É o segundo dia do ano, domingo, supermercado. Tá rolando de fundo uma música calminha, assim tipo Ed Motta. Ando e a música é trilha sonora, estou num filme, talvez um desses do Jorge Furtado, narrado pelo personagem principal, aquela menina é carioca e não convence como manauara, mas não, não pode ser um filme do Jorge Furtado porque não faço propaganda do Terra. Estou de calção e camiseta velha e me sinto um rei. Lembro daquele artigo no everything2 “walk like a sex god”, e por alguma razão lembro do Cazuza, ando como se fosse o Cazuza, mas não, também não dá certo, porque estou comprando indiscriminadamente no paraíso do consumismo e isso não combina com o Cazuza. Não faz mal, olho para as coisas e tudo parece bom, mesmo a falta de estética, as cores destoantes, o vermelho-amarelo berrante das promoções, o branco e prateado de ano novo, o azulzinho das fraldas e comida diet, o verde-claro de alguma coisa de maçã verde — sempre me pegam, as maçãs verdes.

Ando pelos corredores feliz por nada, e não resisto à tentação de tocar as coisas, penso que o sentido do toque é o mais reprimido mas não estou nem aí, sinto as caixas, os ângulos, as temperaturas, se eu estivesse em São Paulo alguém ia me xingar porque peguei num carrinho.

Evito o caixa-rápido que sempre está cheio. O segredo para pegar filas curtas é procurar um casal — sempre tem um, o homem com cara de conformado, a mulher de olhar inteligente, mas que se preocupa muito com coisas sem importância. Ela acha lugares bons e eles ainda revezam para acompanhar o fluxo, o cara fica guardando lugar e a mulher sai vendo se tem alguma fila menor. É só grudar atrás de um casal desses.

Na fila tem um bando de adolescentes com camisetas de uma dessas bandas novas de metal que nem sabem fazer um solo de guitarra decente. Estão fazendo bagunça e tirando fotos. De vez em quando espiam com o canto do olho para conferir se estou prestando atenção. Retribuo os olhares, não custa nada e eles precisam de platéia. Meu olhar é preso pela camiseta de um surfista, tem uns kanji nela, estão um pouco estranhos mas consigo identificá-los: ryuu, onna, chikara, kaze, ten, mizu. Dragão mulher força vento céu água. Não faz sentido, provavelmente é só um amontoado de caracteres populares. Um cara tirou foto do rosto do outro de perto, o flash cegou o fotografado. A força da mulher dragão é o vento celestial sobre a água. Olhares de reprovação. A força da mulher é um dragão do vento que movimenta céu e água. A caixa atende sem pressa, demonstrando na prática a leseira baré, a indiferença vingativa dos amazonenses.

Supermercado.