Muitas pessoas têm me perguntado se eu vi o Constantine, o que achei etc., provavelmente por pensarem que o filme teve uma postura inovadora sobre temas cristãos e tal. Eu estou guardando mentalmente minhas opiniões sobre filmes e livros para abrir uma categoria só disso, mas já que vocês estão curiosos, deixa eu falar de Constantine.

Em primeiro lugar, os não-iniciados precisam saber que Constantine é um personagem de uma série de quadrinhos, Hellblazer, publicada sob o selo Vertigo, um dos melhores da produção adulta norte-americana. “Ah, já vi tudo”, o leitor que conhece só o filme está pensando. “O Boiko vai malhar dizendo que o original é melhor.” É exatamente o que pretendo fazer. Em geral não gosto de críticas desse tipo, com freqüência simples desculpas pra dizer “eu sou mais culto porque conheço o original”. Mas existe um caso em que elas se justificam: quando o original é muito bom e pouco conhecido, e o filme é medíocre. Se ninguém falar nada, o nome pode ficar manchado.

É exatamente o caso de Constantine, um filme bonzinho, mas que dificilmente passa da categoria “sessão da tarde”. Hellblazer é obra de gênio. No futuro, quando as HQs receberem enfim o valor que merecem, sem dúvida a série será lembrada como uma manifestação pura do espírito artístico americano (assim como outras da Vertigo). Já o filme, não passa de mais uma produção formulaica holliwoodiana, sem nada de original.

Os três maiores problemas com o filme foram:

  1. Moralidade. A indústria de Hollywood parece ser completamente incapaz de adaptar uma história sem estragá-la com moralismos imbecis, provavelmente porque querem o selo de audiência mais amplo possível. O Constantine original é um anti-herói altamente manipulativo, e com freqüência egoísta, arrastando todos ao seu redor à destruição graças às suas ambições. Por exemplo, no filme a vida dele é salva contra a sua vontade. Nos quadrinhos ele deliberadamente pactua com as forças malignas para ser salvo.
  2. O par romântico. Em nome de todos os demônios dos nove círculos do inferno, por que tinham que colocar um par romântico? Beijo antes da cena do clímax, também? E que tal umas explosões?
  3. O pior de tudo, Keanu Reeves. De todas as pessoas no mundo, Keanu foi a pior escolha possível para o papel. O ator mais sério e certinho de Hollywood para fazer o ocultista mais sarcástico e cínico de toda a Vertigo. Brilhante. Keanu não saberia ser Constantine nem que sua vida dependesse disso, e sua frieza descaracterizou completamente o personagem.

    O Reeves não é nem parecido com o Constantine, caramba. No original ele é loiro e inglês, inspirado no Sting. Alguém como o Brad Pitt teria sido perfeito. A escolha do Reeves foi o mesmo que colocar o Sid Moreira pra fazer o papel de João Grilo.

    Pra ser arrogante de forma mais direta: você achou o personagem Constantine legal? Leu o original? Se não leu, não tem o direito de julgar. O que sobrou dele no filme é uma sombra pálida da personalidade cáustica do encapotado da DC. Leia a HQ, você não vai se arrepender.