Estou terminando agora um macarrão instantâneo tipo kakesoba (掛け蕎麦). A melhor definição que encontrei para o sabor é “totalmente sem gosto, mas muito picante”. Peguei dois potes, para experimentar. Detestei o primeiro e pensei em não comprar mais. O segundo estava uma delícia.

Há algum tempo o Boto trouxe para mim algumas músicas que eu tinha deixado em Curitiba, dentre elas “Kings & Queens”, do Renaissance, uma pérola pouco conhecida. Estusiasmado por ouví-la depois de tanto tempo, perguntei a ele se curtia rock progressivo. Era uma pergunta retórica; o Boto é um cara de bom gosto, e sem dúvida gosta de progressivo, certo?

Errado. Com vontade de falar bem da banda, tentei achar outra pessoa que estivesse disponível na rede, mas para minha surpresa ninguém curtia progressivo. Mais surpreendente ainda foram as opiniões a respeito. “É esquisito”. “Muita viagem”. “Estranho”.

Eu entendo o que é não gostar de uma canção por estar acima dela. Isso acontece quando a letra é prensada, feita em série, com apelos óbvios obrigatórios para o sucesso comercial, os caminhos traçados pelo compositor previsíveis, enfim, a música toda tão simples que se torna desestimulante. Mas é estranho para mim esse sentimento de “não gosto do estilo musical porque não consigo entendê-lo”. Eu vejo isso como um problema do meu lado, não do lado do músico. Em minha experiência, quanto mais dedicação você precisa ter para começar a gostar de um estilo, mais recompensador ele é. Os mais complexos e à primeira vista opacos são justamente os que levam as suas emoções para passeios mais interessantes.

MPB, jazz, clássica, instrumental, há muitas paixões atuais que um dia me foram estranhas e chatas. Lembro de quantas vezes passei pelos doze minutos de Shine on your crazy diamond entediado, mas teimando. Por quê? Porque tinha certeza do resultado. Um belo dia caiu a ficha da música (é algo súbito, como entender uma piada), e hoje ela é uma de minhas favoritas. Atualmente sempre ouço One of these days, Sheep e Shine uma atrás da outra, e cada segundo vale a pena. As três todas têm fichas difíceis de derrubar (esse CD tem ainda umas mais fáceis, Money e Wish you were here, de forma que quando sento para escutá-lo fecho os olhos e só abro depois de uma boa meia hora).

Vejamos o que o tio Nietzsche tem a dizer em Aurora (grifos dele, tradução de Paulo César de Souza):

  1. É preciso aprender a amar. — Eis o que sucede conosco na música: primeiro temos que aprender a ouvir uma figura, uma melodia, a detectá-la, distingui-la, isolando-a e demarcando-a como uma vida em si; então é necessário empenho e boa vontade para suportá-la, não obstante sua estranheza, usar de paciência com o seu olhar e sua expressão, de brandura com o que é nela singular: — enfim chega o momento em que estamos habituados a ela, em que a esperamos, em que sentimos que ela nos faria falta, se faltasse; e ela continua a exercer sua coação e sua magia, incessantemente, até que nos tornamos seus humildes e extasiados amantes, que nada mais querem do mundo senão ela e novamente ela. — Mas eis que isso não se sucede apenas na música: foi exatamente assim que aprendemos a amar todas as coisas que agora amamos.

Inclusive rock progressivo e kakesoba.