Curitiba é fria e úmida, o elemento água do naturalismo antigo: inverno, fleuma, calma, apatia. Sabemos que o sol se foi quando as nuvens apagam e os postes acendem, há uma orgia de chuva com luz amarela. A cidade toda torna-se uma foto sépia de Dali, escorrendo. Saindo da biblioteca tem a pizza do Itália, a melhor da cidade, e de lá o café do Metrópolis, o melhor da cidade. Eu sou frio e úmido como Curitiba, meu moletom está molhado, meus cabelos, meias. Subo no ônibus cinzento que nada veloz pela BR, em seu duelo eterno contra apitos de contenção de velocidade. Que fog que nada, não se pode enxergar cinco metros por entre estes raios d’água cor de mostarda, vingança talvez de Tupã ou Oxumaré. A chuva invade o tubo do Politécnico, onde estudantes são prisioneiros com olhares de cumplicidade; é a paixão humana pelo desastre, por qualquer coisa que destrua a rotina, uma chuva forte demais para se guardar contra, dez minutos de ócio não produtivo, a bandeira do Brasil encharcada no mastro. O cobrador escuta futebol num radinho.

E eu que nem guarda-chuva tenho saio pulando, e a grama voltou a ser o pântano original, e sou sapo e Tupã e Oxumaré, eu sou frio e úmido como Curitiba, e sou feliz.