. Estimula a mente. Um desenho ou filme para crianças não deve ser bobo; deve estar no limite do que elas podem compreender, e ocasionalmente ultrapassá-lo. Crianças são seres humanos, não idiotas.
  6. Ensina o respeito à inteligência. É preciso acabar completamente com a ideologia da ignorância, uma afetação tanto da direita quanto da esquerda.

Ha ha, estou só falando sério.

Poketto Monsutā Kurisutaru Bāshon, ou Pokémon Crystal para vocês que jogam jogos em inglês. Achei o original japonês, na caixa com manual e tudo o mais, baratinho. Tive que levar, já que é muito difícil encontrar jogos em japonês nas lojas daqui. E o que é melhor, estou conseguindo jogar! Tudo bem que o Pokémon não usa kanji, mas fiquei bastante feliz com isso.

Kirby Tilt’n'Tumble. Como todo jogo do Kirby, este é muito bom. Exceto se você tem um Game Boy Advance SP. O sensor de tilt do cartucho, feito na época do GB Color, fica invertido no SP; como resultado, se você inclina o console para a direita, o Kirby cai para a esquerda. É completamente contra-intuitivo.

Bishoujo Senshi Serā Mūn. É muito, muito ruim. Mas também é bom, porque é da Sailor Moon! Purizumu powā! Meiku appu! Ai to seigi no senshi, Serā Mūn!

Mais uma armadilha: se seu kernel NetBSD não bootar e reiniciar o computador imediatamente, experimente desligar o “-march”.

Uma brincadeirinha depois do trabalho com o Gimp:

Empowered by Nietzsche

Empowered by Nietzsche (small)

E aqui está o XCF. Não sei o copyright da imagem original, mas até onde puder controlar, a minha é domínio público.

Só para registrar um pensamento que merece ser elaborado: há algo em comum entre Sartre, NetBSD, cerimônia do chá, jogos eletrônicos japoneses e o fascínio que tem a cultura nipônica. Pode ser preconceito pessoal, mas acho que uma motivação importante por trás dessas criações é uma sensibilidade delicada, um bom gosto tão forte que torna insuportável qualquer “jeitinho”. Antoine Roquentin teria a Náusea lendo as manpages de um GNU/Linux. Se Rikyû jogasse videogames, jogaria Nintendo.

Preciso parar com o Nietzsche e ler um pouco mais de Sartre para melhorar esta comparação.

Estou a uma sílaba de entender completamente a letra de 修羅の花 (Shura no Hana, de Meiko Kaji; tema da O’Ren Ishii de Kill Bill).

Depois coloco no ar a tradução literal e poética em português, a literal em inglês e, quem sabe, se eu estiver muito metido, uma poética em inglês.

Quem estiver curioso, pode dar uma espiada no progresso até agora.

Hoje fiquei vendo uma pequena lagarta de jardim tentar subir um muro. Ela encolhia e esticava, encolhia e esticava. Alguma coisa em mim encolhia e esticava junto. Pulsação, ritmo, ordem, enquanto se está vivo há uma batida.

Minha mente é tão mecânica quanto o pequeno cérebro da lagarta, mas ela não foi programada com impaciência, nem consegue entender que parte de cima do muro é instransponível para suas patas. A lagarta tentava de novo e de novo, enquanto formigas vermelhas corriam por linhas horizontais.

Como o shikigami é modesto, eu quero compilar as coisas dele na máquina Linux do trabalho. Depois de dois dias, consegui enfim um cross-compiler capaz de gerar binários para o NetBSD. Agradecimentos ao pessoal da Conectiva (boto, claudio, pcpa), ao do #netbsd no Freenode e ao Google. Tenho que escrever um HOWTO sobre isso qualquer dia, mas para não esquecer, registro o processo:

O “host” fica sendo a máquina Linux e “alvo” a NetBSD.

O primeiro passo é compilar no host o binutils com ‐‐target=arch-unknown-netbsdelf, onde “arch” é a arquitetura (i586 para o shikigami) e “unknown” pode ser qualquer coisa (eu uso “pc”, que é mais curto). Não tenho certeza se este é o nome ideal, eu tirei de um config.guess no NetBSD. Também não sei se é necessário usar a mesma versão do binutils que a instalada no alvo, mas acho mais seguro. O make install do binutils coloca umas ferramentas em /usr/local/arch-unknown-netbsdelf e cópias no /usr/local/bin, estas com nomes transformados.

Em seguida, o compilador. Para usar com distcc, o gcc do host tem que ser um com pelo menos os dois primeiros dígitos de versão iguais aos do gcc do alvo. No meu caso, o NetBSD 2.0 RC5 usa o gcc 3.3.3, então instalei o 3.3.4. Eu sofri um pouco para conseguir compilá-lo, principalmente por não ter lido a documentação de instalação 8)

Como o NetBSD tem uma bibliteca C própria, seus cabeçalhos e objetos são necessários para construir o cross-compiler. Porém, ao contrário do que pensei inicialmente, não é preciso compilar a biblioteca externa para a arquitetura do host (ainda bem!). Bastou descompactar uma cópia do “base.tgz” e uma do “comp.tgz” em um diretório à parte no Linux (usei /opt/netbsd). Configurei os fontes do gcc usando ‐‐with-sysroot=/opt/netbsd e o ‐‐target adeqüado.

Tive ainda um problema menor com um erro do gcc 3.3.x que quebrava a compilação, mas era uma simples função com o tipo errado de retorno na declaração. Já está arrumado no 3.4

Meu momento de glória:

leoboiko [tmp]$ /usr/local/i586-pc-netbsdelf/bin/gcc 
    -o hello hello.c
leoboiko [tmp]$ file hello
    hello: ELF 32-bit LSB executable, Intel 80386, 
    version 1 (SYSV), for NetBSD 2.0, dynamically linked 
    (uses shared libs), not stripped

Comprei do Capitulino um notebook antigo, Thinkpad 560 com teclado japonês. Pentium 133, 24MiB de memória, 1GB de HD. Mantendo minha tradição de nomear máquinas como criaturas folclóricas japonesas, batizei-o shikigami. Instalei NetBSD 2.0 RC5 e o estou configurando. Uma vez que o shikigami esteja funcional, finalmente terei um PC fora do trabalho, e poderei escrever mais para a página.

O Capitulino contou que este notebook não suporta PCMCIA tipo II, apenas o tipo I (que é muito difícil de encontrar hoje em dia). Ele quebrava o galho com IP sobre cabo paralelo (PLIP), conhecido pelo pessoal do Windows como “Laplink”. Corri atrás do cabo, mas não tive muito sucesso.

Estava em uma loja de importados no shopping e percebi um homem com cara de esperto, provavelmente o dono. Cansado de lidar com balconistas ignorantes, agarrei a oportunidade:
— Você tem cabo paralelo Laplink?
— Tenho, claro. Aquele que é macho/macho, DB25, certo?
— Sim, esse. É que eu já passei por aqui, mas só tinha o serial…
— Peraí que já vemos. Se eu não tiver aqui tenho lá no Studio5.

Eu tinha finalmente encontrado o cabo, estava disposto a esperar uma hora pelo ônibus que vai de um shopping ao outro e pagar o que fosse. O dono ligou para a outra loja avisando o vendedor sobre o que eu buscava, e perguntou casualmente:
— Vai erguer rede com ele?
— Vou, sim. Estou com um laptop antigo, sem Ethernet.
— Tranqüilo. Não é muita gente que sabe fazer isso, é um negócio meio antigo…

O cara não sabe o efeito que essa frase teve em mim, foi meu momento de realização. Depois de tantos anos estudando Ciência da Computação e computadores em geral, finalmente me senti um autêntico computeiro. Foi como uma cena de animê em que o personagem tecnófilo está comprando peças numa lojinha em Akihabara. Lembrei da Anny, personagem de Sartre, e sua busca por momentos perfeitos — aquele foi meu momento perfeito.

Para dar um tom quixotesco, descobri depois que o Capitulino tinha se enganado e o shikigami aceita na boa PCMCIA tipo II e até III. Estou usando a placa Ethernet do notebook da Conectiva, enquanto não consigo uma pra mim. Mas não fiquei chateado, valeu a experiência em configurar PLIP e a massagem no ego.

  • 2004-2005 — Terminar o trabalho aqui em Manaus.
  • 2005-2006 — Voltar pra Curitiba e completar o curso de Ciência da Computação.
  • 2007 — Seguir minha vocação, mudar de carreira e ir pra USP estudar Letras com especialização em língua japonesa.
  • ~ 2008 — Tentar a bolsa do Monbukagakusho de aperfeiçoamento em cultura e língua japonesa para estudantes de cursos relacionados. Cuidado com a idade limite (29).
  • ~ 2011 — Tentar mestrado pela bolsa de pesquisa (idade limite 35).

(09:36:51) leoboiko:
1) Como faço para participar da promoção?
Para você participar da promoção, utilize seu Itaucard MasterCard ou Cartão Eletrônico Itaú no período entre 14 de novembro e 31 de dezembro de 2004. Responda à pergunta da promoção no seu comprovante de compra, que é emitido no ato do pagamento pelo terminal eletrônico (POS) efetuando assim a sua participação. Você não precisa responder todas as vezes que usar o seu cartão, basta responder apenas uma única vez. Não é necessário enviar o comprovante para nenhum lugar, nem depositar em nenhuma urna.

(09:36:53) leoboiko: ?

(09:37:30) boto: Truques para tornar a promoção legal.

(09:37:34) leoboiko:
E o que eu faço com o comprovante respondido? Aguardo a equipe ninja do Itaú aparecer para levá-lo durante a noite?

(09:38:04) boto:
Acho que alguma lei diz que pessoas não podem ficar promovendo sorteios e outros tipos de jogos de azar, mas podem fazer concursos culturais.

(09:38:39) boto:
Por isso toda promoção tem uma pergunta para responder: se não tiver pergunta, é um simples sorteio ou jogo de azar. Se tem pergunta, é concurso cultural.

(09:38:55) leoboiko:
2) Qual é a resposta à pergunta da promoção?
Participe: Melhor cartão?
(x) MasterCard ( ) Outros

<

p>(09:39:02) leoboiko: cultura, kra