Tue 28 Jun 2005
É quase meia-noite, sou monge eremita no laboratório vazio, os músculos neuronais estão em estado de relaxamento-transe após absorção contínua de dados. Meu subconsciente acaba de enviar uma interrupção ao kernel/self, e creio que consegui condensar o problema todo em uma sentença:
Eu gosto de várias pessoas ao mesmo tempo.
Pronto, eis meu segredo escancarado para o mundo. Uma sentença. Oito palavras. 43 caracteres, contando espaços e o ponto. Fico olhando para a frase, hipnotizado, pixels pretos e mortos sobre uma área branca piscando a 85Hz (freqüência manualmente configurada via xrandr(1x)). Releio e releio e os significados, sons, glifos dançam uma valsa caótica de desassociação e reunião; fonemas, letras, palavras flutuam no ar, por um momento isolados e inofensivos, mas logo tornam a se reunir e o significado conjunto me atinge como um disparo da Change Bazuca. Eu. Gosto. Várias pessoas. Mesmo tempo. Relação 1:n, função não-injetora de sentimento. Toda esta angústia que pressiona meu peito comprimindo-o opressivamente — e todo o sofrimento que causei a tantas pessoas — e também o eco deste sofrimento que ressoa amplificado em mim numa microfonia de desespero — tudo em 43 caracteres! Uma frase para dominar minha vida!
Ó sentença infernal, maldição da própria esfinge de nossa época sem leis!
Gostar, vocês pessoas que não são eu podem não saber o que quero dizer com “gostar”. Os homens que não são eu, em particular, podem pensar que estou falando de sexo: “tenho tesão por várias pessoas mas não quero magoar quem eu gosto”, um dilema clássico. Não é disso que estou falando, não é este o meu problema. Em quase cinco anos de monogamia nunca senti necessidade de outra mulher; uma só me basta, desde que criativa. Não, caros colegas de testosterona, o problema não está na cabeça de baixo, está na de cima, ou em algo no caminho entre as duas, sei lá. “Gostar”, gostar em que sentido? Sabe aqueles cartõezinhos überbregas tipo “amar é”? Querer estar junto, querer conversar? Ficar feliz o resto do dia só de tê-la visto? Desejar mais o bem dela do que o seu próprio? Ter sede de toque, de andar de mãos dadas no parque, de assistir cinema abraçados, deixá-la dormir no ombro? Sorrisão na cara, pernas bambas, agir feito bobo, ficar ouvindo música romântica? Pois é, este gostar, só que com mais de uma pessoa ao mesmo tempo. É fácil não abraçar, não beijar, não ir pra cama. O que não consigo é não me apaixonar, e Deus sabe como me apaixono fácil (o Deus protetor dos ateus, naturalmente).
Dito assim parece tão inocente. Caso você seja um alienígena ou uma IA que criou consciência, talvez não consiga nem perceber como este sentimento é perigoso, como ele explode exponencialmente em um câncer de sofrimento. Para o benefício de entidades não-antropo-psicológicas, explicarei sucintamente. Numa sociedade de Leonardos, de fato não haveria problema algum. Mas as pessoas não são eus, e uma das diferenças primordiais entre “eu” e “as pessoas” é que “eu” não tenho sentimento de posse, e as pessoas têm. E o sentimento de posse significa, basicamente, que dado o conjunto Φ = as pessoas, para todo A, B, C ∈ Φ, se A e B são felizes juntos e B e C são felizes juntos e A sabe que B é feliz com C, A torna-se infeliz. No caso do pobre elemento L que vos fala, L é feliz com N pessoas (onde N>1), mas não é suficiemente hipócrita ou humilde para manter segredo; ∴ L espalha sofrimento com quem quer que se envolva, C.Q.D.
A solução? Existe solução?
zumbido elétrico
sessenta oscilações
em cada aparelho
oscilam também as lágrimas
nesta noite de inverno.
June 29th, 2005 at 12:11:36
Como diria o Leão da Montanha: “saída extratégica para a esquerda”
June 29th, 2005 at 12:15:58
chocolate…
June 29th, 2005 at 17:18:19
L não espalha sofrimento. Na verdade, como foi posto anteriormente, “A torna-se infeliz”: veja, “torna-se”, não “é tornado”.
Eu tenho todo essa amor vazando pelos meus poros e ele não gasta, nunca, não acaba, não é como se tantos porcento do meu tempo mental pudesse ser gasto com gente e tantos porcento com trabalho e tantos porcento com mentiras e tantos porcento com comida, e se eu tenho A e B pra pensar, penso menos em C. Ou gosto menos, ou tenho menos gostar pra gastar (como soou bem).
Se eu estivesse em casa agora, eu até colocava um trechinho do Livro do Desassossego, que diz algo como “Quem ama quer a posse, mas não sabe o que é a posse” e, bem, resumindo, o fragmento fala de que não se pode ter um corpo ou uma alma, porque “entre alma e alma há o abismo de serem almas” (havendo interesse, posso mandar por email).
Mas. Enfim. Gente. Como você disse, o desejo não é hormonal, sexo, tesão, meu-deus-quero-pegar, é um desejo tão maior, tão entranhado. Se fosse só sexo era aquele negócio de “relaxa e goza”, mas não é, e está longe de ser.
June 30th, 2005 at 13:44:21
…com rum ;)
June 30th, 2005 at 18:10:06
K., seu input é sempre muito appreciated.
Mor, fim de semana… chocolate, heim? :)
Ah, sim, metainfo do versinho (antes que eu me esqueça): waka, porque não dá pra fazer haiku com este tema, e naturalmente de inverno. É uma tradução direta do conteúdo do texto (sofrimento + laboratório). A métrica está tradicional, atentando para a crase em “ca/da a/pa/re/lho”. Feito em pouco tempo (levei uma hora para escrever o texto mais o poema), aliterações em /s/ e /z/, mais o /n/ do último verso. E no fim eu não gostei do resultado :p
July 1st, 2005 at 16:38:50
Antes sobre amor…