Quando se vai descrever aos principiantes em língua japonesa o que são os kanji, é comum dizer que são letras que equivalem a palavras. Acho essa uma descrição ruim, já que desespera o pobre estudante quando ele descobre que cada kanji pode significar inúmeras palavras. Pior ainda, eles com freqüência são apenas parte de palavras.

Uma explicação mais precisa é a de que os kanji representam idéias, mas isso não diz nada sobre como usá-los na escrita japonesa.

Proponho que os kanji sejam descritos como equivalentes aos radicais gregos e latinos de nossa língua. Um kanji é um desenho representando um conjunto de radicais com o mesmo significado. Vamos usar como exemplo , “sol” (note que você precisa ter fontes com caracteres japoneses em seu computador para ler este texto). Considere a seguinte frase em português:

O heliocentrismo propõe que vivemos no sistema solar, girando em torno do sol.

Existem aí dois radicais representando o astro visível durante o dia: o grego “helio” e o latino “sol”. O símbolo é uma representação gráfica com o mesmo significado. Se decidirmos escrever português com kanji, a frase fica:

O centrismo propõe que vivemos no sistema , girando em torno do .

Assim está claro o porquê de um mesmo símbolo ter potencialmente várias leituras, e também que uma leitura pode corresponder a vários símbolos:

Viajava sob o , agüentando os solavancos do ônibus.

O “sol” de “solavancos” não tem a ver com o astro, e não poderia ser representado por .

Tente ler este exemplo mais complexo, usando (casa, lar) e (água):

Mesmo na seca, o coronel gostava de , porque o rão usava energia lar. Enquanto a Senhora aquecia a do banho, os cortadores de cana sofriam de inação, destados, deliravam com seus antes de morrer.

Assim ficam claras as razões de pequenos desvios de leitura ( como “idra” ao invés de “hidro”, em “desidratados”). Está claro também como o contexto ajuda a descobrir a leitura correta (o pronome masculino “seus” obriga a ser lido como “lares” e não “casas”). E o estudante já pega familiaridade com a transparência etimológica da escrita sino-japonesa.

Esse método tem suas desvantagens. É um pouco complicado, não deve ser usado se o aluno não aprecia entender a estrutura das palavras. Também não é muito preciso, já que os kanji costumam acumular mais de um significado relacionado ( veio a significar também “dia”, , “família”). Mas, em casos adequados, é uma primeira explicação interessante e instrutiva.