Eu era ainda pré-adolescente, sem opinião formada em coisas religiosas, quando caiu em minhas mãos um livrinho católico. Não lembro o nome, mas era da categoria de “bom combate” paranóico: falava de organizações satânicas secretas e coisas assim. Ele também tinha algumas histórias e fábulas cristãs. Uma delas foi marcante, e é a única coisa que ficou em mim do tal livro.

Era sobre o episódio da queda dos anjos. Sabendo dasf ambições de Lúcifer, Jeová vai até ele e pergunta a razão desse comportamento tão ingrato. Então seu pai não o amava? Não lhe dava tudo o que pudesse precisar, em troca de obediência e lealdade? Por que desejava ele ser tão grande quando o próprio criador?

Ao que Lúcifer respondeu simplesmente: “Eu sou aquele que sou”.

Nesse momento o escritor interrompia o fluxo da história para o ensinamento moral. Vejam só que arrogância a de Satanás, dizia. Como ele se atrevia a falar assim com nosso Senhor? Era assim que retribuía o amor divino do Pai?

Como ele tinha coragem de encarar o grande e onipotente Jeová, não com temor e docilidade, mas sendo quem ele era?

Mesmo criança, não pude deixar de sentir uma profunda simpatia pelo diabo com aquela história. Talvez os católicos devessem tirá-la das catequeses. Lembro ainda que o autor mencionava que os anjos caídos aliaram-se a Lúcifer “atraídos pela arrogância do ‘eu sou aquele que sou’”. Pessoalmente, se estivesse lá teria feito o mesmo.