1. É só isso

No começo você não tem escolha. Eles te mandam passar o dia em um lugar seguro, porque eles estão ocupados e não podem tomar conta. O lugar seguro é controlado, mas muito chato; você fica horas sentado sem fazer nada. A maioria das pessoas é estúpida e entende essa chatice como uma propriedade inerente à vida. Elas continuam sentadas, “envelhecem, trabalham, e morrem. Antes de morrer têm filhos, que envelhecem, trabalham, e morrem, e antes de morrer têm outros filhos.”

É diferente quando você é curioso. Você começa a estudar as engrenagens e mecanismozinhos da máquina. Nadar dentro do labirinto. Tem todo um jogo gigante de interesses e poderes, com células de vários níveis competindo ou cooperando e alianças e inimizades mudando o tempo todo. Tem um zilhão de coisas para ocupar a mente, algumas mais cativantes, outras tediosas. Dependendo dos seus interesses eles te pegam pra dedicar atenção em algumas das coisas tediosas, e com isso você ganha sua própria fatia de torta. Bilhetinhos de parques de diversões. Você anda por aí sem rumo, pelas ruas, compra brinquedos caros e esquece deles no dia seguinte, come em restaurantes por falta do que fazer. O dinheiro nunca acaba, sempre tem alguma máquina para ser engrenagem, algum diabinho pra negociar. Você não se interessa realmente em jogar a sério e anda por aí sem rumo, living lavishly pelas ruas, deitando com uma prostituta de cada vez. Somos escravos da preguiça e tédio, não suportamos ficar sem fazer nada e não queremos fazer coisa alguma. E daí você morre.

2. Paradise lost

Eu olho para nossos velhos grilhões, para as coisas das quais nos livramos com tanto esforço e sangue — família, papéis sexuais, trabalho, religião, repressão, censura, reasons why — e penso que qualquer coisa importante ficou para trás e está fazendo falta. Algo que estava onde ninguém reparou, nem as pessoas de antigamente, nem a révolution. Não, senhores anacrônicos, não estava naquilo que os antigos achavam importante — nem na fé, nem nas explicações cosmológicas, nem no medo do diferente, e definitivamente nem um pouco na moralidade. Estava justamente nas coisas que eles consideravam supérfluas: as imagens e os rituais. Descobrimos que o conteúdo do presente era uma bomba e o jogamos fora, mas a embalagem era puro ouro.

(É por isso que os evangélicos não têm alma. A coisa mais importante que os católicos fizeram foram as estátuas, os vitrais, os sacramentos. Camponeses que não conhecem arte, os evangélicos nos dão só a parte inútil.)

“Torne-se você mesmo”. Então eu devo ser um arqueólogo e fuçar as ruínas do mundo que acabou.