Tue 26 Apr 2005
Faz calor em Wenceslau. Estamos nas terras-altas, e o outono normalmente é frio e venta muito. Porém, desde quando cheguei está quente, como se o sol da Amazônia me perseguisse. Só trouxe camisetas pretas, e suo muito na ladeira para casa. O povo passa ao meu lado, alegremente não sabendo nada sobre aquecimento global. Meu chaveiro do Bomberman tilinta quando vou pegar água na mochila.
Dias ensolarados em Wenceslau, e fico o tempo todo em casa. Passo o tempo jogando videogame, ou relendo a cópia que tirei da “História de Jaguariaíva”. De vez em quando ligo o notebook, brinco um pouco com ruby, mas evito qualquer atividade produtiva.
Wenceslau, quente. Minha irmãzinha alugou o filme do Cazuza, eu já o tinha visto duas vezes mas assisto de novo. “Eu sempre preferi a preguiça”. Depois fico com vontade de ouvir um CD dele mas não tem, então vou de Raul mesmo. “Love is the answer / I am God spreading cancer / under will, love is the law…” e daí Doors, e Marisa e Maria Rita. Já é de noite. Tiro o gato do colo, arranho a Bruna e cato uma mixirica.
Wenceslau, um sol ardido, mas pelo menos tem brisa. Fui rever uns amigos e acabo descobrindo intolerâncias e preconceitos (”teólogos”, Nietzsche me sussurra em tom de eu-não-te-disse, “nossos inimigos são os teólogos…”). Tropeço e caio com tudo na lama inconsciente de meus medos, trazendo à tona uma vida inteira de segregação; cem turmas, mil colegas maldosos jogam bolinhas invisíveis de papel em mim. A ignorância humana me assombra e intimida, e passo o dia e a noite deprimido no quarto. Uma vez mais me pergunto quanto de minha vida restaria, quantos amigos ainda o seriam se descobrissem quem sou. Tudo perde a importância, não tenho fome, as cores são pálidas, a família são sombras na parede, eu mesmo sou uma sombra, toco as coisas e não as toco. Estou desconectado. Ando pela cidade e as pessoas seguram tochas e garfos, os crentes são a própria Inquisição.
De repente noto que os ossos do pé estão gelados. Está frio em Wenceslau, e ventando muito. Estou em casa.
April 26th, 2005 at 11:11:08
Bem vindo ao grupo dos que sofrem e/ou lamentam intolerâncias e preconceitos gerados em nome de religiões. Você não está sozinho.
April 26th, 2005 at 16:10:55
Hmmm… Acho que sei de onde vem isso. É exatamente como me sinto quando falo de certos assuntos com certas pessoas… sinto “cristalização” de pensamentos. Isso também me faz mal.
Em Curitiba estou usando luvas e tenho frio nas pernas. Não fosse isso, minha motivação estaria ainda pior.
Que os deuses abençoem o frio (ou não…)
May 3rd, 2005 at 15:05:01
Sinto pelo que disse no e-mail mandado do Lopan, quando escrevi que este site era por demais romântico, estava com sono, pobre de mim.
Tudo isso me parece por demais familar, odeio coisas familiares, só servem para porta-retratos, mas você descreveu algo que se passa comigo por tempos em tempos, e de maneira que eu nunca faria sem se tornar de mal gosto. Eu escrevo com extremo mal gosto quando me refiro a preconceito, faço careta e birra, daí, faço de mal gosto.
Também sinto frio, mas escrevo pois minhas mãos estão quentes.
Bom artigo. Boa alma. Você vai pro céu.
June 1st, 2005 at 16:10:00
Ola, achei seu blog num site de busca…
Queria saber aonde vc comprou seu chaveiro do Bomberman!!
To como um louco procurando… Por ele.. por favor me responda!!!!
June 2nd, 2005 at 19:42:00
Amigo, sinto muito, mas deste eu nunca mais acho! Comprei-o ano passado na lojinha de uma rodoviária no interior do Paraná. É um produto japonês datado de 1995, eu não faço idéia de como foi parar lá… eles tinham outras unidades, mas quando voltei pra comprar já estava esgotado.