Se meu diário fosse uma flor, ele seria… uma violetinha gótica?
Veja a sua página no organic html (aviso: usa Flash maldito).
Fri 25 Feb 2005
Se meu diário fosse uma flor, ele seria… uma violetinha gótica?
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Thu 24 Feb 2005
Praticamente todo mundo que eu converso se opõe aos meus planos de trocar uma carreira promissora em ciência da computação para ser um professor (pobre) de Letras. Geralmente elas não sabem que, mesmo que eu seguisse com CC, seria um professor acadêmico (pobre) de um jeito ou de outro. Mas gosto dessa oposição toda, ela me deixa cada vez mais entusiasmado com a idéia. Quando fui pra UFPR eram só tapinhas nas costas e “que legal, você passou, agora vai ficar bem de vida”, o que me deixava desconfortável. Agora posso “sair do armário” e interpretar o papel do erudito ou artista que troca as distrações todas da sociedade pela oportunidade de estudar.
Fri 18 Feb 2005
Certa vez li um troll no slashdot.org criticando o deus da ciência da computação, Donald Knuth. Um dos argumentos era: o Knuth estava insatisfeito com a qualidade tipográfica de seus livros, e por isso decidiu escrever seu próprio software de tipografia. Estão vendo com que tipo de perfeccionista neurótico vocês estão lidando? Eu resolveria isso em cinco minutos, ligando para a editora e pedindo: “ei, meus livros estão feios, dá pra melhorar?”. Mas não, o cara foi lá e gastou mais de uma década para escrever seu próprio sistema matematicamente perfeito.
O TeX hoje é usado em mais de 90% dos livros e periódicos de matemática e física. Uma das inúmeras razões pelas quais Knuth é um ídolo meu.
Este perfeccionista neurótico que vos escreve encontrou na pressão por “utilidade” do ambiente empresarial um incômodo inaceitável. As horas extras, tudo bem. Trabalhar sábado e feriado, tudo bem. Não ter tempo para escrever na página, eu já esperava. Lidar com padrões corporativos malfeitos, no problema. Mas com o “faça isso do jeito errado mesmo porque estamos em cima do prazo” eu não consigo conviver. Eu sabia desde o começo que meu negócio é a academia, não o mercado, mas meu limite estourou antes do que pensava.
Estou voltando pra casa mais cedo. Ficarei mais o mês de março para não sair de mãos abanando (gastei quase todo o dinheiro em brinquedos eletrônicos ^^’) e quero passar um mês com a família, lá em Wenceslau (o outono é a melhor estação em minha cidade natal). Depois volto pra Curitiba e espero encontrar um cantinho confortável como o que eu tinha no DInf/UFPR. Liberdade não tem preço.
A única coisa da qual me arrependo é abandonar o curso de japonês no meio. As professoras da Nippaku são excelentes, Kiuchi-sensei e Matsuda-sensei foram as melhores coisas que me aconteceram em Manaus. Mas paciência; mesmo que ficasse até o fim, teria que voltar para casa antes para pegar a matrícula da Universidade a tempo.
Então, pessoal de Manaus, em abril deixo a cidade; família, passarei esse mês com vocês; e amigos de Curitiba, em maio estou de volta.
Thu 17 Feb 2005
Um amigo, o José Marins, escreveu para a Caqui um ensaio sobre Helena Kolody e sua relação com haiku, ou melhor, com haicais. Leitura intessante. Leiam.
Fiquei curioso para saber como se escreve o “nome de haicaísta”, reika, que ele menciona. Só com essa leitura on não pude encontrá-los (existem centenas de caracteres “rei”, e centenas de “ka”). Uma foto seria bem-vinda…
Mon 7 Feb 2005
Quando se vai descrever aos principiantes em língua japonesa o que são os kanji, é comum dizer que são letras que equivalem a palavras. Acho essa uma descrição ruim, já que desespera o pobre estudante quando ele descobre que cada kanji pode significar inúmeras palavras. Pior ainda, eles com freqüência são apenas parte de palavras.
Uma explicação mais precisa é a de que os kanji representam idéias, mas isso não diz nada sobre como usá-los na escrita japonesa.
Proponho que os kanji sejam descritos como equivalentes aos radicais gregos e latinos de nossa língua. Um kanji é um desenho representando um conjunto de radicais com o mesmo significado. Vamos usar como exemplo 日, “sol” (note que você precisa ter fontes com caracteres japoneses em seu computador para ler este texto). Considere a seguinte frase em português:
O heliocentrismo propõe que vivemos no sistema solar, girando em torno do sol.
Existem aí dois radicais representando o astro visível durante o dia: o grego “helio” e o latino “sol”. O símbolo 日 é uma representação gráfica com o mesmo significado. Se decidirmos escrever português com kanji, a frase fica:
O 日centrismo propõe que vivemos no sistema 日, girando em torno do 日.
Assim está claro o porquê de um mesmo símbolo ter potencialmente várias leituras, e também que uma leitura pode corresponder a vários símbolos:
Viajava sob o 日, agüentando os solavancos do ônibus.
O “sol” de “solavancos” não tem a ver com o astro, e não poderia ser representado por 日.
Tente ler este exemplo mais complexo, usando 家 (casa, lar) e 水 (água):
Mesmo na seca, o coronel gostava de 日, porque o 家rão usava energia 日lar. Enquanto a Senhora aquecia a 水 do banho, os cortadores de cana sofriam de in日ação, des水tados, deliravam com seus 家 antes de morrer.
Assim ficam claras as razões de pequenos desvios de leitura (水 como “idra” ao invés de “hidro”, em “desidratados”). Está claro também como o contexto ajuda a descobrir a leitura correta (o pronome masculino “seus” obriga 家 a ser lido como “lares” e não “casas”). E o estudante já pega familiaridade com a transparência etimológica da escrita sino-japonesa.
Esse método tem suas desvantagens. É um pouco complicado, não deve ser usado se o aluno não aprecia entender a estrutura das palavras. Também não é muito preciso, já que os kanji costumam acumular mais de um significado relacionado (日 veio a significar também “dia”, 家, “família”). Mas, em casos adequados, é uma primeira explicação interessante e instrutiva.
Mon 7 Feb 2005
Estou terminando agora um macarrão instantâneo tipo kakesoba (掛け蕎麦). A melhor definição que encontrei para o sabor é “totalmente sem gosto, mas muito picante”. Peguei dois potes, para experimentar. Detestei o primeiro e pensei em não comprar mais. O segundo estava uma delícia.
Há algum tempo o Boto trouxe para mim algumas músicas que eu tinha deixado em Curitiba, dentre elas “Kings & Queens”, do Renaissance, uma pérola pouco conhecida. Estusiasmado por ouví-la depois de tanto tempo, perguntei a ele se curtia rock progressivo. Era uma pergunta retórica; o Boto é um cara de bom gosto, e sem dúvida gosta de progressivo, certo?
Errado. Com vontade de falar bem da banda, tentei achar outra pessoa que estivesse disponível na rede, mas para minha surpresa ninguém curtia progressivo. Mais surpreendente ainda foram as opiniões a respeito. “É esquisito”. “Muita viagem”. “Estranho”.
Eu entendo o que é não gostar de uma canção por estar acima dela. Isso acontece quando a letra é prensada, feita em série, com apelos óbvios obrigatórios para o sucesso comercial, os caminhos traçados pelo compositor previsíveis, enfim, a música toda tão simples que se torna desestimulante. Mas é estranho para mim esse sentimento de “não gosto do estilo musical porque não consigo entendê-lo”. Eu vejo isso como um problema do meu lado, não do lado do músico. Em minha experiência, quanto mais dedicação você precisa ter para começar a gostar de um estilo, mais recompensador ele é. Os mais complexos e à primeira vista opacos são justamente os que levam as suas emoções para passeios mais interessantes.
MPB, jazz, clássica, instrumental, há muitas paixões atuais que um dia me foram estranhas e chatas. Lembro de quantas vezes passei pelos doze minutos de Shine on your crazy diamond entediado, mas teimando. Por quê? Porque tinha certeza do resultado. Um belo dia caiu a ficha da música (é algo súbito, como entender uma piada), e hoje ela é uma de minhas favoritas. Atualmente sempre ouço One of these days, Sheep e Shine uma atrás da outra, e cada segundo vale a pena. As três todas têm fichas difíceis de derrubar (esse CD tem ainda umas mais fáceis, Money e Wish you were here, de forma que quando sento para escutá-lo fecho os olhos e só abro depois de uma boa meia hora).
Vejamos o que o tio Nietzsche tem a dizer em Aurora (grifos dele, tradução de Paulo César de Souza):
- É preciso aprender a amar. — Eis o que sucede conosco na música: primeiro temos que aprender a ouvir uma figura, uma melodia, a detectá-la, distingui-la, isolando-a e demarcando-a como uma vida em si; então é necessário empenho e boa vontade para suportá-la, não obstante sua estranheza, usar de paciência com o seu olhar e sua expressão, de brandura com o que é nela singular: — enfim chega o momento em que estamos habituados a ela, em que a esperamos, em que sentimos que ela nos faria falta, se faltasse; e ela continua a exercer sua coação e sua magia, incessantemente, até que nos tornamos seus humildes e extasiados amantes, que nada mais querem do mundo senão ela e novamente ela. — Mas eis que isso não se sucede apenas na música: foi exatamente assim que aprendemos a amar todas as coisas que agora amamos.
Inclusive rock progressivo e kakesoba.
Mon 7 Feb 2005
Preparar comida para mim é especial. Nos trabalhos artísticos acho difícil evitar uma boa dose de vaidade. Quando mostro um desenho, uma foto, um texto, um programa, é como se fosse um pedaço de mim sendo exibido para avaliação; há sempre aquele cheiro de “viu, eu não sou um cara legal”?
Já cozinhar é como dar pedaços de mim para os outros.
Não há absolutamente nenhum sentimento de orgulho próprio. Todo o trabalho é oferecido em dedicação total, feminina mesmo, para quem estou cozinhando para. É por isso que acho tão sem graça cozinhar para mim mesmo, e só consigo se encarar como treinamento.
Uma vez sonhei ser uma figueira gigante na floresta, cuidando de meus frutos o ano inteiro para depois oferecê-los como alimento e sustentar animais e plantas. Isso é a arte de cozinhar.
Mon 7 Feb 2005
Eu era ainda pré-adolescente, sem opinião formada em coisas religiosas, quando caiu em minhas mãos um livrinho católico. Não lembro o nome, mas era da categoria de “bom combate” paranóico: falava de organizações satânicas secretas e coisas assim. Ele também tinha algumas histórias e fábulas cristãs. Uma delas foi marcante, e é a única coisa que ficou em mim do tal livro.
Era sobre o episódio da queda dos anjos. Sabendo dasf ambições de Lúcifer, Jeová vai até ele e pergunta a razão desse comportamento tão ingrato. Então seu pai não o amava? Não lhe dava tudo o que pudesse precisar, em troca de obediência e lealdade? Por que desejava ele ser tão grande quando o próprio criador?
Ao que Lúcifer respondeu simplesmente: “Eu sou aquele que sou”.
Nesse momento o escritor interrompia o fluxo da história para o ensinamento moral. Vejam só que arrogância a de Satanás, dizia. Como ele se atrevia a falar assim com nosso Senhor? Era assim que retribuía o amor divino do Pai?
Como ele tinha coragem de encarar o grande e onipotente Jeová, não com temor e docilidade, mas sendo quem ele era?
Mesmo criança, não pude deixar de sentir uma profunda simpatia pelo diabo com aquela história. Talvez os católicos devessem tirá-la das catequeses. Lembro ainda que o autor mencionava que os anjos caídos aliaram-se a Lúcifer “atraídos pela arrogância do ‘eu sou aquele que sou’”. Pessoalmente, se estivesse lá teria feito o mesmo.