Depois de uma noitada em uma lanhouse decente (forasteiros em Manaus: não queiram conhecer a do shopping Amazonas), sinto-me obrigado a recapitular a impressão que tive de Ragnarök. Isto é, ele está sendo interessante e envolvente.

Parte da diversão, admito, foi que Matsukaze finalmente graduou-se para sua primeira classe. Futuros magos não devem desperdiçar pontos aprimorando habilidades de combate, então você fica fraco durante todo o período de aprendizagem. Depois de sofrer tanto correndo atrás (e apanhando) de Sapos de Rhodda, é delicioso destruí-los à distância com um relâmpago.

Mas o melhor foi interagir mais. Meu desgosto com a linguagem e comportamento dos participantes foi bastante amenizado quando eu me toquei que a maioria é bem jovem. Matsukaze, assim que conseguiu algum poder de ataque, estava ajudando alguns aprendizes a evoluir. O segundo mais velho do grupo era de dezesseis anos, e a jogadora de Marin-chan tem doze! É como jogar RPG com minha irmãzinha.

Num primeiro contato a molecada pode ser bem chata, mas se respiro fundo e conto até dez, meu lado pedagogo encarna com toda força. Poucas horas de trabalho em equipe e eu já notava no pessoal mais disposição para se comunicar em linguagem escrita. Mesmo sendo um jogador novato, acabei assumindo naturalmente a posição de orientador.

Uma idéia do The Heretic que estou pensando em explorar é evitar referências à vida real. Por um lado, foi legal servir de conselheiro emocional para adolescentes tumultuados (jogos servem pra isso mesmo, trabalhar os nós emocionais). Por outro, penso que situações interessantes podem surgir com uma carga maior de interpretação. Falar apenas como Matsukaze, nunca como Leonardo. Entre outras coisas, é uma maneira interessante de exercitar formas pouco comuns de linguagem. Quando você teria na vida real um contexto válido e interessante para dizer “Levá-los-ei à cidade de Prontera, que já se avizinha”?

Soa completamente alienígena com os “flws” da rapaziada, eu sei. Mas eles são tão influenciáveis.

Para a geração atual, os jogos se tornaram símbolos de poder e ambientes de socialização, e a incompreensão adulta sobre este meio de expressão já começa a desaparecer. Não que os críticos tenham mudado de idéia. A maioria dos professores e pais de hoje não fala a linguagem tecnológica por puro comodismo; sequer se dão ao trabalho de tentar jogar alguma coisa (não, você não pode entender do que se trata sem jogar). Disfarçam a falta de interesse com uma suposta ineptitude blasé. Com isso, perdem oportunidades brilhantes de ensino. Felizmente a geração que nasceu e cresceu com os jogos — a minha — está se tornando adulta. Tenho arrepios de imaginar o que poderia fazer com uma escola pública, um laboratório de computação e um jogo como Ragnarök. Uma coisa é um professor que não quer nem saber das histórias com as quais você gasta noite após noite, outra é um professor no nível 99 e líder de clã.