Faz calor em Wenceslau. Estamos nas terras-altas, e o outono normalmente é frio e venta muito. Porém, desde quando cheguei está quente, como se o sol da Amazônia me perseguisse. Só trouxe camisetas pretas, e suo muito na ladeira para casa. O povo passa ao meu lado, alegremente não sabendo nada sobre aquecimento global. Meu chaveiro do Bomberman tilinta quando vou pegar água na mochila.
Dias ensolarados em Wenceslau, e fico o tempo todo em casa. Passo o tempo jogando videogame, ou relendo a cópia que tirei da “História de Jaguariaíva”. De vez em quando ligo o notebook, brinco um pouco com ruby, mas evito qualquer atividade produtiva.
Wenceslau, quente. Minha irmãzinha alugou o filme do Cazuza, eu já o tinha visto duas vezes mas assisto de novo. “Eu sempre preferi a preguiça”. Depois fico com vontade de ouvir um CD dele mas não tem, então vou de Raul mesmo. “Love is the answer / I am God spreading cancer / under will, love is the law…” e daí Doors, e Marisa e Maria Rita. Já é de noite. Tiro o gato do colo, arranho a Bruna e cato uma mixirica.
Wenceslau, um sol ardido, mas pelo menos tem brisa. Fui rever uns amigos e acabo descobrindo intolerâncias e preconceitos (”teólogos”, Nietzsche me sussurra em tom de eu-não-te-disse, “nossos inimigos são os teólogos…”). Tropeço e caio com tudo na lama inconsciente de meus medos, trazendo à tona uma vida inteira de segregação; cem turmas, mil colegas maldosos jogam bolinhas invisíveis de papel em mim. A ignorância humana me assombra e intimida, e passo o dia e a noite deprimido no quarto. Uma vez mais me pergunto quanto de minha vida restaria, quantos amigos ainda o seriam se descobrissem quem sou. Tudo perde a importância, não tenho fome, as cores são pálidas, a família são sombras na parede, eu mesmo sou uma sombra, toco as coisas e não as toco. Estou desconectado. Ando pela cidade e as pessoas seguram tochas e garfos, os crentes são a própria Inquisição.
De repente noto que os ossos do pé estão gelados. Está frio em Wenceslau, e ventando muito. Estou em casa.