Ultimamente estou usando o weblog como bloco de notas. Talvez devesse colocar essas coisas no meu del.icio.us, mas vá lá. A citação de hoje tem a ver com um problema que encontro com freqüência. Místicos e religiosos, ao se depararem com sistemas de pensamentos diferentes dos seus, tendem a cair em uma de duas atitudes: rejeição violenta, ou aceitação superficial. Os que se dão conta de como doutrinas diferentes são perigosas umas para as outras — cada uma “puxa” o praticante para um lado — simplesmente agarram-se à sua própria e recusam-se a admitir o valor de qualquer outra. Outros percebem a irracionalidade de tal reação, mas não querem renunciar a suas crenças particulares; então, apelam pra cegueira voluntária. Com doublethinking pode-se ignorar as diferenças gritantes na essência de cada ensinamento, pode-se enxergar apenas as superficialíssimas semelhanças e chegar a uma conclusão nova-era: “todos os caminhos levam pro mesmo lugar”.

Tipo, não levam. Está errado. Parem de dizer isso. Ficar repetindo uma mentira não a tornará realidade.

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Existem muitas maneiras de dividir e classificar sistemas de pensamento, mas a minha favorita é em “do céu” e “da terra”. Religiões e doutrinas “do céu” desprezam a vida do dia-a-dia; elas são a fonte da conotação pejorativa que existe em “mundano”, “terreno”, “material”. Elas buscam escapar da realidade através do “céu”, de paraísos, conhecimentos ocultos, coisas invisíveis, astral, magia, salvadores, redenção, ideais — em uma palavra, fantasias. Já as “da terra” fazem precisamente o contrário: encorajam o seguidor a vencer o próprio receio, tomar coragem e mergulhar na realidade até a cabeça.

De um lado do ringue, temos cristianismo, judaísmo, islamismo, esoterismo moderno, grupos salvacionistas, ascetas, hindus, Platão, Kant. De outro, budismo, taoísmo, ateísmo, Epicuro, Nietzsche. A divisão não é completamente acurada, e os integrantes de cada grupo são tão diferentes entre si quanto feijão e aveia, mas ainda assim a idéia serve para ilustrar algumas diferenças importantes.

Por exemplo, quase sempre as doutrinas “do céu” chegam a uma lei moral bem definida, com bem e mal absolutos. E quase sempre as doutrinas “da terra” reconhecem a relatividade, transitoriedade e inadequação de rótulos morais. O exemplo abaixo é um ponto de vista muito bonito do Crowley. Quem disser que é a mesma coisa que cristianismo leva uma bicuda.

There is beauty in every incident of life; the true and the false, the wise and the foolish, are all one in the eye that beholds all without passion or prejudice: and the secret appears to lie not in the retirement from the world, but in keeping a part of oneself Vestal, sacred, intact, aloof from that self which makes contact with the external universe. In other words, in a separation of that which is and perceives from that which acts and suffers. And the art of doing this is really the art of being an artist. As a rule, it is a birthright; it may perhaps be attained by prayer and fasting; most surely, it can never be bought.

But if you have it not. This will be the best way to get it — or something like it. Give up your life completely to the task; sit daily for six hours in the Old Absinthe House, and sip the icy opal; endure till all things change insensibly before your eyes, you changing with them; till you become as gods, knowing good and evil, and that they are not two but one.