June 2005


Pois que venha o sofrimento.

Tem de haver choro e ranger de dentes, lógico, senão não é sofrimento de verdade. Tem de haver posts hiena-Hardy-Har-Har destruindo qualquer pretensão de qualidade no weblog, tem de haver apatia e solidão e tristeza profunda. Não fui eu mesmo quem preferiu assim? Desde o momento em que optei pela verdade, sabia que assumia a responsabilidade pelo sofrimento. A verdade! Não a Verdade — como diria Érico Veríssimo — mas a verdade mesmo, com “v” minúsculo. Doa a quem doer, e “sabemos bem como dói, sacrificando crença após crença no altar da verdade”. Agora estou longe demais para voltar, e também não quero mais voltar, obrigado. Antes a angústia, antes o desespero ocasional do que o suicídio progressivo que é uma vida enganando a si mesmo. Negar meus impulsos, reprimir minha vontade, cegar-me à minha natureza, atentar contra a própria vida — não eu! Torna-te quem tu és, torna-te quem tu és, não existe outro mandamento. A verdade dói mas liberta, e eu já voei tão longe.

É um sentimento propício à estação, de qualquer forma. Não dá para aproveitar uma tarde cinza e chuvosa do inverno curitibano sendo feliz em tempo integral. Não dá para curtir de verdade um blues ou um enka sem conhecer as lágrimas da vida.

Venha então, dor, que te espero de braços abertos. Dormirei contigo quantas noites forem necessárias, mas farei questão de cobrar cada minuto em deleite, e com juros de agiota! Com fúria de amante vingativo! Venha com seu melhor golpe, que não cairei facilmente! E mais frases melodramáticas com pontos de exclamação e tudo o mais.

Nos três artigos anteriores eu consegui quebrar todos os recordes de luserismo e autopiedade. Gostaria de parabenrizar a mim mesmo com os seguintes prêmios autocrítica:

Diário de um Saramago: para quem quer ser Saramago mas não chega a Paulo Coelho... Teia de Aranha: para blogs atualizados de vez em nunca Valium: blog tão chato que dá sono Rebelde sem calça: mimado & nervosinho

É quase meia-noite, sou monge eremita no laboratório vazio, os músculos neuronais estão em estado de relaxamento-transe após absorção contínua de dados. Meu subconsciente acaba de enviar uma interrupção ao kernel/self, e creio que consegui condensar o problema todo em uma sentença:

Eu gosto de várias pessoas ao mesmo tempo.

Pronto, eis meu segredo escancarado para o mundo. Uma sentença. Oito palavras. 43 caracteres, contando espaços e o ponto. Fico olhando para a frase, hipnotizado, pixels pretos e mortos sobre uma área branca piscando a 85Hz (freqüência manualmente configurada via xrandr(1x)). Releio e releio e os significados, sons, glifos dançam uma valsa caótica de desassociação e reunião; fonemas, letras, palavras flutuam no ar, por um momento isolados e inofensivos, mas logo tornam a se reunir e o significado conjunto me atinge como um disparo da Change Bazuca. Eu. Gosto. Várias pessoas. Mesmo tempo. Relação 1:n, função não-injetora de sentimento. Toda esta angústia que pressiona meu peito comprimindo-o opressivamente — e todo o sofrimento que causei a tantas pessoas — e também o eco deste sofrimento que ressoa amplificado em mim numa microfonia de desespero — tudo em 43 caracteres! Uma frase para dominar minha vida!

Ó sentença infernal, maldição da própria esfinge de nossa época sem leis!

Gostar, vocês pessoas que não são eu podem não saber o que quero dizer com “gostar”. Os homens que não são eu, em particular, podem pensar que estou falando de sexo: “tenho tesão por várias pessoas mas não quero magoar quem eu gosto”, um dilema clássico. Não é disso que estou falando, não é este o meu problema. Em quase cinco anos de monogamia nunca senti necessidade de outra mulher; uma só me basta, desde que criativa. Não, caros colegas de testosterona, o problema não está na cabeça de baixo, está na de cima, ou em algo no caminho entre as duas, sei lá. “Gostar”, gostar em que sentido? Sabe aqueles cartõezinhos überbregas tipo “amar é”? Querer estar junto, querer conversar? Ficar feliz o resto do dia só de tê-la visto? Desejar mais o bem dela do que o seu próprio? Ter sede de toque, de andar de mãos dadas no parque, de assistir cinema abraçados, deixá-la dormir no ombro? Sorrisão na cara, pernas bambas, agir feito bobo, ficar ouvindo música romântica? Pois é, este gostar, só que com mais de uma pessoa ao mesmo tempo. É fácil não abraçar, não beijar, não ir pra cama. O que não consigo é não me apaixonar, e Deus sabe como me apaixono fácil (o Deus protetor dos ateus, naturalmente).

Dito assim parece tão inocente. Caso você seja um alienígena ou uma IA que criou consciência, talvez não consiga nem perceber como este sentimento é perigoso, como ele explode exponencialmente em um câncer de sofrimento. Para o benefício de entidades não-antropo-psicológicas, explicarei sucintamente. Numa sociedade de Leonardos, de fato não haveria problema algum. Mas as pessoas não são eus, e uma das diferenças primordiais entre “eu” e “as pessoas” é que “eu” não tenho sentimento de posse, e as pessoas têm. E o sentimento de posse significa, basicamente, que dado o conjunto Φ = as pessoas, para todo A, B, C ∈ Φ, se A e B são felizes juntos e B e C são felizes juntos e A sabe que B é feliz com C, A torna-se infeliz. No caso do pobre elemento L que vos fala, L é feliz com N pessoas (onde N>1), mas não é suficiemente hipócrita ou humilde para manter segredo; ∴ L espalha sofrimento com quem quer que se envolva, C.Q.D.

A solução? Existe solução?

  zumbido elétrico
  sessenta oscilações
  em cada aparelho

    oscilam também as lágrimas
    nesta noite de inverno.
  • Gosto de campo. Não gosto de cidade.
  • Etiqueta é bom; impede que você se machuque. Tradição é bom: dá sentido para os atos (que são necessários mas sem sentido).
  • É mais seguro se relacionar com gatos, computadores, livros ou videogames do que com seres humanos.
  • Gosto de tocar (coisas, pessoas, o mundo em geral). Gostaria de poder tocar mais.
  • Não é que eu seja anti-social. Na verdade é o contrário: sou hipersocial. Seja qual for o “nervo” responsável pela empatia, em mim ele nasceu exposto. Mesmo pequenas demonstrações de reprovação ou desinteresse são capazes de me derrubar por semanas. O isolamento é uma conseqüência natural; as pessoas machucam, então me distancio delas. Isto tem sido constante desde quando me lembro por gente. O engraçado é que a sensação de distância não engloba simplesmente pessoas mas toda a realidade; tudo parece remoto, pálido, um mundo de sombras; nada é satisfatório ou mesmo interessante.
  • Minha mente é um dragão de oito cabeças, pegando as palavras como um polvo, quebrando-as, comendo-as: solidão, a-pa-ti-a, des-in-te-res-se. Mas quando entro em away a própria mente parece fraca e reduzida, assim como as funções vitais (apetite, etc.)
  • A angústia é provocada por relações humanas, mas não parece ser causada por elas. Não consigo identificar nenhuma causa mental; minha personalidade e lembranças parecem estar fora da história toda. É como se fosse um problema biológico, algum receptor de serotonina danificado, desbalanço hormonal, algo que comi ou influência do clima.

Hadit diz: “Eu estou só. Não há nenhum deus onde eu estou”. Eu estou só, não há nenhum deus onde eu estou. Não há amigos onde estou. Não há carreira nem dinheiro. Não há objetivos, não há Japão nem treino. Não há namorada, família. Não há inferno ou reencarnação, alma ou suicídio. Não há rebeldia nem obediência, dor nem alegria. Não há nada com que se identificar, nada do que fazer parte, em que se agarrar, repousar a mente. Não há abrigo, casa, pátria-mãe, nunca houve, não tem como haver.

Tudo se foi e sobrou um vazio tenso, indesejado.

Feliz solstício de inverno!

Observação rasteira: nesta foto eu ganhei os (não-)olhos do Sonho.

Está se aproximando o Imim Matsuri (o festival da imigração japonesa) de 2005 e eu estou em Curitiba, então estarei lá trabalhando pelo pessoal do chá, como de costume. Apareçam tomar um amazake.

A novidade é que desta vez participarei de uma demonstração da cerimônia do chá, junto com Aline-chan. Depois de dois anos treinando finalmente vou experimentar um quimono de verdade ^.^~chu

Convido os amigos que tenham interesse. O festival será durante os dias 18 e 19 (sábado e domingo) de manhã à noite, e a minha apresentação no domingo às 12:30.

1. É só isso

No começo você não tem escolha. Eles te mandam passar o dia em um lugar seguro, porque eles estão ocupados e não podem tomar conta. O lugar seguro é controlado, mas muito chato; você fica horas sentado sem fazer nada. A maioria das pessoas é estúpida e entende essa chatice como uma propriedade inerente à vida. Elas continuam sentadas, “envelhecem, trabalham, e morrem. Antes de morrer têm filhos, que envelhecem, trabalham, e morrem, e antes de morrer têm outros filhos.”

É diferente quando você é curioso. Você começa a estudar as engrenagens e mecanismozinhos da máquina. Nadar dentro do labirinto. Tem todo um jogo gigante de interesses e poderes, com células de vários níveis competindo ou cooperando e alianças e inimizades mudando o tempo todo. Tem um zilhão de coisas para ocupar a mente, algumas mais cativantes, outras tediosas. Dependendo dos seus interesses eles te pegam pra dedicar atenção em algumas das coisas tediosas, e com isso você ganha sua própria fatia de torta. Bilhetinhos de parques de diversões. Você anda por aí sem rumo, pelas ruas, compra brinquedos caros e esquece deles no dia seguinte, come em restaurantes por falta do que fazer. O dinheiro nunca acaba, sempre tem alguma máquina para ser engrenagem, algum diabinho pra negociar. Você não se interessa realmente em jogar a sério e anda por aí sem rumo, living lavishly pelas ruas, deitando com uma prostituta de cada vez. Somos escravos da preguiça e tédio, não suportamos ficar sem fazer nada e não queremos fazer coisa alguma. E daí você morre.

2. Paradise lost

Eu olho para nossos velhos grilhões, para as coisas das quais nos livramos com tanto esforço e sangue — família, papéis sexuais, trabalho, religião, repressão, censura, reasons why — e penso que qualquer coisa importante ficou para trás e está fazendo falta. Algo que estava onde ninguém reparou, nem as pessoas de antigamente, nem a révolution. Não, senhores anacrônicos, não estava naquilo que os antigos achavam importante — nem na fé, nem nas explicações cosmológicas, nem no medo do diferente, e definitivamente nem um pouco na moralidade. Estava justamente nas coisas que eles consideravam supérfluas: as imagens e os rituais. Descobrimos que o conteúdo do presente era uma bomba e o jogamos fora, mas a embalagem era puro ouro.

(É por isso que os evangélicos não têm alma. A coisa mais importante que os católicos fizeram foram as estátuas, os vitrais, os sacramentos. Camponeses que não conhecem arte, os evangélicos nos dão só a parte inútil.)

“Torne-se você mesmo”. Então eu devo ser um arqueólogo e fuçar as ruínas do mundo que acabou.

Embora continue achando que minha câmera tem um custo-benefício maravilhoso, e esteja muito agradecido de ter uma macro bacana (exemplos meus: 1, 2, 3) para sua faixa de preço, de uns tempos pra cá tenho sentido certas limitações:

  • Queria fotografar o céu maravilhoso de uma noite de lua nova no mato, longe de luzes, para mostrar para meus colegas urbanos. Infelizmente quinze segundos de exposição foram muito pouco. Eu gostaria muito de uma opção “T”…
  • Com freqüência desejo uma abertura menor que f/8.
  • O zoom é fraquinho. Tirar fotos de pássaros é impossível.
  • Seria legal se fosse possível colocar um flash externo. Se bem que eu provavelmente não gastaria dinheiro com isso mesmo, mas é chato não ter nem a opção.
  • Impressão minha ou o barulho aumenta demais com sensitividade ISO mais rápida? Quase sempre eu quero usar só ISO 50… será um problema de câmeras digitais em geral? Ou (oxalá) só deste modelo?
  • E a telinha LCD vive me enganando, porque as imagens parecem mais brilhantes do que são. Ou não? Como será que os fotógrafos de verdade lidam com isso? Os ajustes de brilho, cor, contraste de uma digital dependem do monitor no qual você vê as fotos.

Talvez eu devesse entrar em um curso, mas temo que não haja tempo. Fui convidado a fazer iaidô; se aceitar, com iaidô, kendô, chadô, japonês, estágio e faculdade não deve sobrar horários para estudar fotografia…

um gigahert, um e meio, dois, e
mais rápido, além; cpu-scale
meu ser, adrenalina e agp,
fibra ótica em meu cérebro, corpo —
zero volts e cinco volts, yin e yang,
sessenta e quatro bits, mil e vinte e
quatro megas, duzentas e cinqüenta
e seis mágoas, complemento de dois —
sugue meu sangue, sereia maldita,
entupa o vazio de minhas veias
com tuas serpentes de cobre e plástico —
minhas sinapses pulsam, encantadas
na batida do tambor de cristal
que é teu coração, quartzo luminoso.

Hoje:

  • A Apple anunciou que vai migrar pra Intel
  • Saiu o Debian sarge
  • Depois de quatro anos em Curitiba, finalmente comi um X-pastel
  • Com o modem ADSL que comprei, meu AMD64 poderoso, o seiryuu, está completo
  • E saí da inércia, começando a trabalhar na UFPR (bem, quase começando)

A propósito, atualizei a galeria provisória com fotos novas, aumentei um pouquinho o tamanho e virei as imagens que precisavam ser viradas (grato exiftran).

Eu não consigo encontrar um software de geração de galeria de fotos que me agrade. Não queria escrever o meu próprio, mas…

Só para deixar alguma coisa disponível, joguei umas fotos no qdig. Estão totalmente desorganizadas, sem álbuns ou comentários. A data das galerias é a data em que tirei as fotos da câmera, não a data das fotos. O que eu queria mesmo era algo como o zoph, mas menos orientado a usuário (não quero forçar os visitantes a um “usuário anônimo” só para ver fotos…). E, claro, multilíngua e XHTML.

O endereço da minha galeria provisória é http://namakajiri.net/old/gallery. As fotos em full size na verdade estão com menos de 50% do original, para economizar espaço no provedor. Se alguém quiser o original de alguma foto é só pedir.

Porque é tão difícil encontrar um weblog multilíngua e que respeite os padrões W3C? Porque é tão difícil encontrar um construtor de galerias multilíngua e XHTML? Será que sou só eu que tenho amigos falando vários idiomas diferentes?