Wed 3 Aug 2005
Ultimamente estou usando o weblog como bloco de notas. Talvez devesse colocar essas coisas no meu del.icio.us, mas vá lá. A citação de hoje tem a ver com um problema que encontro com freqüência. Místicos e religiosos, ao se depararem com sistemas de pensamentos diferentes dos seus, tendem a cair em uma de duas atitudes: rejeição violenta, ou aceitação superficial. Os que se dão conta de como doutrinas diferentes são perigosas umas para as outras — cada uma “puxa” o praticante para um lado — simplesmente agarram-se à sua própria e recusam-se a admitir o valor de qualquer outra. Outros percebem a irracionalidade de tal reação, mas não querem renunciar a suas crenças particulares; então, apelam pra cegueira voluntária. Com doublethinking pode-se ignorar as diferenças gritantes na essência de cada ensinamento, pode-se enxergar apenas as superficialíssimas semelhanças e chegar a uma conclusão nova-era: “todos os caminhos levam pro mesmo lugar”.
Tipo, não levam. Está errado. Parem de dizer isso. Ficar repetindo uma mentira não a tornará realidade.
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Existem muitas maneiras de dividir e classificar sistemas de pensamento, mas a minha favorita é em “do céu” e “da terra”. Religiões e doutrinas “do céu” desprezam a vida do dia-a-dia; elas são a fonte da conotação pejorativa que existe em “mundano”, “terreno”, “material”. Elas buscam escapar da realidade através do “céu”, de paraísos, conhecimentos ocultos, coisas invisíveis, astral, magia, salvadores, redenção, ideais — em uma palavra, fantasias. Já as “da terra” fazem precisamente o contrário: encorajam o seguidor a vencer o próprio receio, tomar coragem e mergulhar na realidade até a cabeça.
De um lado do ringue, temos cristianismo, judaísmo, islamismo, esoterismo moderno, grupos salvacionistas, ascetas, hindus, Platão, Kant. De outro, budismo, taoísmo, ateísmo, Epicuro, Nietzsche. A divisão não é completamente acurada, e os integrantes de cada grupo são tão diferentes entre si quanto feijão e aveia, mas ainda assim a idéia serve para ilustrar algumas diferenças importantes.
Por exemplo, quase sempre as doutrinas “do céu” chegam a uma lei moral bem definida, com bem e mal absolutos. E quase sempre as doutrinas “da terra” reconhecem a relatividade, transitoriedade e inadequação de rótulos morais. O exemplo abaixo é um ponto de vista muito bonito do Crowley. Quem disser que é a mesma coisa que cristianismo leva uma bicuda.
There is beauty in every incident of life; the true and the false, the wise and the foolish, are all one in the eye that beholds all without passion or prejudice: and the secret appears to lie not in the retirement from the world, but in keeping a part of oneself Vestal, sacred, intact, aloof from that self which makes contact with the external universe. In other words, in a separation of that which is and perceives from that which acts and suffers. And the art of doing this is really the art of being an artist. As a rule, it is a birthright; it may perhaps be attained by prayer and fasting; most surely, it can never be bought. But if you have it not. This will be the best way to get it — or something like it. Give up your life completely to the task; sit daily for six hours in the Old Absinthe House, and sip the icy opal; endure till all things change insensibly before your eyes, you changing with them; till you become as gods, knowing good and evil, and that they are not two but one.
August 4th, 2005 at 09:15:23
Uh… o que eu faço quando meu modelo de mundo tem características que poderiam fazê-lo parecer pertencer tanto a um conjunto quanto de outro?
No meu modelo de mundo há o “lado de fora da matrix”, que seria “mais real” (e que não sei detalhar a essência), mas (espero) estou longe de deixar de encarar a realidade, e ainda rejeito qualquer coisa que não tenha partido de observações[1] da realidade.
Resumindo, eu ainda estou tentando procurar a diferença básica que define os dois conjuntos, para entender melhor. Sem um parâmetro que defina os dois conjuntos, eu não consigo assumir que existam dois conjuntos distintos assim.
[1] Não vale dizer que a minha posição de “acho que sou um ponto que observa porque me sinto como tal” contradiz o que eu disse. Considero o “sinto que sou um ponto” como uma observação, também. Pouco confiável como qualquer outra obtida através dos sentidos (menos confiável, eu diria), mas ainda entra no meu conceito de “observação”. Infelizmente não parece haver outro tipo de “observação” que poderia dar um indício mais conclusivo sobre a questão do “há um ponto que observa”. Bom, isso já é uma questão discutida demais.
(Descobri ontem que, na maior parte do meu discurso, eu estava adontando, sem conhecer, uma espécie de versão em português do E-Prime. Não com as mesmas restrições, mas com os mesmos objetivos.)
August 4th, 2005 at 09:47:22
A crença na existência de um mundo além deste não define um sistema como “do céu”, e sim a preferência por aquele mundo. Crowley acreditava em zilhões de coisas ocultas, mas como se vê pelo trecho acima, amava apaixonadamente a vida objetiva do dia-a-dia. No budismo clássico existem seis planos, inclusive paraíso e inferno, mas diz-se que o budista não deve se incomodar com outros planos e deuses e sim tentar viver com atenção “nesta vida, neste corpo”. Compare com o cristianismo “o diabo é o senhor deste mundo, busque primeiro o céu” ou hinduísmo “o mundo é a ilusão de maya, pratique ascetismo”.
Assim, a classificação do seu sistema vai depender do quanto pesa a sua crença de que o outro mundo é “mais real”. Se ele é “mais real” o bastante para que você deva dar preferência a ele do que ao mundo objetivo, então o sistema pesa mais para o “céu”.
August 4th, 2005 at 10:03:38
NMMDM[1], ambos são igualmente reais. O “lado de fora” “importa mais”. Mas “aqui” é tão importante quanto um laboratório em uma escola ou faculdade. Você é um aluno, e usa esse laboratório para aprender. O que importa é o que você fará com o que aprendeu, e não o laboratório, mas quem não usar as ferramentas que tem aqui, nunca vai aprender o suficiente para fazer algo no “mundo real”.
Talvez eu esteja trapaceando. Até o momento o modelo de mundo apresentado é bastante fiel ao que há em minha cabeça, mas o objetivo aqui é apresentar um modelo de mundo “o mais intermediário possível”. A divisão em dois conjuntos tão distintos pareceu pouco próxima da realidade, à primeira vista. E o que quero é: ou encontrar contradições no meu modelo de mundo “intermediário”, notando que em algum lugar ele acabará indo para um dos dois conjuntos; ou perceber que os dois conjuntos não são tão distintos assim, e sim há uma reta onde cada modelo de mundo encontra uma posição. Vamos ver o resultado. 8)
[1] “No Meu Modelo de Mundo”
August 4th, 2005 at 10:13:49
Com certeza há uma reta (e.g. ateísmo ou Nietzsche não têm outros mundos, budismo tem outros mundos mas não importam muito, e Crowley tem outros mundos que importam tanto quanto este). Eu pensei ter deixado claro desde o começo que a divisão é arbitrária, não bate bem com algumas coisas (como taoísmo, que é difícil de enquadrar) e que cada sistema é completamente diferente dos outros (o que é meu ponto desde o começo). São grupos fuzzy. Se você se sente bem no meio, não está muito diferente de várias filosofias ocultistas (neopaganismo, por exemplo), ou de certos grupos cristãos minoritários. Passando um ponto da reta, os mundos imaginários passam a importar mais do que o real.
A minha divisão em dois grupos serve principalmente para separar atitudes. Quanto mais você dá ênfase ao “céu” em detrimento à “terra”, maior a chance de Idade das Trevas. Quanto mais você é focado em ideais ou moralidade, maior a chance de Cruzadas. E o meu palpite — é um palpite, não tenho argumentação para isso — é que quando mais você dá ênfase ao “céu”, maior vai ser o subconjunto da realidade que você rejeita por razões morais.
August 4th, 2005 at 10:16:11
Como exemplo (arriscado), Crowley e budismo clássico podem ser considerados mais morais do que taoísmo e budismo zen, e estes mais morais do que Nietzsche. Mas qualquer um desses tem uma atitude em relação à moral fundamentalmente diferente de qualquer grupo do “céu”. Meu palpite é que isto não é coincidência.
August 4th, 2005 at 10:36:47
Bah, então concordávamos desde o início? Que sem graça. 8)
A minha rejeição por divisão em conjuntos quando na verdade a classificação é um continuum é como uma generalização da sua idéia de que certos modelos tendem a levar a coisas com a Idade das Trevas ou as Cruzadas. Porque, além de concordar com a idéia citada, eu também acho que quando dividimos a coisas em conjuntos quando na verdade eles não existem - principalmente quando é para destacar desvantagens de algum dos conjuntos - maior a chance de querermos combater os elementos considerados “do outro conjunto” quando na verdade, eles só estão em um ponto diferente de você na reta, como todos os outros. Aí, em vez de combater os “que estão demais à direita na reta, correndo o risco de ser prejudiciais”, corremos o risco de querer combater “todos os que estão à direita de nós na reta”.
August 4th, 2005 at 11:41:40
Trapaceio também: estou dizendo que há uma reta, mas que tem um ponto a partir do qual a coisa inverte (ou seja, que há dois conjuntos). É como uma reta dos reais: um ponto zero, os que eu não gosto à esquerda e os que gosto à direita. O ponto zero é dar valor igual à realidade e a mundos imaginários. A partir do momento em que um grupo dá mais valor para o “céu” que para a “terra”, eu passo a ter medo dele. Assim, eu quero combater (na verdade, quero me esconder de) todos os grupos à esquerda do zero.
October 3rd, 2005 at 21:03:43
“A verdade é Deus e Deus é a verdade” Substitua sempre em qualquer citação a palavra Deus pela palavra verdade e a palavra mentira e veráis como fará sentido.
“O diabo é o senhor deste mundo, busca primeiro o céu.”
significa que a mentira e o erro são senhores deste mundo (porque a humanidade se desviou) e que busquem primeiro a verdade para depois tentarem resolver seus problemas. É como dizer, estás esperando que os problemas (erros) do mundo se resolvam sozinhos para depois procurar acertar quando devias fazer ao contrário.
Entendam que as mensagens da bíblia em sua maioria (quando falam de anjos, demonios e outras divindades) estão em sentido figurativo e o erro da maioria é interpretá-lo ao pé da letra, como se houvesse mesmo uma cidade nas nuvens cheia de anjinhos que as pessoas vão lá quando morrem e Deus os julga como se fosse um juiz de tribunal, etc.;
Outro bom exemplo seria o livro do apocalipse que suas mensagens são exclusivamente figurativas, a batalha de anjos e demonios seria a batalha entre justos e injustos, pode-se dizer que é entre sistemas economicos justos e injustos (Capitalismo X Socialismo) mas também pode ter várias outras interpretações.No velho testamento se fazem várias referências aos homens que adoram falsos ídolos e como são condenáveis, a maioria que lê essa parte pensa que estão falando sobre outras religiões que são diferentes e os antigos tinham preconceito contra elas. Na verdade o significado é bem diferente, o sentido figurativo predomina, os falsos ídolos significam os falsos valores que os homens adoravam como, o poder bélico, a riqueza material, a fama,o pouco trabalho com muito retorno, a beleza exterior e feiura interior, etc.;
Enfim as citações bíblicas fazem mais sentido se as intepretarmos, e todas as religiões falam mais-ou-menos a mesma coisa, só que com meios figurativos diferentes, os homens a interpretam ao pé da letra e por isso acham que são ideologias diferentes, encontrando nisso motivo para a guerra.