“Era uma tarde quente em Manaus, como todas as outras. As nuvens carregadas escureciam o dia e a lâmpada fluorescente iluminava mal o quarto, projetando sombras nas paredes. Evitei a tentação da cama, o lençol branco confortavelmente sujo e a minha blusa de moletom cor de carvão jogada na cabeceira.

Parecia ser uma daquelas tardes em que nada iria acontecer.

Alcancei o jornal, uma lapiseira, terminei as palavras cruzadas. Horóscopo: fique em casa, não faça nada, descanse. Com um suspiro, levantei e fui tomar café sem açúcar, já um pouco frio. A blusa na cama estava convidativa. Havia perdido meu travesseiro no hotel e comecei a usá-la para quebrar o galho, mas acabara me acostumando.

Evitei pensar nisso, sentei segurando o café e pus os pés sobre a mesa. Os livros me fitaram rancorosos, sabendo de antemão que eu não leria nenhum agora. O jornal estava aberto por acaso na seção policial. Minha atenção foi atraída por uma chamada, mas mudou de idéia e perdeu o interesse.

De repente, algo atingiu o chão com um baque. Era a saboneteira com ‘ventosas infalíveis’ caindo de novo. Praguejei e decidi jogá-la fora depois. Nada como abrir buracos na parede com uma boa e velha furadeira.

Quando voltei o rosto para o jornal, aconteceu. O nada, quero dizer. O dia estava no fim e nada tinha acontecido. Levantei, as mãos no bolso, olhei ao redor e, por puro tédio, comecei a narrar em voz alta no estilo de uma história de detetive:

“Era uma tarde quente em Manaus, como todas as outras. As nuvens carregadas escureciam o dia….