Este é um registro público de minha opinião em uma discussão que sempre tenho com o Boto. Apesar de (até onde sei) ser um naturalista, o Boto acredita que há algo especial, único e constante em cada pessoa — um “eu” fundamental, um Ātman hindu (em contraste com meu Anātman budista). A visão dele ficou aparente no seu código para um clipe da Björk:

# Criamos a Björk. Ela é a mesma em todas as recursões  8)
> bjork = Bjork()

Conhecendo a Björk, não acho que ela concordaria com essa linha. Acredito que ela estaria comigo em achar que a representação mais adequada de uma pessoa é dentro de um loop:

while true:
>    bjork = Bjork.new(bjork)

A cada instante, a Björk deixa de existir para dar origem a uma nova Björk, fundamentada (ou melhor, causada) pela antiga.

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A posição do Boto é de que as pessoas são algo mais do que simplesmente as reações físico-químicas de seus corpos e cérebros (o que na filosofia é conhecido por dualismo; cf. Descartes). Toda vez que conversamos sobre este assunto, a defesa principal dele vem a ser: eu sinto que sou uma coisa única, constante, que percebe o mundo e toma decisões, portanto eu tenho de ser algo assim. Bem, eu não “sinto” nada disso tão claramente, mas para fins de argumentação, vamos supor que sentisse. Ainda assim estaria convencido do contrário. O fato de eu ter uma sensação, intuição ou certeza interna não tem absolutamente nada a ver com a veracidade de uma hipótese. Parafraseando Carl Sagan, minha opinião “visceral” é irrelevante porque minhas vísceras não pensam. Em palavras mais nietzscheanas, é um absurdo esperar que a organização do universo corresponda a caprichos meramente humanos. Ou, para usar a imortal e paulistíssima expressão de Millôr Fernandes, eu sentir ou deixar de sentir alguma coisa não prova porra nenhuma.

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As intuições internas são particularmente duvidáveis quando há uma explicação simples e racional para a sua origem. Qualquer livro de Nietzsche é abundante em exemplos. Um caso particular mas freqüente são as certezas necessárias para a sobrevivência individual. Dentro dos limites da dedução, dá para estar certo de que tais certezas se difundiram na espécie através da seleção natural.

Exemplos diversos de certezas íntimas que eu tenho incluem:

  • A certeza de que algo hostil está me vigiando quando estou sozinho no escuro. Especialmente quando sozinho, no escuro e no mato.
  • A sensação de poder ao beber álcool.
  • A certeza de estar em perigo ao olhar para baixo a partir de uma grande altura, mesmo quando bem protegido.
  • A sensação de vulnerabilidade e desproteção que tenho se alguém me flagra sem roupa, ou em roupas íntimas (embora não de sunga).
  • Se eu pressiono num teclado a sequência ‘a’, ‘Backspace’, e novamente ‘a’, tenho a impressão de que criei um ‘a’, eliminei-o, e criei outro ‘a’. Mas se eu insiro um ‘a’, apago-o pela operação de “recortar” e insiro-o novamente “colando”, minha intuição é de que movi o mesmo ‘a’ individual.
  • E tenho a certeza de que nenhum arroz no mundo é melhor do que o de minha mãe.

Fiz uma seleção de certezas provenientes de diversas origens, com a intenção de mostrar como é fácil gravar tais coisas no inconsciente humano. Algumas são biológicas; o álcool libera no cérebro os compostos químicos que são a sensação de poder. Algumas, sociais: pessoas de outras culturas (ou naturalistas) não sentem nada do que eu sinto ao expor o corpo nu. Algumas são lingüísticas: a intuição sobre a identidade do ‘a’ vem toda do nome que damos para as operações do computador (”apagar”, “recortar”). Algumas vem de experiências pessoais: por mais que estimule um caminho único gravado em meus circuitos cerebrais, não adiantaria muito inscrever o arroz de minha mãe num concurso de culinária.

As certezas mais profundas talvez sejam as instintivas, gravadas permanentemente em nosso wetware. Nossos antepassados que não se sentiam desconfortáveis quando sozinhos na floresta, longe da tribo, à noite, não sobreviveram o bastante para difundir seus genes. Não havia janelas de vidro ou barras de proteção para desenvolvermos um medo de altura seletivo. Tais certezas foram essenciais para a sobrevivência, e ainda são úteis, mas com freqüência estão simplesmente erradas.

Um desses erros, sem fundamento na realidade mas importantíssimo para a sobrevivência de um ser racional, é a própria noção de individualidade: dividir o fluxo contínuo de sensações transitórias em conjuntos de coisas distintas, discretas e duradouras. Não há nada, na realidade, que divida claramente em grupos o carbono que “está” em minha lapiseira e o que “ficou” no papel. Ou os componentes subatômicos que os compunham ontem e que compõe hoje. Porém, a ilusão de que a lapiseira é um objeto distinto e durável é fundamental para que eu possa escrever este ensaio. A ilusão da individualidade é tão fundamental que os seres humanos que não podem sustentá-la (depois de um acidente que danificou certa área do cérebro, por exemplo) são incapazes sequer de raciocinar. Por outro lado, esta ilusão atrapalha pintores e outros artistas, que treinam para suspendê-la voluntariamente e perceber a realidade de forma mais direta. Uma compreensão similar é tida como o objetivo último do budismo.

A certeza de que eu sou constante e individual é um caso particular do erro fundamental de objetos individuais e constantes. Assim como seria impossível eu caçar uma paca se primeiro eu não a identificasse como “paca”, eu não teria como planejar o almoço de amanhã se meus instintos não ordenassem: amais o Leonardo que existirá amanhã assim como amas o Leonardo de agora. Apesar disso, sabemos que no decorrer da vida trocamos várias vezes todas as moléculas que compõe o corpo. A sensação interna de individualidade encaixa-se como uma luva nos requisitos para uma certeza suspeita, a ser contestada pela lógica e pela explicação mais simples.

Errata: aquele texto não é do Millôr. A essa altura eu já deveria ter aprendido. Foi mal, Millôr.